| AQUARELA
#43
TRÊS CORES DE DÚVIDAS
O futebol pode ser paixão nacional, mas fica a dúvida: será que time se herda da família que nem móvel velho?
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
uro! Não consigo lembrar o dia em que comecei a torcer para o Santa Cruz. Recordo apenas que corria de um canto para outro do Arruda, com tio Paulo ofegante em meu encalço, berrando “volta aqui, menina!”, enquanto eu escalava os degraus até chegar ao topo da arquibancada. Quem visse aquela cena jamais imaginaria que, hoje, eu tenho medo até de olhar para a fileira mais alta, que dirá correr escadaria acima para me sentir quase no céu, enquanto vinte dois homenzinhos corriam atrás de uma bola no gramado.
Um desses dias eu me perguntava o motivo de torcer para esse time. Eu não o escolhi. Fui escolhida por ele, ou por quem achava que tinha autoridade de, em nome dele, me declarar torcedora. Cresci cercada de bandeiras nas cores vermelha, preta e branca e sempre aceitei as camisas, adesivos, canecas, balas e bonés que meu pai trazia para mim, e ficava feliz.
Quando a gente vai ficando mais velha e o gosto por futebol não caminha junto, esse tipo de questionamento começa a surgir. Pelo menos em mim surgiu. Eu não choro se o Santa Cruz perde um jogo. Na verdade, eu nem sei quando tem jogo, que campeonato o time está disputando ou o nome dos atuais jogadores.
A situação fica ainda mais gritante quando encontro a tia do meu pai andando pela casa com uma camisa tricolor costurada à mão e, no terraço, vejo pôsteres de quase todas as conquistas do time de vinte ou trinta anos atrás até hoje. Dona Maria, como papai a chama, nasceu no mesmo ano de fundação do time e tem todos os apetrechos possíveis do tricolor: relógio de parede e de pulso, caneca, almofada, cachaça, balas, entre outras coisas. A mais bizarra é um bonequinho de plástico que enfeita a porta da geladeira e ela chama carinhosamente de “buchudinho”.
Bem, carinhosamente apenas nos dias em que o time ganha, e ela corre para a cozinha, alisa a barriga do enfeite dizendo “muito bem, buchudinho! Muito bem!”. Nos dias em que o time perde, buchudinho fica igual a Santo Antônio quando não exerce sua função de casamenteiro: de cabeça pra baixo, no castigo. Assim permanece até que o time volte a ganhar. Nos dias em que isso acontece é fácil vê-la pendurando tiras de pano vermelhas, pretas e brancas nas grades da residência ou estendendo uma bandeira, que ela mesma costurou, na porta, para todo mundo ver.
Quem ousa entrar um pouco mais em sua rotina, num dia como esses, ainda tem a chance de encontrá-la cantarolando em plenos pulmões o hino do time e contando cada detalhe do jogo. Os olhos mareados de lágrimas me dizendo “foi bonito o jogo, não foi?”, e eu balançando a cabeça em sinal afirmativo, sem nem ter visto um minuto sequer da partida.
Outro dia eu assumi não ter assistido e amarguei a expressão de desgosto dela, que me perguntou, resmungando: “Então, para que ter a camisa do time?”. Quase respondo “boa pergunta!”, mas ela não escuta muito bem e eu teria que fazer mímica para fazê-la entender que eu não sei os motivos que me fazem dizer que torço pelo time que a família escolheu.
O pior é que se alguém me perguntasse para que outro time eu poderia torcer, também não saberia responder; e confesso que, de vez em quando, até sinto uma ponta de felicidade ao ver o time ganhar alguma coisa – se bem que isso tem sido cada vez mais raro, pois, nos últimos quatro anos, a profissão do Santa Cruz é perder para o Náutico na final do Campeonato Pernambucano.
O que me incomoda é não saber se essa felicidade é minha ou é induzida pelo sentimento de amor, em torno do time, que vem junto com geração da tia do meu pai há 60 anos. Acaba sendo uma espécie de marca, passada a cada novo integrante da família sem que se tenha tempo de questionar. A não ser que entre alguém de outro time no núcleo familiar.
Isso aconteceu com minhas primas de segundo grau. O pai de uma delas torce para o Sport e a mãe vem dessa sina tricolor. A menina, aos cinco anos de idade, viu uma reportagem sobre aquele que diziam ser o pior time de Pernambuco e, num instinto quase maternal, decidiu que o seu coraçãozinho bateria pelo Íbis. Bradava isso no almoço dos domingos com a boca melada de molho de tomate e via o pai e o avô se contorcerem de agonia.
Entre muitas risadas, eu agradecia imensamente aquele grito de liberdade, ainda que infantil e meio inconsciente da pequena. Não que eu ache que o Santa Cruz não mereça a torcida da minha família, merece sim; mas sou a favor de que cada um escolha para quem quer doar seu amor, ainda que seja por pouco tempo (como profetizam os demais membros da minha família sobre o sentimento da priminha pelo Íbis). Assim, se evita casos como o meu, que continuo torcendo sem saber por quê. |