| AQUARELA
#45
FILME TRISTE
Se existe algo real no cenário político e eleitoral brasileiro é que, no fundo, ele nunca mudou.
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
oje
pela manhã, uma senhora vinha comentando no ônibus que não suportava mais ver televisão e relatava para a amiga, sentada ao lado, a queda qualitativa da programação nos diversos canais. Pegando o gancho na conversa dela, um senhor lamentava o início do horário eleitoral, dizendo que se a qualidade do conteúdo veiculado na televisão estava em declínio, a corrida pelo voto aumentaria consideravelmente as opções de baixo nível. “Não se faz debate político como antigamente”, concluía.
Fiquei pensando nisso. Será que algum dia o debate político e ideológico no Brasil foi travado de maneira sadia, como se referia o senhor em sua expressão “como antigamente”? Não consigo imaginar discussão saudável em um país que destruiu muitas vidas durante os diversos processos ditatoriais – e ainda destrói, de maneira velada, muitas outras hoje em dia. O nível de aceitação ideológica e política não passa nem perto do que se sonha para uma sociedade, em tese, democrática – até porque o conceito de democracia poderia muito bem constar em alguns desses livros dedicados às lendas, tamanha a distância existente entre o que se batiza com essa palavra e o que, de fato, ocorre na sociedade.
Por sinal, acredito que essa pose democrática do Brasil, que sempre foi alardeada em todos os governos (impressionante, como todo governo se diz democrático!) fixou-se com mais força quando o mandato de Tancredo Neves e José Sarney foi estabelecido, em 1985, marcando um período histórico que seria, teoricamente , de abertura política. No entanto, os acontecimentos das eleições seguintes, já em formato direto, confirmaram que a tão alardeada abertura era, na verdade, uma frestinha por onde passariam apenas aqueles que agradassem a um determinado núcleo, para não dizer sistema, e assim tem sido até hoje.
Tudo o que eu estou dizendo não é novidade, mas parece que as pessoas sofrem de amnésia em ano eleitoral e não percebem que a última coisa que se discute em época de eleição é política. A preocupação com um encadeamento coerente de propostas e alternativas de realização fica em último plano, o importante é fazer algo bonito ou apelativo para iludir a mente do eleitor e conseguir a vaga. Sem contar os momentos em que a vaga é conseguida na base do “jogo do contente”, ou seja, os políticos mostram as faces sujas uns dos outros e a população é induzida a escolher aquele que aparentemente tem menos manchas negras em seu passado.
Quem não lembra o clássico caso da eleição presidencial de 1989, quando concorreram Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor? O segundo candidato trouxe para a televisão uma senhora de nome Miriam, que dizendo ser ex-companheira de Luiz Inácio da Silva promoveu um verdadeiro espetáculo de cunho moral, acusando o primeiro candidato de ser um pai omisso e deixar mãe e filha na miséria. O programa seguinte de Luiz Inácio trazia a garota negando as palavras da mãe, mas não foi suficiente para limpar o estrago feito pela propaganda eleitoral de Fernando Collor.
Essas estratégias de baixo nível tomaram os guias eleitorais de todo o Brasil, desde então. O importante, ao longo da campanha, era buscar algum tipo de informação que comprometesse a credibilidade do oponente. Não importando quem desse a informação. Quanto mais próxima da data do pleito, melhor, pois, até provar que era inocente, o candidato acusado já teria perdido a eleição. Atualmente, as propagandas políticas nacionais procuram evitar, embora não seja sempre, essa espécie de postura porque o episódio Collor – Miriam X Lula – Lurian foi considerado vergonhoso e as assessorias políticas ficaram de olhos bem abertos nos anos seguintes.
Embora no âmbito nacional o nível da propaganda tenha melhorado – ainda que o debate político continue esquecido – não podemos ignorar que ainda acontecem situações desse gênero. Ciro Gomes não conseguiu ser salvo pela imagem carismática de Patrícia Pillar, nas últimas eleições presidenciais, quando o guia eleitoral de José Serra começou uma verdadeira campanha para mostrar que o candidato não possuía o controle emocional requerido a um líder nacional. O estereótipo de garotão descontrolado colou em Ciro Gomes a ponto de fazê-lo perder uma suposta segunda posição nas intenções de voto dos brasileiros.
Quando algo dessa natureza acontece, não tem volta, o candidato fica marcado. Voltando a 1989, a figura de Fernando Collor era a do playboy consciente em oposição à de Lula, mostrado como um operário rude e idealista. Na eleição seguinte, Fernando Henrique Cardoso foi mostrado como o intelectual poliglota e diplomado em oposição a um Luiz Inácio da Silva, colocado daquela vez não mais como operário rude e sim como analfabeto. O pleito de 2002 trouxe uma configuração mais abrangente de como o debate político se esvazia quando se tem algum dossiê pessoal ou idiossincrasia que pode se transformar em estereótipo. Garotinho foi a metralhadora giratória. Serra era o pupilo ideológico de FHC. Lula ainda era mostrado como analfabeto e não mais como o radical, porque além do PT ter virado um partido híbrido, havia mais dois candidatos a quem se conseguiu atribuir esse adjetivo: Ruy Pimenta, do PCO, e Zé Maria, do PSTU; e quando apareciam.
Esse é um detalhe relevante! A “democracia” no Brasil é tão sinistra que além de desfocar os principais interesses dos debates – que são os posicionamentos ideológicos e os planejamentos estratégicos e operacionais de cada candidato – ainda direcionam a atenção da população para aqueles que, nas pesquisas eleitorais, estão melhores colocados. No último pleito eleitoral, Zé Maria, do PSTU, e Rui Pimenta, do PCO, sequer pareciam existir. A desculpa era a de que eles não possuíam índice representativo no ibope.
Pensemos bem. Se a população brasileira é de aproximadamente 170 milhões de pessoas. Um candidato que tem 1% das intenções de voto tem uma representação considerável. É claro que esse valor acaba sendo muito menor que um milhão e setecentos mil eleitores, porque a eleição considera os votos válidos. A questão é que mesmo que apenas 100 pessoas, ou 10 pessoas, ou uma pessoa votasse naquele candidato, em uma sociedade que posa de democrata e quer elevar o nível dos debates das propagandas políticas, ele deveria ser ouvido e participar dos embates públicos de maneira igualitária com os demais.
Então, eu me sinto meio incomodada em ver esses arroubos de nostalgia das pessoas a respeito dos tempos antigos porque, no final das contas, diálogo e política quase nunca convergiram no Brasil. Se antes o que havia, salvo raríssimas exceções , era uma indústria de belos, calorosos e vazios discursos, hoje o que vemos é um jogo profissional de publicidade e imagem. Os posicionamentos, os planos de trabalho, a representação social são elementos decorativos na fotografia da política brasileira, que acaba sendo legitimada pela própria população, que além de não se comprometer seriamente com o processo eleitoral ainda abre espaço para que o baixo nível continue acontecendo, à medida que aumenta o número de famílias que sentam na frente da televisão, com um saco de pipoca, para rir e apreciar os espetáculos do horário eleitoral. |