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14 a 27 de novembro de 2002



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AQUARELA #7

QUANTO VALE A SUA VIDA?
A existência humana vive um paradoxo: enquanto a tecnologia avança para garantir uma melhor qualidade de vida, as relações humanas sofrem um retrocesso assustador

por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)

ma propaganda de cartão de crédito, veiculada recentemente, afirmava que certas coisas não têm preço. Até algum tempo atrás eu acreditava que a vida humana figuraria entre os itens que nenhum dinheiro no mundo pagaria. Porém, observando que as páginas policiais dos jornais ganharam mais espaço – alguns deles têm venda garantida através destes cadernos – e que o número de programas que enfocam crimes e tragédias possuem picos no ibope televisivo, é de chamar a atenção a gratuidade com que vidas vêm sendo tiradas, e como esta situação tem sido vista pela comunidade em geral como algo habitual.

Os motivos que levam alguém a tirar a vida alheia, ou pagar para que terceiros o façam, variam de uma ínfima dívida de RS 0,10 ao desejo de obter uma herança que está demorando a ser entregue. A lista de razões é imensa e absurda, porém, parece não estar mais causando impacto na sociedade. Os vilões das telas de cinema e das novelas, que antigamente pareciam coisas de outro mundo, e deixavam os telespectadores chocados, por não medirem esforços para destruir seus inimigos, são hoje personificados por indivíduos normais, que assumem estes papéis com a mesma naturalidade com que respiram, e encontram dentro do meio social uma platéia cada dia menos perplexa.

Os crimes viraram lugar comum. Suas causas, idem. Até o fato de se ter uma opinião divergente, pode ser motivo de perda de uma vida. A lei agora é tirar do caminho tudo e TODOS que se contrapõem ao desejo humano. Este individualismo que vem reinando nas últimas décadas funciona como um buraco negro, para onde tudo deve convergir, e é este modelo de comportamento que está destruindo a paz social. Se alguém discorda da direção indicada, é aniquilado, por ser um obstáculo, a pedra no caminho que fatigou as retinas e que precisa ser retirada a qualquer custo, seja ele, RS 1,00, RS 10,00, RS 50,00 ou um milhão. No mercado há quem se disponha a fazer o serviço e aqueles que consomem suas conseqüências com a mais dedicada atenção, dando provas de que estamos voltando à época romana, quando a audiência delirava diante dos ferozes leões comedores de gente.

Estaremos de volta à barbárie? É de se perguntar o que está acontecendo, não? Será que com todo o progresso tecnológico que tivemos, conseguimos um retrocesso nas relações humanas por conta de um modo de vida narcisista e materialista, que vem contaminando os indivíduos? É de assustar!!! E acredito que além destes fatores é de aterrorizar, também, que a maioria da população busque informações sobre os delitos cometidos apenas para matar a curiosidade a respeito do ocorrido, e não porque tal situação seja triste, brutal ou inaceitável. Depois de analisar esta questão, a conclusão que cheguei é que vida humana virou um produto: tem fornecedor, preço e público consumidor.

P.S – Para quem não acredita que se possa matar alguém por causa de 0,10 centavos, houve um caso na cidade de Recife em que um passageiro de um transporte alternativo descarregou sua arma no cobrador porque este não tinha seu troco: 0,10 centavos. Quanto vale uma vida?