equipe discussao anteriores
22/12/2003 a 3/1/2004



Picosearch

AQUARELA #32

OBJETO DIRETO E INDIRETO
Por que hoje somente é válida a busca de reconhecimento nos círculos mais amplos da sociedade?

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

ábado, 21h em Recife. 22h em qualquer outro lugar do Brasil que esteja em horário de verão. O documentarista João Moreira Salles acaba de dar uma entrevista ao canal Futura. Assisti aos últimos cinco minutos. Que pena! Queria ter visto tudo. No tempinho em que meus olhos ficaram grudados na tela, presenciei uma discussão interessante sobre reconhecimento. Próprio. A entrevistadora coloca que o ser humano não se reconhece mais, enquanto sujeito social, através do ambiente familiar ou da comunidade em que vive; e assim começa a buscar espaços públicos que possam lhe conferir visibilidade e a procurar a aprovação de terceiros – mesmo sem ter qualquer contato com eles – para validar um existir perante a sociedade.

Pensemos em uma situação prática. Durante a infância, quando realizamos nossas primeiras tarefas, corremos para os braços dos pais para mostrar o resultado dos nossos esforços e eles aplaudem, acham tudo lindo. No momento em que entramos na escola, as obras são mostradas aos pais e aos professores; as que mais se destacam são, muitas vezes, colocadas em local bem visível para que os coleguinhas vejam e sigam aquele bom exemplo. Ao longo desse período não precisamos de mais do que cinco ou dez pessoas para nos sentir cientes da capacidade de realizar as coisas. No entanto, quanto mais crescemos mais aumentam o número de pessoas que precisamos consultar para ter noção da importância do trabalho que realizamos, e eu creio que esse ponto merece uma reflexão.

Por que, à medida que vamos avançando, nossos pais e amigos deixam de contar significativamente como referência para aquilo que fazemos, e sentimos a necessidade de buscar desconhecidos para certificar nossa competência? Esse é um ponto que muito me inquieta. Acredito que parte do problema começa quando somos forçados a cruzar uma fronteira perigosa: de sujeito a objeto de um processo de vivência. Deixamos de realizar as atividades por conta própria, de surpreender os nossos pais e amigos criativamente e somos forçados a agir de acordo com o meio social. As ações deixam de acontecer de nós para o mundo e passam a ocorrer no sentido inverso. É aqui que passamos a ser objetos. Troféus. Se nossos pais conseguirem que sejamos exatamente como os núcleos sociais querem, então, eles são vitoriosos. Caso contrário, eles são um fracasso. Deixamos de ser Lucias, Marios, Cíceras, Guilhermes para sermos projeções de anseios muito maiores, que por escapar ao nosso controle podem trazer bons ou maus resultados.

Meninas não se contentam mais em serem dançarinas de suas companhias, querem ser dançarinas do É o Tchan. O concurso para a escolha da loira mostrou isso de forma clara: morenas pintando cabelos e sobrancelhas para ficarem loiras. A personagem interpretada por Débora Secco na atual Celebridade é outro exemplo do que essa guerra para deixar o anonimato e adquirir uma posição de destaque – seja qual for e de que maneira for – pode levar. E para quê? Para dizer: eu consegui. Eu sou reconhecido. Mesmo que essa identificação venha através de elementos maléficos, como João Moreira Salles destacou quando tratou do caso dos garotos que vivem em comunidades de baixa renda. O menino que vende chiclete é um desconhecido, enquanto o dono do pedaço é o que anda com um revólver trinta e oito na cintura.

Não sei se consegui emitir o que penso sobre o assunto. Ele é realmente complexo, mas creio que é justamente esse tipo de mudança, de sujeito para objeto de um sistema social, que faz com que as pessoas se sintam vazias quando não são notadas por ninguém mais que suas próprias famílias e ciclos de amizade mais próximos. Exercer uma atividade não é mais a meta e sim sair nas páginas dos jornais, ou na televisão, por causa dela. Os indivíduos buscam notabilidade em núcleos cada vez maiores e mais distantes de suas realidades, como se a quantidade de pessoas que conhecem o que eles realizam fosse determinante para certificar a qualidade – música boa é aquela ouvida por muitos; bandido bom é o que mete medo em todo o estado, e assim por diante. Deve ser por isso tantas pessoas têm feito loucuras para ganhar seus quinze minutos de fama.