| AQUARELA
#46
NA FOLHA DA MEMÓRIA...
Uma canção de Jessé que fala de solidão é meu sinônimo de companhia materna
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
ão recordo bem quem me disse essa semana que não me via escutando gêneros como trance music. Eu acho interessante essa colocação porque a minha formação musical – já que assim chamam – é tão variada que, algumas vezes, as pessoas ficam chocadas quando sabem que eu gosto de determinados artistas ou estilos musicais. Um dos que entram nesse leque das caras feias que me fazem é Jessé. Não entendo o motivo, mas também não vou discutir, claro!
Jessé é um dos poucos artistas que eu lembraria, de imediato, se alguém me questionasse o que tocava em casa na minha infância. Minha mãe costumava fazer os afazeres domésticos cantando “Porto Solidão” e essa se tornou uma das músicas da minha vida. Se meu pai foi responsável pelas parcelas clássica e revolucionária do que escuto, foi minha mãe quem me trouxe a cantoria, as vozes femininas e o meu lado mais iê iê iê – ela ouvia The Pops e ainda tinha um vinil antigo deles perdido por aqui. Acho que foi presente do meu pai, quando os dois ouviam as bandas da Jovem Guarda.
Lembrei desse assunto, e de Jessé, porque a minha rotina não permite que eu passe mais tanto tempo em casa e, quase sempre, chego em casa e mamãe está dormindo. Logo, quando andava pelo centro da cidade e ouvia, sem querer, “Porto Solidão” tocando em algum lugar, a presença dela invadia meu coração e eu passava o dia inteiro cantando “Se o veleiro repousasse na palma da minha mão” para guardar a sensação de tê-la mais junto de mim.
Essa vontade foi ficando tão recorrente no último mês, quando as aulas recomeçaram, que na última visita que fiz ao supermercado, e vi um disco de Jessé, trouxe para casa, sem pestanejar. Mostrei a ela quando estávamos passando no caixa. Mamãe me deu um sorriso enorme e comentou “não acredito, Nininha”. Quase tenho uma crise de choro pública. A minha mãe sempre me chamava de Nininha quando eu era pequena e esse é um apelido muito dela.
Algumas vezes eu ficava brincando no quarto quando ela gritava “Nininha, vem enxugar os pratos”, e eu deixava minhas bonecas e suas devidas casinhas e escolas construídas com caixa de papelão e ia para a cozinha com cara de tristeza secar a louça. Então, ela encostava-se ao balcão e começava a cantar “Porto Solidão” e eu ia acompanhando, com ela corrigindo as minhas diversas desafinadas; e, de repente, aquela atividade rotineira perdia toda a aridez.
O mais engraçado é que eu pensei que a canção de Jessé afetasse apenas a minha pessoa, mas levei o disco para o estágio durante a semana e minhas irmãs ligavam todo dia perguntando quando eu ia trazê-lo de volta. Todo mundo queria ouvir. Foi, então, que percebi o quanto mamãe marcou a alma das três filhas com essa música. De vez em quando a gente fazia faxina em casa cantando em coro, mas eu não sabia que isso também significava tanto para elas.
Eu não gosto muito de relacionar pessoas a músicas, e acho que falei disso aqui, anteriormente; mas “Porto Solidão” é a minha ponte com a minha mãe. Eu sei que em alguns anos eu vou sair de casa e morar em outro estado, ou país, porque jornalismo é uma profissão que pede que a gente corra atrás, invista o máximo que puder em nós mesmos, entre outras coisas.
Além disso, meu plano de vida, não inclui ficar em Recife esperando que os cursos que eu quero fazer cheguem aqui, então, me distanciar ainda mais da minha mãe – como ela se distanciou da dela, quando saiu de Penedo, em Alagoas, para vir morar na capital pernambucana – é meio inevitável. No entanto, em qualquer lugar onde eu estiver, não será um cheiro, uma cor, uma roupa, ou um livro – como é O Quinze , de Rachel de Queiroz, que marca minha vida com meu pai – e sim a voz de Jessé e os versos “Rimas, de ventos e velas / Vida, que vem e que vai / A solidão que fica e entra / Me arremessando contra o cais” que irão me levar até ela. Sempre. Sempre.
P.S – Essa coluna, é claro, foi escrita ouvindo Jessé. Além de “Porto Solidão”, cuja letra é de Gincko e Zeca Bahia, há mais três canções na voz dele que me deixam emotivamente balançada: “Alguém Cantando”, de Caetano Veloso; “Voa Liberdade”, de Mario Maranhão, Eunice Barbosa e Mário Marcos e “Como Nossos Pais”, de Belchior, que Elis tem uma versão célebre, também. |