| AQUARELA #3
LIBERDADE ILUSÓRIA
A mulherada joga fora anos de
luta por direitos iguais em troca de uma entrada grátis
por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)
urante
a minha pesquisa sobre Literatura de Cordel, deparei–me em
um site com a seguinte estrofe, publicada no Jornal Movimento
(Rio–São Paulo, edição 178 – 26/11/78
a 31/12/78):
" Em toda situação
A mulher é explorada
Até prá fazer anúncio
Se bota a mulher pelada "
Confesso que fui tomada por uma súbita certeza
de que deveria escrever sobre este assunto, embora ele seja polêmico,
já que passei os últimos trinta dias analisando fatos
referentes ao uso da mulher como “isca” masculina.
Há um mês encontrava – me a caminho
da faculdade quando avistei um outdoor anunciando um show, cujos
artistas principais eram ícones da música brega e
do forró. Repentinamente, desvio o olho para o canto direito
do anúncio e me deparo com um retângulo verde onde
estava escrito em letras brancas: 2000 ingressos foram distribuídos
entre as universitárias das três principais universidades
do estado.
Meu queixo caiu. Li aquela frase duas, três,
quatro vezes, para ter certeza de que a visão não
estava me traindo. E não estava mesmo. Naquela tarde, tomando
um lanche com uns amigos, recebemos em nossa mesa um rapaz que entregava
convites para as garotas que desejassem servir de atrativo para
o sexo oposto no evento em questão. Um amigo chegou a questionar
a gratuidade apenas para meninas, e o rapaz nada pode fazer além
de tentar argumentar, em vão, tal decisão. Como consolo
ofereceu um convite ao meu amigo, que polidamente recusou, pois
sua intenção era por em xeque esta atitude grotesca
que vem sendo proliferada pelo país em roupagens diferentes,
seja distribuindo ingressos para shows ou oferecendo gratuidade
ao público feminino até a meia – noite em boates.
No entanto, a disseminação destes
acontecimentos é contraditória, considerando que há
muito tempo as mulheres pregam um discurso de igualdade de oportunidades
e liberdade de ações e pensamentos, onde alegam merecer
o mesmo respeito destinado à classe masculina em qualquer
área da sociedade. Particularmente não discordo desta
filosofia, por esta razão sinto – me constrangida quando
vejo – as interpretando o papel de cerveja, saltitando diante
de um ingresso gratuito, onde serão usadas como meros objetos
de persuasão ou rebolando em calças justíssimas
diante de gritos de: “cachorra!”, “purpurinada!”,
“popozuda!”. É difícil acreditar que estas
mesmas criaturas soltem raios e trovões quando ouvem piadas
do tipo: “Por que mulher não escuta walkman? Resposta:
porque o som não se propaga no vácuo”.
Se o adjetivo é isca, preparada ou burra,
não importa. A gravidade é exatamente igual. De um
modo ou de outro, a moral da história ainda é aquela
que circulava na época dos nossos bisavós: a mulher
não tem valor. E nos últimos anos, esta desvalorização
tem enchido os bolsos dos espertalhões que souberam utilizar
tal circunstância em benefício próprio. Seus
propósitos são bem sucedidos em todas as ocasiões,
sem receber uma advertência sequer. A mulherada comparece
maciçamente, fazendo caras e bocas, e afirmando que de graça
até injeção na testa. É por essas e
outras que muitos marmanjos alteram o ditado popular para: “finge
que és livre, que eu finjo que acredito”.
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