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12 a 25 de janeiro de 2004



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AQUARELA #33

CARTA A UM VELHO AMIGO
A uma velha amizade, uma nova dúvida

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

aro amigo,

Não comunguei esse final de semana. Não pude sequer tocar a hóstia em meus lábios. Não consegui ouvir o padre dizer "o corpo de Cristo" e responder amém! Não foi possível. Como um flash me lembro de minha mãe correndo pela porta da igreja, em prantos, depois de passar pela mesma situação. Naquela época, ainda pequeno, não entendi o que aquilo significava. Ouvia apenas a minha avó resignada dizendo que aquilo iria acontecer e algumas senhoras ao nosso lado comentando que o sacerdote havia tomado a melhor decisão. Será?

Mamãe era uma bela jovem, como você mesmo recorda. Lembro bem dos olhares compridos que você deixava escapar para os vestidos de cambraia branca que ela usava para ir à feira no começo da manhã. Bela. Muito bela. Tão bela que conseguia esconder sob aquela expressão harmoniosa toda a melancolia que morava em seu ser. Era realmente um magnífico ser a minha mãezinha, pois apenas alguém com tamanhas qualidades conseguiria proteger o mundo das conseqüências de suas próprias tempestades internas. Mamãe é o exemplo de vida que não segui, do contrário não estaria aqui entre lágrimas, lembrando da comunhão negada pela segunda vez em meus quarenta e oito anos de existência.

Você sempre soube do meu ardor religioso, do respeito que eu sinto pelas ciências teológicas e da admiração que senti naquele dia em que anunciaste tua decisão. És um homem sábio e estudado, então, por que não concordas comigo? Por que não me estendes as mãos neste momento? Apenas porque não cumpri as promessas feitas no altar? Declinar diante de uma situação que causará maior sofrimento merece esse tipo de punição? Diga-me! Diga-me, meu amigo, irmão e padre. Serei aceito pela metade em tua casa por causa disso? Não acredito!

Tu sabes! Tu sabes que isso não é possível, homem! Tu sabes da minha dedicação às causas sociais. Conheces o meu empenho pela melhora da nossa comunidade. Deixei nossa cidade ainda imaturo, obtive conhecimento do mundo e voltei. Voltei para prestar serviços aos nossos conterrâneos, voltei para cuidar da lavoura de minha mãe que é fonte de trabalho para muitos em nossa pequena Ingá, e a hora mais importante da minha semana, que é a comunhão com todos aqueles que amo, me é negada porque me divorciei? Que tipo de lei é esta que segues? Aprendestes a rezar o mesmo catecismo que eu? Tens certeza?

As lágrimas de minha mãe escorrem agora junto às minhas. Ela foi uma mulher forte. Brava o suficiente para abandonar um homem que considerava ter direito de esmurrá-la apenas por comprar-lhe alguns cortes de tecido e presilhas para o cabelo. Ela não merecia perder suas funções na igreja, nem ser comentário na cidade, nem ver velhas beatas e mocinhas elegantes desdenhando de sua situação. “Dizem que ela é atrevida, responde alto. Mereceu aquelas tapas”. Tu lembras, Heitor? Lembras desta frase de tua avó que te fez levantar da mesa aos berros, defendendo a minha mãe?

Eu lembro da tua indignação, lembro sim! Então, por que agora me olhas de viés quando entro em teu templo e me fazes um sinal negativo quando faço menção de me aproximar para a comunhão? Por quê? Por não querer condenar a mim e a minha ex-esposa a uma vida infeliz? Eu não casei por amor, Heitor! Casei porque depois da morte de minha mãe, meus avós acharam que ter uma noiva seria a salvação da minha vida. Tu sabes disso! Eu não queria! Ela não queria! Mas nossas famílias queriam! Fizemos um trato de nos separar após o falecimento dos meus avós e dos pais dela, que eram muito velhos, e assim foi, tanto que não tivemos filhos, e eu quero ter um filho um dia. Não casamos de corpo e alma. Tu sabes! Tu celebraste aquela farsa. Então, porque me acusas agora de traição? Eu sei, eu sei, tu vais me dizer que não me acusas de nada, estás apenas cumprindo teu papel. Mas quando me negas acusas, Heitor!

Sim, chamo de Heitor! Heitor! Heitor! Heitor! Heitor! Quantas vezes for, Heitor! Amigo! Irmão! Não te chamarei de padre! Nem insista! Nem me peça para comparecer ao confessionário! Minha confissão é essa, Heitor! Nem tu, nem ninguém, tem o direito de me negar esse momento de encontro máximo com a religião que escolhi seguir porque desfiz uma farsa. O que vais me dizer? Tua cabeça mudou tanto assim? Tuas visitas às grandes congregações religiosas não te fizeram ver nada além de normas de exclusão? Por que abriste exceção para a minha mãe quando abraçaste o sacerdócio e não abres para mim? Não sentirei essa dor uma terceira vez.

            Afetuosamente,

                         Mario