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7 a 27 de junho de 2004

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ANTROPOP #1

SÍNDROME DO FIM DE SITCOM
Friends acabou, e agora? A resposta das ruas sobre essa pertinente questão que permeia o imaginário pop

por Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

erminou o sonho da Geração Coca-Cola. Você não mais verá os seis amigos residentes em Nova York ficarem cada vez mais ricos toda vez que aparecerem para um café informal no Central Perk. Isso é, só quando o desgaste das intermináveis reprises permitir. Diga adeus aos novos episódios que mostravam o convívio do paleontólogo e sua irmã cozinheira, da massagista, da vendedora bem-sucedida da Ralph Lauren (esposa de outro dos maiores cachês de Hollywood), do ator em ascensão que tornou-se um pé no saco na última temporada porque vai ganhar série própria e do... Em que mesmo Chandler trabalha? Droga, perdi meu apartamento (e que convenhamos, na vida real não deve mesmo ser daquele tamanho para o padrão de vida dos personagens...)!

Depois da reportagem que anunciava os intervalos comerciais do último capítulo de Friends como os mais caros da história, a âncora da CNN virou-se toda cheia de bico para a câmera e disse que sentiria falta da série. Logo ao lado, seu companheiro de telejornal retrucou que a ele não faria falta nenhuma. Seguiu-se uma discussão sobre o que seria da agora chatíssima vida do americano comum em frente da TV sem Friends, também sem a libertinagem feminina nunca antes vista de Sex & The City e ainda sem Frasier, outras duas lucrativas empresas que cerraram portas em 2004.

Mas como é um mundo globalizado esse em que vivemos, os enlatados acabam caindo direitinho no gosto do público daqui também, essa massa vulnerável de terceiro mundo que mal consegue pagar suas contas e quer tentar seguir com sua vidinha urbanóide de congestionamentos e satisfação dominical em shoppings. Não é considerado digno de ter vivido nos anos 90 e 00, o jovem brasileiro que, beneficiado por uma assinatura de TV a cabo ou não, desconhece a existência dos Friends. O final da série por aqui vem causando comoção senão semelhante, pelo menos pouco menor do quase-frenesi que aconteceu lá pela terra do Tio Bush.

Denominaremos essa patologia acima diagnosticado como SFS - Síndrome do Fim de Sitcom. O primeiro passo para verificá-la foi sair a campo e averiguar os sintomas. O primeiro ambiente, escolhido de improviso sob o fervor da experimentação científica, foi o laboratório de computação de uma universidade qualquer da baixada santista. Com a atenção totalmente atraída para a tela de atualização do Fotolog que aparecia no monitor, a cobaia de gênero feminino que não sabia que fazia parte do experimento (pré-escolhida por apresentar comportamentos maníaco-compulsivos que a classificavam como um fã de Friends), acabou passando para o cara sentado ao lado a chance de resposta para a seguinte questão: "O que você fará da sua vida agora que Friends acabou?".

"Vou fazer um abaixo-assinado mundial pra que volte", essa foi a resposta imediata. Complementando, o cobaia que também não sabia estar fazendo parte de um experimento, citou o caso da personagem Phoebe, que arranca risadas quando empunhava violão e entoava o primeiro verso de "Smelly Cat". O exemplo é confirmado inclusive por este que conduz a pesquisa. Os comentários sobre o assunto envolveram uma terceira pessoa, sentada de costas ao local onde decorria a discussão, chamada a atenção pelo tema da conversa com sorriso devidamente pronto no rosto por se tratar de Friends.

Passada a primeira observação, feita na surdina e que mesmo assim rendeu bons resultados, ainda que vindos de uma cobaia adversa ao foco da experimentação meia-boca, agora a segunda fase de recolhimento de dados tinha um meio específico para acontecer e depoimento exclusivo de um voluntário. Pelo orelhão (telefone cortado é foda), Fabiana Frazão, 20, respondeu à pergunta, "O que você vai fazer da sua vida agora que Friends acabou?".

"Vou esperar pra ver se a série que o Joey ganhou vai ser assim tão engraçada", responde. "Fico triste. Era viciada", emenda. Desconhecendo o motivo de respostas assim tão secas para uma entrevistada conhecida por seu jeito extrovertido, a pesquisa pára por aqui justamente por considerar a SFS de pouco perigo à saúde, a não ser naqueles casos em que os afetados pela síndrome não tem mais o que fazer da vida e fundam fã-clubes, criam sites e pagam fortunas por fotos exclusivas e/ou autografadas.

Quando o que mais se espera é uma declaração jornalisticamente bombástica como "agora vou ter que apelar pra novela", ou "já marquei hora com o terapeuta aqui da rua", é melhor encerrar mesmo as coisas, já que o que as pessoas mais querem são subprodutos da série que já vêm previamente com o selo de qualidade duvidosa, ou ainda ansiando para que a escatologia juvenil dos personagens durasse mais dez anos. Os Friends cinquentões, por exemplo, continuariam a dividir uma torta de queijo no chão, e se esforçariam para não deixar a bolinha cair durante um episódio inteiro.

Este texto é inspirado em Eduardo Fernandes, editor dos sites Fraude, Gonzo e da revista Radar Cultural. É também uma tentativa frustrada de homenageá-lo.