| AQUARELA
#44
FALTOU O BAND - AID
Mais uma reflexão nascida dentro dos coletivos recifenses...
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
oje eu tomei um ônibus pela manhã e havia um cartaz colado em uma das vidraças informando aos passageiros que dia 25 de julho era o Dia do Motorista. Achei interessante a lembrança porque, no cotidiano, a gente quase nunca lembra que a maioria expressiva da população é guiada para vários destinos através deles. No entanto, o que ficou em minha mente o resto da viagem foi a quantidade de tempo que eu gasto dentro dos coletivos, e é neles que alguns dos textos que compõem esse espaço tomam forma.
Estava lembrando ontem que, em uma das viagens, ao contrário de sonhar acordada para passar o tempo, decidi colocar minha leitura dos outdoors em dia e vi que havia um novo curso preparatório para o vestibular. A iniciativa parecia ser de algum grupo do sudeste, pois a propaganda mostrava uma garota, bastante sorridente, com o rosto pintado, indicando que ela obteve a desejada aprovação.
O que há de estranho nisso? Para alguém que mora em São Paulo, nada; mas para quem mora em Recife, o rosto pintado dela não comunicava muita coisa. Algumas pessoas, quando viam o outdoor, perguntavam: esse curso é para quê? Um questionamento como esse indica que o grupo responsável pela elaboração da propaganda, possivelmente, não percebeu a diferença entre a maneira de um paulista e um pernambucano expressarem a aprovação no vestibular.
Aqui as pessoas não pintam o rosto. Os meninos raspam o cabelo – como deve acontecer em algumas outras partes do país – e as meninas retiram uma das sobrancelhas . Pode parecer radical, mas é verdade; e se elas conseguem aprovação em mais de uma universidade, elas tiram as duas. Por isso, o recado emitido pelos nossos amigos do curso pré-vestibular não era entendido imediatamente. Era preciso saber como os bichos (que aqui o pessoal chama fera ) comemoravam em São Paulo, para associar a pintura no rosto à entrada para universidade.
Se por um lado isso pode parecer detalhe, quando consideramos que ninguém anda pela rua parando para ler outdoor, esse curto-circuito cultural pode custar tanto para quem tem a empresa, quanto para os interessados que, de repente, poderiam conhecer um novo curso. No entanto, não é apenas no mundo dos negócios que essa falta de percepção pode vitimar um possível contato. Quando lidamos com espaços físicos e culturais diferenciados, um certo cuidado é necessário.
Lembro bem das minhas tentativas de amizade com pessoas de outros países. Não era sempre que o contato funcionava, e a gente sabe bem que algumas expressões usadas aqui de maneira divertida, fora do Brasil podem ter outra conotação. A nossa entonação também é diferenciada, o que muitas vezes fazia com que eu escrevesse algo com um determinado tom e meus interlocutores interpretassem de outra maneira.
Os que eram mais abertos a diálogos, questionavam os meus posicionamentos e pediam explicações; mas muita gente quando entendia algo de maneira diversa simplesmente deixava de escrever e eu ficava sem entender o que havia acontecido. Depois de algumas experiências desastrosas, eu acordei e compreendi o quanto a realidade influencia a nossa experiência com o mundo, e as leituras que fazemos dos sinais que recebemos todos os dias.
O indivíduo que passa na rua, olha o outdoor e continua seu caminho, sem ter percebido que se tratava de um curso pré-vestibular, tem uma atitude similar à pessoa que desiste de uma relação por ter interpretado de maneira diferente algo que foi dito por alguém que se encontra em uma cultura diversa. Nos dois casos, a comunicação foi truncada e a meta inicial se perdeu caminho afora.
Falando nisso, andando de ônibus esses dias, eu não lembro de ter visto mais a placa do curso no edifício ocupado por ele. Fiquei pensando se fechou ou se mudou de lugar? Caso tenha sido a primeira alternativa, espero que não tenha sido pelos motivos que eu citei; mas, se foi, acho que da próxima vez o pessoal vai preferir colocar um band-aid colorido na sobrancelha da modelo.
P.S – A título de curiosidade, não são todas as meninas que têm coragem de aniquilar a sobrancelha. Eu, por exemplo, não tive. Coloquei o band-aid por cima dela mesmo. Ninguém notou. Alguns dizem que a graça está em cumprir o ritual. Para mim a graça está em aproveitar a universidade. Além disso, eu fiz vestibular três vezes. Se, em todos eles, eu passasse a navalha nelas, acho que as coitadas iam rezar para eu me mudar para São Paulo. |