| AQUARELA #11
ALEGORIA DA EXISTÊNCIA
“Aquarela” se mostra
como uma belíssima metáfora sobre a vida
por Ana Lira (ana_lira@terra.com.br)
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| Aquarela, de Iyainã Alencar |
xistem
coisas da nossa infância que imprimem na alma uma marca tão
forte, que acabamos carregando a sensação que elas
nos proporcionam o resto da vida. Quando pequenina, uma música
de Toquinho, Vinício de Moraes, Guido Morra e Maurizio Fabrizio
acompanhava o meu dia–a–dia: “Aquarela”.
Lembro que corria para frente da televisão, já grandinha,
quando a Faber Castell resolveu colocá–la como trilha
sonora da propaganda de sua coleção de lápis.
Ficava olhando aqueles desenhos na TV e acompanhando a música.
Quando terminava, sempre cantava o resto da música sozinha
e às vezes ficava repetindo até mamãe mandar
parar.
Não por acaso esta coluna foi batizada com
o mesmo título. Na hora de escolher pensei em algo que me
fizesse feliz e lembrei que, mesmo adulta, quando queria me sentir
assim cantava esta canção. O nome me faz pensar na
comparação entre a vida e uma tela em branco. O pintor
é um agente criador e modificador daquele panorama estampado
pelos traços dos pincéis. Da mesma forma, o ser humano
é sujeito de sua própria existência. Ele pode
não prever o futuro, mas detém capacidade de adaptar-se
e assim modifica a realidade, buscando situações que
lhe sejam favoráveis.
Todas as vezes que leio a letra encontro algo que
não havia percebido antes. Antes eu dividia a letra em duas
etapas: a etapa em que os compositores falam da nossa capacidade
imaginativa, dos sonhos de nossa alma, de viajar o mundo, conhecer
outros países, outras culturas, admirar a beleza dos lugares,
a singularidade de cada situação e da etapa em que
eles falam da vida, do futuro, do menino que caminha rumo a algo
incerto, sob o qual ele não tem controle, não pode
prever. Mas nunca havia prestado atenção em uma terceira
etapa da música em que eles falam sobre a morte. São
os últimos versos da música.
Vamos todos juntos numa passarela de uma aquarela
que um dia enfim descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o
mundo
Que descolorirá
Um dia a Aquarela descolorirá. Não
será mais vida. O sol amarelo descolorirá. O castelo
descolorirá. O mundo descolorirá. A música
parece-me uma metáfora belíssima dos vários
ditados e máximas que dizem que devemos fazer de nossas vidas
o melhor que pudermos, pois um dia deixaremos de existir. O verbo
“descolorir” se adequa perfeitamente. A pintura descolore,
desbota, perde a vida. A gravura sem retoques sucumbe a algo que
é maior do que ela: o tempo. Nós deixamos de existir
quando o que se faz presente é maior do que a nossa capacidade
de alterar a realidade a nosso favor.
Quando refleti sobre estes últimos aspectos
da letra, fiquei ainda mais fascinada. Ela é tão simples,
sem apelos lingüísticos, sem rebuscamento e diz tantas
coisas em suas linhas e entrelinhas. Se quando criança me
sentia contente em ouví-la, hoje, com vinte e cinco anos
vividos, diante da revelação do que ela pode significar,
não me arrependo de pintar seus versos em minha Aquarela.
Para quem quiser cantar junto...
AQUARELA
(Toquinho, Vinício de Moraes, Guido Morra e Maurizio Fabrizio)
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando, Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo,
sereno indo e se a gente quiser
Ele vai pousar
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o
mundo
O menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave, que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe, conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe, bem ao certo, onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o
mundo
Que descolorirá
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