| ANTROPOP
#1
SÍNDROME DO FIM
DE SITCOM
Friends
acabou, e agora? A resposta das ruas sobre essa pertinente
questão que permeia o imaginário pop
por Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)
erminou o sonho da Geração Coca-Cola.
Você não mais verá os seis amigos
residentes em Nova York ficarem cada vez mais ricos
toda vez que aparecerem para um café informal
no Central Perk. Isso é, só quando o desgaste
das intermináveis reprises permitir. Diga adeus
aos novos episódios que mostravam o convívio
do paleontólogo e sua irmã cozinheira,
da massagista, da vendedora bem-sucedida da Ralph Lauren
(esposa de outro dos maiores cachês de Hollywood),
do ator em ascensão que tornou-se um pé
no saco na última temporada porque vai ganhar
série própria e do... Em que mesmo Chandler
trabalha? Droga, perdi meu apartamento (e que convenhamos,
na vida real não deve mesmo ser daquele tamanho
para o padrão de vida dos personagens...)!
Depois da reportagem que anunciava os intervalos comerciais
do último capítulo de Friends
como os mais caros da história, a âncora
da CNN virou-se toda cheia de bico para a câmera
e disse que sentiria falta da série. Logo ao
lado, seu companheiro de telejornal retrucou que a ele
não faria falta nenhuma. Seguiu-se uma discussão
sobre o que seria da agora chatíssima vida do
americano comum em frente da TV sem Friends,
também sem a libertinagem feminina nunca antes
vista de Sex & The City e ainda
sem Frasier, outras duas lucrativas
empresas que cerraram portas em 2004.
Mas como é um mundo globalizado esse em que
vivemos, os enlatados acabam caindo direitinho no gosto
do público daqui também, essa massa vulnerável
de terceiro mundo que mal consegue pagar suas contas
e quer tentar seguir com sua vidinha urbanóide
de congestionamentos e satisfação dominical
em shoppings. Não é considerado digno
de ter vivido nos anos 90 e 00, o jovem brasileiro que,
beneficiado por uma assinatura de TV a cabo ou não,
desconhece a existência dos Friends.
O final da série por aqui vem causando comoção
senão semelhante, pelo menos pouco menor do quase-frenesi
que aconteceu lá pela terra do Tio Bush.
Denominaremos essa patologia acima diagnosticado como
SFS - Síndrome do Fim de Sitcom. O primeiro passo
para verificá-la foi sair a campo e averiguar
os sintomas. O primeiro ambiente, escolhido de improviso
sob o fervor da experimentação científica,
foi o laboratório de computação
de uma universidade qualquer da baixada santista. Com
a atenção totalmente atraída para
a tela de atualização do Fotolog que aparecia
no monitor, a cobaia de gênero feminino que não
sabia que fazia parte do experimento (pré-escolhida
por apresentar comportamentos maníaco-compulsivos
que a classificavam como um fã de Friends),
acabou passando para o cara sentado ao lado a chance
de resposta para a seguinte questão: "O
que você fará da sua vida agora que Friends
acabou?".
"Vou fazer um abaixo-assinado mundial pra que
volte", essa foi a resposta imediata. Complementando,
o cobaia que também não sabia estar fazendo
parte de um experimento, citou o caso da personagem
Phoebe, que arranca risadas quando empunhava violão
e entoava o primeiro verso de "Smelly Cat".
O exemplo é confirmado inclusive por este que
conduz a pesquisa. Os comentários sobre o assunto
envolveram uma terceira pessoa, sentada de costas ao
local onde decorria a discussão, chamada a atenção
pelo tema da conversa com sorriso devidamente pronto
no rosto por se tratar de Friends.
Passada a primeira observação, feita
na surdina e que mesmo assim rendeu bons resultados,
ainda que vindos de uma cobaia adversa ao foco da experimentação
meia-boca, agora a segunda fase de recolhimento de dados
tinha um meio específico para acontecer e depoimento
exclusivo de um voluntário. Pelo orelhão
(telefone cortado é foda), Fabiana Frazão,
20, respondeu à pergunta, "O que você
vai fazer da sua vida agora que Friends acabou?".
"Vou esperar pra ver se a série que o Joey
ganhou vai ser assim tão engraçada",
responde. "Fico triste. Era viciada", emenda.
Desconhecendo o motivo de respostas assim tão
secas para uma entrevistada conhecida por seu jeito
extrovertido, a pesquisa pára por aqui justamente
por considerar a SFS de pouco perigo à saúde,
a não ser naqueles casos em que os afetados pela
síndrome não tem mais o que fazer da vida
e fundam fã-clubes, criam sites e pagam fortunas
por fotos exclusivas e/ou autografadas.
Quando o que mais se espera é uma declaração
jornalisticamente bombástica como "agora
vou ter que apelar pra novela", ou "já
marquei hora com o terapeuta aqui da rua", é
melhor encerrar mesmo as coisas, já que o que
as pessoas mais querem são subprodutos da série
que já vêm previamente com o selo de qualidade
duvidosa, ou ainda ansiando para que a escatologia juvenil
dos personagens durasse mais dez anos. Os Friends
cinquentões, por exemplo, continuariam a dividir
uma torta de queijo no chão, e se esforçariam
para não deixar a bolinha cair durante um episódio
inteiro.
Este texto é inspirado em Eduardo Fernandes,
editor dos sites Fraude, Gonzo e da revista
Radar Cultural. É também uma tentativa
frustrada de homenageá-lo. 
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