| AQUARELA #32
OBJETO DIRETO E INDIRETO
Por que hoje somente é válida
a busca de reconhecimento nos círculos mais amplos da sociedade?
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
ábado,
21h em Recife. 22h em qualquer outro lugar do Brasil que esteja
em horário de verão. O documentarista João
Moreira Salles acaba de dar uma entrevista ao canal Futura.
Assisti aos últimos cinco minutos. Que pena! Queria ter visto
tudo. No tempinho em que meus olhos ficaram grudados na tela, presenciei
uma discussão interessante sobre reconhecimento. Próprio.
A entrevistadora coloca que o ser humano não se reconhece
mais, enquanto sujeito social, através do ambiente familiar
ou da comunidade em que vive; e assim começa a buscar espaços
públicos que possam lhe conferir visibilidade e a procurar
a aprovação de terceiros – mesmo sem ter qualquer
contato com eles – para validar um existir
perante a sociedade.
Pensemos em uma situação prática.
Durante a infância, quando realizamos nossas primeiras tarefas,
corremos para os braços dos pais para mostrar o resultado
dos nossos esforços e eles aplaudem, acham tudo lindo. No
momento em que entramos na escola, as obras são mostradas
aos pais e aos professores; as que mais se destacam são,
muitas vezes, colocadas em local bem visível para que os
coleguinhas vejam e sigam aquele bom exemplo. Ao longo desse período
não precisamos de mais do que cinco ou dez pessoas para nos
sentir cientes da capacidade de realizar as coisas. No entanto,
quanto mais crescemos mais aumentam o número de pessoas que
precisamos consultar para ter noção da importância
do trabalho que realizamos, e eu creio que esse ponto merece uma
reflexão.
Por que, à medida que vamos avançando,
nossos pais e amigos deixam de contar significativamente como referência
para aquilo que fazemos, e sentimos a necessidade de buscar desconhecidos
para certificar nossa competência? Esse é um ponto
que muito me inquieta. Acredito que parte do problema começa
quando somos forçados a cruzar uma fronteira perigosa: de
sujeito a objeto de um processo de vivência. Deixamos de realizar
as atividades por conta própria, de surpreender os nossos
pais e amigos criativamente e somos forçados a agir de acordo
com o meio social. As ações deixam de acontecer de
nós para o mundo e passam a ocorrer no sentido inverso. É
aqui que passamos a ser objetos. Troféus. Se nossos pais
conseguirem que sejamos exatamente como os núcleos sociais
querem, então, eles são vitoriosos. Caso contrário,
eles são um fracasso. Deixamos de ser Lucias, Marios, Cíceras,
Guilhermes para sermos projeções de anseios muito
maiores, que por escapar ao nosso controle podem trazer bons ou
maus resultados.
Meninas não se contentam mais em serem dançarinas
de suas companhias, querem ser dançarinas do É o Tchan.
O concurso para a escolha da loira mostrou isso de forma clara:
morenas pintando cabelos e sobrancelhas para ficarem loiras. A personagem
interpretada por Débora Secco na atual Celebridade
é outro exemplo do que essa guerra para deixar o anonimato
e adquirir uma posição de destaque – seja qual
for e de que maneira for – pode levar. E para quê? Para
dizer: eu consegui. Eu sou reconhecido. Mesmo que essa identificação
venha através de elementos maléficos, como João
Moreira Salles destacou quando tratou do caso dos garotos que vivem
em comunidades de baixa renda. O menino que vende chiclete é
um desconhecido, enquanto o dono do pedaço é o que
anda com um revólver trinta e oito na cintura.
Não sei se consegui emitir o que penso sobre o assunto.
Ele é realmente complexo, mas creio que é justamente
esse tipo de mudança, de sujeito para objeto de um sistema
social, que faz com que as pessoas se sintam vazias quando não
são notadas por ninguém mais que suas próprias
famílias e ciclos de amizade mais próximos. Exercer
uma atividade não é mais a meta e sim sair nas páginas
dos jornais, ou na televisão, por causa dela. Os indivíduos
buscam notabilidade em núcleos cada vez maiores e mais distantes
de suas realidades, como se a quantidade de pessoas que conhecem
o que eles realizam fosse determinante para certificar a qualidade
– música boa é aquela ouvida por muitos; bandido
bom é o que mete medo em todo o estado, e assim por diante.
Deve ser por isso tantas pessoas têm feito loucuras para ganhar
seus quinze minutos de fama.
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