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19 de setembro a 2 de outubro de 2002



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AQUARELA #3

LIBERDADE ILUSÓRIA
A mulherada joga fora anos de luta por direitos iguais em troca de uma entrada grátis

por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)

urante a minha pesquisa sobre Literatura de Cordel, deparei–me em um site com a seguinte estrofe, publicada no Jornal Movimento (Rio–São Paulo, edição 178 – 26/11/78 a 31/12/78):

" Em toda situação
A mulher é explorada
Até prá fazer anúncio
Se bota a mulher pelada "

Confesso que fui tomada por uma súbita certeza de que deveria escrever sobre este assunto, embora ele seja polêmico, já que passei os últimos trinta dias analisando fatos referentes ao uso da mulher como “isca” masculina.

Há um mês encontrava – me a caminho da faculdade quando avistei um outdoor anunciando um show, cujos artistas principais eram ícones da música brega e do forró. Repentinamente, desvio o olho para o canto direito do anúncio e me deparo com um retângulo verde onde estava escrito em letras brancas: 2000 ingressos foram distribuídos entre as universitárias das três principais universidades do estado.

Meu queixo caiu. Li aquela frase duas, três, quatro vezes, para ter certeza de que a visão não estava me traindo. E não estava mesmo. Naquela tarde, tomando um lanche com uns amigos, recebemos em nossa mesa um rapaz que entregava convites para as garotas que desejassem servir de atrativo para o sexo oposto no evento em questão. Um amigo chegou a questionar a gratuidade apenas para meninas, e o rapaz nada pode fazer além de tentar argumentar, em vão, tal decisão. Como consolo ofereceu um convite ao meu amigo, que polidamente recusou, pois sua intenção era por em xeque esta atitude grotesca que vem sendo proliferada pelo país em roupagens diferentes, seja distribuindo ingressos para shows ou oferecendo gratuidade ao público feminino até a meia – noite em boates.

No entanto, a disseminação destes acontecimentos é contraditória, considerando que há muito tempo as mulheres pregam um discurso de igualdade de oportunidades e liberdade de ações e pensamentos, onde alegam merecer o mesmo respeito destinado à classe masculina em qualquer área da sociedade. Particularmente não discordo desta filosofia, por esta razão sinto – me constrangida quando vejo – as interpretando o papel de cerveja, saltitando diante de um ingresso gratuito, onde serão usadas como meros objetos de persuasão ou rebolando em calças justíssimas diante de gritos de: “cachorra!”, “purpurinada!”, “popozuda!”. É difícil acreditar que estas mesmas criaturas soltem raios e trovões quando ouvem piadas do tipo: “Por que mulher não escuta walkman? Resposta: porque o som não se propaga no vácuo”.

Se o adjetivo é isca, preparada ou burra, não importa. A gravidade é exatamente igual. De um modo ou de outro, a moral da história ainda é aquela que circulava na época dos nossos bisavós: a mulher não tem valor. E nos últimos anos, esta desvalorização tem enchido os bolsos dos espertalhões que souberam utilizar tal circunstância em benefício próprio. Seus propósitos são bem sucedidos em todas as ocasiões, sem receber uma advertência sequer. A mulherada comparece maciçamente, fazendo caras e bocas, e afirmando que de graça até injeção na testa. É por essas e outras que muitos marmanjos alteram o ditado popular para: “finge que és livre, que eu finjo que acredito”.