| AQUARELA
#48
GREVE COR DE CINZA
Cérebro? O que há com você? - Ah! Não enche! Hoje eu não quero dominar o mundo...
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
stamos na edição 50. É uma sensação fascinante ver um projeto nosso completando cinco dezenas de edições. O Marcel tem um costume interessante de comemorar quando ele completa cem textos. Eu nunca contei quantos textos eu produzi para o Rabisco nessas cinqüenta edições, mas deve ter sido bastante. Pelo menos, o suficiente para ter uma noção clara de como oscila o meu ciclo criativo – já que escrever é, sim, um exercício de criação.
Resolvi falar disso, neste número da revista, porque passei três edições sem escrever artigos e as duas últimas sem enviar qualquer tipo de texto para a Aquarela e, surpreendentemente, recebi correspondência de uma pessoa, que me é muito especial, perguntando o que tinha acontecido. Roger, meu amigo, eu acho que hoje eu vou poder te responder.
Existem momentos em que a vida da gente exige aquela pausa de emergência. O problema é que o sinal vermelho soou por aqui no momento errado. Eu tinha uma dezena de compromissos para cumprir. Livros para ler e resenhar. Pesquisa científica encaminhando. Artigos acadêmicos para serem escritos. Uma porção de atividades no estágio e meu corpo todo dia me dizia “Câmbio. Mensagem sendo enviada. Nina, querida, não dá. Vamos dar uma paradinha, porque você está neste ritmo há dois anos. Mensagem encerrada. Câmbio. Desligo”.
Eu sentava, pacientemente, na cerâmica do meu quarto e começava a conversar com meu cérebro. “Ô meu amor, não faça isso comigo. Aninha precisa ler sete livros e produzir os textos”, e ele enviava um outro recadinho “Câmbio. Enviando resposta. Sete livros? Você não tem outras coisas para fazer, não? Vai namorar, menina. Me deixa ficar sossegado. Resposta enviada. Câmbio. Desligo”. Até que um belo dia ele ficou mais quieto que a Bela Adormecida e não tinha conversa que desse jeito.
Eu insisti. “Massinha cinzenta do meu coração. Aninha precisa trabalhar. Será que você poderia fazer um esforço pequenino? Meus chefes vão pensar que eu estou tendo uma crise de irresponsabilidade tardia. Você pode colaborar, pelo amor de Deus?”. Nem deu tempo de imaginar a resposta e o que veio foi: “Isso é uma mensagem instantânea. Não responda. Querida Aninha, já que você não aciona o botão do bom senso, para me dar umas férias, resolvi te dar uma ajudinha. Fui. P.S – Não chore, eu te envio um cartão postal”.
A mensagem foi tão instantânea que nem tive direito aos sinais de câmbio inicial e final. Desse jeito, acabei boicotada pelo meu cérebro cansado que tirou férias sem avisar. Tive e ainda estou tendo sérios transtornos por causa disso. No estágio, pediram que eu decidisse a minha vida. Na faculdade, minha orientadora me dizia “você anda um caso sério”. Nas revistas virtuais, eu acho que o pessoal cansou de perguntar o que estava acontecendo com “a menina que tem pique para fazer mil atividades e se dar bem” .
Eu mesma fiquei muito confusa. Depois comecei a refletir como é uma corda bamba a rotina de jornalista - e de aspirante a jornalista. A gente, simplesmente, não poderia ter tempo ruim. Por outro lado, como é que faz quando isso acontece? Quando a concentração necessária para ler um livro nos deixou para ir passear pelo mundo? E a capacidade de ler um texto, que acaba de ser escrito, e reconhecer nele alguma qualidade não está presente no recinto? O que se faz? Lembra de alguma fórmula de produzir texto e executa? Aquele negócio de ter a ordem do texto basicamente pronta e preencher com o nome da vítima, dos acusados e o tipo de crime cometido?
Desculpem, mas não tive coragem de fazer isso aqui. Preferi não escrever. Talvez, porque lendo os meus últimos textos, senti que as idéias estavam começando a se repetir. Não existe nada pior que ter consciência de que você parece estar escrevendo sempre o mesmo artigo. Quando tuas referências e idéias estão gastas ou não são suficientes para, juntas, te dar um espaço coerente de argumentação.
Acredito que o agravamento da crise – me deixando esse tempo longe das revistas e quase aniquilando meu estágio, sem contar o risco das pessoas colocarem em xeque minha real capacidade de cumprir compromissos – foi ter percebido tarde demais o que estava acontecendo. A ficha caiu quando não havia mais o que fazer, a não ser esperar (e rezar para ninguém me demitir). Aproveitei que iria acontecer um congresso muito interessante de comunicação em São Paulo, quebrei o meu porquinho, contei as moedas, assinei umas promissórias junto ao meu pai e me escondi durante dez dias na maior cidade do Brasil, para ver se minhas angústias ficariam pequeninas.
Deu certo enquanto estive lá. Dois dias depois que o avião aterrissou aqui, a sensação de angústia e incompetência voltou a dar sinais fortes, mas eu precisei ser dura com meu cérebro, senão iria virar festa. Sentei na mesma cerâmica e liguei o sinal de câmbio. “Mocinho, é o seguinte. A farra acabou. Ninguém nesse país tira quarenta e cinco dias de férias. Está bom demais. Pode voltar a funcionar. Não é um pedido. É uma ordem”. A resposta demorou a chegar e veio resmungada. “Câmbio. Mensagem sendo enviada. Aninha, você é uma estraga-prazeres. Quem mandou assumir compromisso sem me perguntar se eu podia cumprir?”.
É verdade, mas como eu iria adivinhar? “Ô meu amor. Desculpe–me. Prometo não fazer isso de novo. Agora será que você podia colaborar para eu conseguir terminar o ano com um saldo equilibrado?”. “Câmbio. Seguindo mensagem. Se você prometer que vai moderar, a gente vê o que pode fazer. Eu dou uma conversada com os companheiros aqui”. “Eu prometo! Eu juro! Eu assino o contrato!”. “Câmbio. Mandando mensagem. Tudo bem, então! Comece a organizar as coisas que eu vou ligar os cabos e acionar os botões. Até mais!!! Câmbio. Desligo”.
Quase tive um ataque de histeria quando senti o meu corpo dar sinais de que tudo vai ser feito. Devagar, mas vai. Vejam! Escrevi uma coluna de uma página e meia. Para quem escrevia três linhas e sentia vontade de chorar achando tudo muito ruim, ter feito isso tudo para a edição 50 é um milagre. “Obrigada, cérebrozinho, eu te amo, viu?”. “Câmbio. Mensagem sendo enviada. Oi Aninha, eu também te amo. Agora, te liga que esse amor ai é de amigo, ok? Se você quer um namorado, vai procurar em outro lugar. Câmbio. Desligo”. Que atrevimento! Desligou na minha cara!! Oxe!!! Sendo assim, vou aproveitar para cuidar de tudo aqui...
P.S - Roger, acho que respondi ao seu questionamento. Um cheiro, amigo! * Aos demais leitores, muitos abraços e até a próxima edição! * Marcel, feliz aniversário!!! Espero que a gente trabalhe por muitos períodos de “cem textos” seus. |