| AQUARELA #7
QUANTO VALE A SUA VIDA?
A existência humana vive um
paradoxo: enquanto a tecnologia avança para garantir uma
melhor qualidade de vida, as relações humanas sofrem
um retrocesso assustador
por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)
ma
propaganda de cartão de crédito, veiculada recentemente,
afirmava que certas coisas não têm preço. Até
algum tempo atrás eu acreditava que a vida humana figuraria
entre os itens que nenhum dinheiro no mundo pagaria. Porém,
observando que as páginas policiais dos jornais ganharam
mais espaço – alguns deles têm venda garantida
através destes cadernos – e que o número de
programas que enfocam crimes e tragédias possuem picos no
ibope televisivo, é de chamar a atenção a gratuidade
com que vidas vêm sendo tiradas, e como esta situação
tem sido vista pela comunidade em geral como algo habitual.
Os motivos que levam alguém a tirar a vida
alheia, ou pagar para que terceiros o façam, variam de uma
ínfima dívida de RS 0,10 ao desejo de obter uma herança
que está demorando a ser entregue. A lista de razões
é imensa e absurda, porém, parece não estar
mais causando impacto na sociedade. Os vilões das telas de
cinema e das novelas, que antigamente pareciam coisas de outro mundo,
e deixavam os telespectadores chocados, por não medirem esforços
para destruir seus inimigos, são hoje personificados por
indivíduos normais, que assumem estes papéis com a
mesma naturalidade com que respiram, e encontram dentro do meio
social uma platéia cada dia menos perplexa.
Os crimes viraram lugar comum. Suas causas, idem.
Até o fato de se ter uma opinião divergente, pode
ser motivo de perda de uma vida. A lei agora é tirar do caminho
tudo e TODOS que se contrapõem ao desejo humano. Este individualismo
que vem reinando nas últimas décadas funciona como
um buraco negro, para onde tudo deve convergir, e é este
modelo de comportamento que está destruindo a paz social.
Se alguém discorda da direção indicada, é
aniquilado, por ser um obstáculo, a pedra no caminho que
fatigou as retinas e que precisa ser retirada a qualquer custo,
seja ele, RS 1,00, RS 10,00, RS 50,00 ou um milhão. No mercado
há quem se disponha a fazer o serviço e aqueles que
consomem suas conseqüências com a mais dedicada atenção,
dando provas de que estamos voltando à época romana,
quando a audiência delirava diante dos ferozes leões
comedores de gente.
Estaremos de volta à barbárie? É
de se perguntar o que está acontecendo, não? Será
que com todo o progresso tecnológico que tivemos, conseguimos
um retrocesso nas relações humanas por conta de um
modo de vida narcisista e materialista, que vem contaminando os
indivíduos? É de assustar!!! E acredito que além
destes fatores é de aterrorizar, também, que a maioria
da população busque informações sobre
os delitos cometidos apenas para matar a curiosidade a respeito
do ocorrido, e não porque tal situação seja
triste, brutal ou inaceitável. Depois de analisar esta questão,
a conclusão que cheguei é que vida humana virou um
produto: tem fornecedor, preço e público consumidor.
P.S – Para quem não acredita que se
possa matar alguém por causa de 0,10 centavos, houve um caso
na cidade de Recife em que um passageiro de um transporte alternativo
descarregou sua arma no cobrador porque este não tinha seu
troco: 0,10 centavos. Quanto vale uma vida?
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