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5 a 18 de junho de 2003



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AQUARELA #20

ARQUIVOS DO INCONSCIENTE
Um bilhete com mais de cento e cinqüenta estórias...

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

 á se passaram onze anos desde que escrevi aquele bilhetinho. A década de 1990 se iniciava e, com ela, a minha adolescência. As meninas costumavam comprar diversas revistas femininas e trocar entre si para comentar os assuntos depois. Naquela época acontecia uma coisa engraçada, enquanto minhas amigas juntavam-se para fazer testes, ler horóscopo ou ver os colírios masculinos que estampavam as páginas, eu corria para a sessão de endereços na tentativa de achar alguém legal para trocar correspondência. Queria conhecer o mundo através das palavras alheias. Cheguei a remeter cartas para algumas pessoas e nunca obtive resposta. Era tão triste...

Um belo dia, quando achei que devia, e escondida dos meus pais, escrevi um bilhetinho para a sessão dizendo que queria me corresponder com pessoas da minha idade. Recebi 150 correspondências. Dividia meu tempo entre a escola, os estudos e as respostas. Não fazia mais nada na vida. Eram quase vinte cartas escritas por dia. Meus pais, depois de passado o susto, resolveram acompanhar de perto aquela aventura para saber onde eu estava me metendo, chegando, inclusive a corrigir o excesso de apetrechos que eu colocava nos envelopes.

Era uma festa. Pessoas de diversos locais, religiões, jeitos de ser. Um senhor me escreveu propondo casamento e insistindo que minha idade era 22 anos. Passei quase um mês convencendo-o de que eu não passava de uma garota que havia deixado as fraldas a pouco mais de uma década. Outro garoto leu a revista dentro de uma casa de recuperação de menores e me escreveu querendo alguém para trocar algumas palavras. Foi uma das melhores experiências que tive. Aprendi muito sobre a rotina daqueles que cometem delitos na adolescência e passam uma parte importante da vida encarcerados. Um dia ele parou de escrever e descobri, anos depois, com a ajuda do meu pai, que ele havia cumprido seu compromisso com a justiça, havia casado mas não se sabia em que cidade ele estava morando. Nunca mais soube dele...

Outra garota, que me escrevia, sofreu um acidente, perdeu a memória e depois de alguns anos me mandou uma carta contando que apenas naquele momento de sua vida reconhecia quem eu era. Meu melhor amigo, desta época, eu conheci pessoalmente seis meses depois da primeira correspondência que trocamos. Não o vejo há dez anos e meio. Tomamos caminhos completamente diferentes, mas continuamos nos correspondendo. Atualmente ele é pastor de uma igreja evangélica, e eu caminho para a perdição, segundo minha irmã carismática.

Hoje estas lembranças estão registradas apenas no meu coração. As cartas que eu tinha de boa parte dessas pessoas sumiram, não se sabe como, do meu almoxarifado. Desapareceram. Quase enlouqueci. Salvaram-se algumas poucas, das amizades mais recentes, que estavam guardadas em meu armário. Mas diversas histórias simplesmente foram apagadas da minha trajetória de vida. Nem de todas as pessoas eu lembro com clareza e recordava ao ler as cartas. Sinto uma espécie de descontinuidade. Tem algo faltando aqui. Algumas daquelas pessoas ainda tinham seus endereços anotados em agendas antigas (outra mania de adolescência devidamente arquivada) e cheguei a escrever novamente para retomar o contato. Poucas responderam. As demais devem ter mudado de bairro, ou de cidade, ou simplesmente partido.

Lembrei de tudo isso ontem, ao cair da tarde, quando recebi um pequeno envelope de uma menina de São Paulo. Todo coloridinho. Uma carta legal, dois santinhos, uma mensagem espírita, uma pergunta escrita em vermelho ao fim da carta (você gosta do “É o tchan?”. Resposta minha: não, eu gosto de Legião Urbana). A carta era, de certa forma, um reflexo da pessoa que se apresentava para mim. Meus olhos correram aquelas palavras desesperadamente e enfim acharam o que queria. Lá estava escrito: “peguei seu endereço num anúncio que colocou numa revista antiga”. Sorri sozinha durante um bom tempo. Incrédula. Como é que aquela revista ainda pode estar me trazendo correspondentes onze anos depois? Não sei, mas ela certamente abriu os arquivos da memória, me fazendo saborear momentos importantes de uma fase que hoje se mostra tão longe...tão longe...