| AQUARELA #20
ARQUIVOS DO INCONSCIENTE
Um bilhete com mais de cento e cinqüenta
estórias...
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
 á
se passaram onze anos desde que escrevi aquele bilhetinho. A década
de 1990 se iniciava e, com ela, a minha adolescência. As meninas
costumavam comprar diversas revistas femininas e trocar entre si
para comentar os assuntos depois. Naquela época acontecia
uma coisa engraçada, enquanto minhas amigas juntavam-se para
fazer testes, ler horóscopo ou ver os colírios masculinos
que estampavam as páginas, eu corria para a sessão
de endereços na tentativa de achar alguém legal para
trocar correspondência. Queria conhecer o mundo através
das palavras alheias. Cheguei a remeter cartas para algumas pessoas
e nunca obtive resposta. Era tão triste...
Um belo dia, quando achei que devia, e escondida dos meus pais,
escrevi um bilhetinho para a sessão dizendo que queria me
corresponder com pessoas da minha idade. Recebi 150 correspondências.
Dividia meu tempo entre a escola, os estudos e as respostas. Não
fazia mais nada na vida. Eram quase vinte cartas escritas por dia.
Meus pais, depois de passado o susto, resolveram acompanhar de perto
aquela aventura para saber onde eu estava me metendo, chegando,
inclusive a corrigir o excesso de apetrechos que eu colocava nos
envelopes.
Era
uma festa. Pessoas de diversos locais, religiões, jeitos
de ser. Um senhor me escreveu propondo casamento e insistindo que
minha idade era 22 anos. Passei quase um mês convencendo-o
de que eu não passava de uma garota que havia deixado as
fraldas a pouco mais de uma década. Outro garoto leu a revista
dentro de uma casa de recuperação de menores e me
escreveu querendo alguém para trocar algumas palavras. Foi
uma das melhores experiências que tive. Aprendi muito sobre
a rotina daqueles que cometem delitos na adolescência e passam
uma parte importante da vida encarcerados. Um dia ele parou de escrever
e descobri, anos depois, com a ajuda do meu pai, que ele havia cumprido
seu compromisso com a justiça, havia casado mas não
se sabia em que cidade ele estava morando. Nunca mais soube dele...
Outra garota, que me escrevia, sofreu um acidente, perdeu a memória
e depois de alguns anos me mandou uma carta contando que apenas
naquele momento de sua vida reconhecia quem eu era. Meu melhor amigo,
desta época, eu conheci pessoalmente seis meses depois da
primeira correspondência que trocamos. Não o vejo há
dez anos e meio. Tomamos caminhos completamente diferentes, mas
continuamos nos correspondendo. Atualmente ele é pastor de
uma igreja evangélica, e eu caminho para a perdição,
segundo minha irmã carismática.
Hoje estas lembranças estão registradas apenas no
meu coração. As cartas que eu tinha de boa parte dessas
pessoas sumiram, não se sabe como, do meu almoxarifado. Desapareceram.
Quase enlouqueci. Salvaram-se algumas poucas, das amizades mais
recentes, que estavam guardadas em meu armário. Mas diversas
histórias simplesmente foram apagadas da minha trajetória
de vida. Nem de todas as pessoas eu lembro com clareza e recordava
ao ler as cartas. Sinto uma espécie de descontinuidade. Tem
algo faltando aqui. Algumas daquelas pessoas ainda tinham seus endereços
anotados em agendas antigas (outra mania de adolescência devidamente
arquivada) e cheguei a escrever novamente para retomar o contato.
Poucas responderam. As demais devem ter mudado de bairro, ou de
cidade, ou simplesmente partido.
Lembrei
de tudo isso ontem, ao cair da tarde, quando recebi um pequeno envelope
de uma menina de São Paulo. Todo coloridinho. Uma carta legal,
dois santinhos, uma mensagem espírita, uma pergunta escrita
em vermelho ao fim da carta (você gosta do “É
o tchan?”. Resposta minha: não, eu gosto de Legião
Urbana). A carta era, de certa forma, um reflexo da pessoa que se
apresentava para mim. Meus olhos correram aquelas palavras desesperadamente
e enfim acharam o que queria. Lá estava escrito: “peguei
seu endereço num anúncio que colocou numa revista
antiga”. Sorri sozinha durante um bom tempo. Incrédula.
Como é que aquela revista ainda pode estar me trazendo correspondentes
onze anos depois? Não sei, mas ela certamente abriu os arquivos
da memória, me fazendo saborear momentos importantes de uma
fase que hoje se mostra tão longe...tão longe...
|