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Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
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11 a 25 de julho de 2004

Equipe Edições Anteriores

ANTROPOP #2

TODO O JORNALISMO É CULTURAL
Especialista político econômico ou cronista esportivo, tremei: vocês também fazem um trabalho digno de estar nas Ilustradas e Cadernos 2 da vida.

por Julio Ibelli (julio@rabisco.com.br)

DAS "(...) Essa expressão, jornalismo cultural, é um pouco incômoda, (...) porque parece tratá-lo da mesma forma como tantas vezes ele ainda é tratado pela grande imprensa brasileira - desempenhando um papel algo secundário, quase decorativo (...)", é o que escreve Daniel Piza logo na primeira página de seu livro Jornalismo Cultural (Editora Contexto). Pois bem, é chegada a hora da fauna moderninha dos cadernos culturais olhar desafiadora por cima de seus óculos de aro grosso, apontar o dedo para os engravatados das outras redações do jornal e fazer valer toda a atitude das bandas cujos nomes eles carregam na camiseta. Não uma atitude Belle and Sebastian , mas quem sabe uma Nine Inch Nails, por exemplo.

DAS Hora de fazer o jornalista quatrocentão (que também deve viver de umas boas boquinhas na política) se lembrar de suas primeiras aulas na faculdade, sim, aquelas a que ele assistia mais por obrigação do papai rico que custeava seus estudos do que por vontade de aprender, por exemplo, como se talhava na pedra para fazer anotações ou como operar a prensa de Gutenberg (vou lá eu saber que raio de coisas se aprendiam em uma faculdade há 50 anos atrás ou mais? Pelo menos devia ter uma professora gostosa de saia no meio da canela pra compensar, não é verdade?).

DAS Se o conceito esclarece que é cultura todo o ambiente à parte na natureza que o homem criou para sobreviver, não só físico como também de regimentos sociais (o que numa leitura mais atual seria o nosso cotidiano urbano), então desde o repórter iniciante que foi cobrir a nova contratação do time de futebol até o dinossauro que escreve com maestria sobre os seus semelhantes no Senado ou na Câmara, todos eles estão fazendo jornalismo cultural, documentando a cultura.Ainda que segmentada, devido à sua enorme abrangência.

DAS A política seria a cultura que os homens criaram para governarem uns aos outros, e o esporte, a que se convencionou sobre superação em atividades físicas sobre outro indivíduo, que também traz bem-estar para o corpo e alma. Daniel Piza sacramenta: "A cultura está em tudo". O que observamos hoje nos chamados cadernos culturais dos jornais seria o que ficou subentendido como atividade 'lúdica' (música, pintura, etc) que o homem desenvolve, mas que mesmo assim sustenta todas as outras e/ou é aproveitada por elas. Obra de arte, a arquitetura de Brasília? Pois é de lá que vem a decisão de quanto você vai pagar de juros na prestação da máquina de lavar. Achou fraquinho o exemplo?

DAS Foi ao perceber esse potencial lúdico que se criou a indústria cultural, ferramenta com que a população é controlada de acordo com as convicções de determinado governo. Muito apocalíptico: como uma novelinha inocente ou uma história em quadrinhos pode regular a minha vida? Então preste bastante atenção daqui pra frente quando for ler a resenha de um lançamento de CD qualquer no jornal, por exemplo. Procure pela gravadora, depois vá pesquisar qual é o seu faturamento e depare-se com a quantidade de outras empresas com que ela é ligada. Inclusive aquela agência de publicidade, na qual trabalha o publicitário que elaborou a campanha do atual presidente da república, pode estar fazendo parte desse conglomerado empresarial.

DAS De repente nós não entendemos como a qualidade dos programas da Globo pode ter caído tanto. Já que povo ignorante é vantagem pro governo, nada mais natural para o maior nome do entretenimento nacional lançar umas cinco Darlenes por ano. Essa lavagem cerebral indireta parece ser mais sanguinária do que a propaganda descarada de governos autoritários ao extremo.

DAS Portanto, daqui pra frente, não mais nos menospreze, os jornalistas culturais. Com a simples resenha de um CD da Britney Spears ou do último filme do Ben Stiller , nós podemos estar mudando o rumo da sua vida. Tenha medo da gente, o que nós mesmos já aprendemos a fazer faz tempo. Medo esse que nos envolve nessa aura de falta de credibilidade de que gostamos tanto de ostentar e de que falem mal.