| AQUARELA #33
CARTA A UM VELHO AMIGO
A uma velha amizade, uma nova dúvida
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
aro
amigo,
Não comunguei esse final de semana. Não
pude sequer tocar a hóstia em meus lábios. Não
consegui ouvir o padre dizer "o corpo de Cristo" e responder
amém! Não foi possível. Como um flash me lembro
de minha mãe correndo pela porta da igreja, em prantos, depois
de passar pela mesma situação. Naquela época,
ainda pequeno, não entendi o que aquilo significava. Ouvia
apenas a minha avó resignada dizendo que aquilo iria acontecer
e algumas senhoras ao nosso lado comentando que o sacerdote havia
tomado a melhor decisão. Será?
Mamãe era uma bela jovem, como você mesmo recorda.
Lembro bem dos olhares compridos que você deixava escapar
para os vestidos de cambraia branca que ela usava para ir à
feira no começo da manhã. Bela. Muito bela. Tão
bela que conseguia esconder sob aquela expressão harmoniosa
toda a melancolia que morava em seu ser. Era realmente um magnífico
ser a minha mãezinha, pois apenas alguém com tamanhas
qualidades conseguiria proteger o mundo das conseqüências
de suas próprias tempestades internas. Mamãe é
o exemplo de vida que não segui, do contrário não
estaria aqui entre lágrimas, lembrando da comunhão
negada pela segunda vez em meus quarenta e oito anos de existência.
Você sempre soube do meu ardor religioso, do respeito que
eu sinto pelas ciências teológicas e da admiração
que senti naquele dia em que anunciaste tua decisão. És
um homem sábio e estudado, então, por que não
concordas comigo? Por que não me estendes as mãos
neste momento? Apenas porque não cumpri as promessas feitas
no altar? Declinar diante de uma situação que causará
maior sofrimento merece esse tipo de punição? Diga-me!
Diga-me, meu amigo, irmão e padre. Serei aceito pela metade
em tua casa por causa disso? Não acredito!
Tu sabes! Tu sabes que isso não é
possível, homem! Tu sabes da minha dedicação
às causas sociais. Conheces o meu empenho pela melhora da
nossa comunidade. Deixei nossa cidade ainda imaturo, obtive conhecimento
do mundo e voltei. Voltei para prestar serviços aos nossos
conterrâneos, voltei para cuidar da lavoura de minha mãe
que é fonte de trabalho para muitos em nossa pequena Ingá,
e a hora mais importante da minha semana, que é a comunhão
com todos aqueles que amo, me é negada porque me divorciei?
Que tipo de lei é esta que segues? Aprendestes a rezar o
mesmo catecismo que eu? Tens certeza?
As lágrimas de minha mãe escorrem agora
junto às minhas. Ela foi uma mulher forte. Brava o suficiente
para abandonar um homem que considerava ter direito de esmurrá-la
apenas por comprar-lhe alguns cortes de tecido e presilhas para
o cabelo. Ela não merecia perder suas funções
na igreja, nem ser comentário na cidade, nem ver velhas beatas
e mocinhas elegantes desdenhando de sua situação.
“Dizem que ela é atrevida, responde alto. Mereceu aquelas
tapas”. Tu lembras, Heitor? Lembras desta frase de tua avó
que te fez levantar da mesa aos berros, defendendo a minha mãe?
Eu lembro da tua indignação, lembro sim! Então,
por que agora me olhas de viés quando entro em teu templo
e me fazes um sinal negativo quando faço menção
de me aproximar para a comunhão? Por quê? Por não
querer condenar a mim e a minha ex-esposa a uma vida infeliz? Eu
não casei por amor, Heitor! Casei porque depois da morte
de minha mãe, meus avós acharam que ter uma noiva
seria a salvação da minha vida. Tu sabes disso! Eu
não queria! Ela não queria! Mas nossas famílias
queriam! Fizemos um trato de nos separar após o falecimento
dos meus avós e dos pais dela, que eram muito velhos, e assim
foi, tanto que não tivemos filhos, e eu quero ter um filho
um dia. Não casamos de corpo e alma. Tu sabes! Tu celebraste
aquela farsa. Então, porque me acusas agora de traição?
Eu sei, eu sei, tu vais me dizer que não me acusas de nada,
estás apenas cumprindo teu papel. Mas quando me negas acusas,
Heitor!
Sim, chamo de Heitor! Heitor! Heitor! Heitor! Heitor! Quantas
vezes for, Heitor! Amigo! Irmão! Não te chamarei de
padre! Nem insista! Nem me peça para comparecer ao confessionário!
Minha confissão é essa, Heitor! Nem tu, nem ninguém,
tem o direito de me negar esse momento de encontro máximo
com a religião que escolhi seguir porque desfiz uma farsa.
O que vais me dizer? Tua cabeça mudou tanto assim? Tuas visitas
às grandes congregações religiosas não
te fizeram ver nada além de normas de exclusão? Por
que abriste exceção para a minha mãe quando
abraçaste o sacerdócio e não abres para mim?
Não sentirei essa dor uma terceira vez.
Afetuosamente,
Mario
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