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5 a 19 de dezembro 2004

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AQUARELA #49

FRIDA E O CASULO
Livro de relatos de Frida Kahlo serve para amenizar crises de diário-coluna

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

epois da Aquarela da quinzena passada, eu comecei a pensar em maneiras de conseguir estruturar melhor as idéias, para dar conta dos muitos textos que eu queria produzir. Então, andando pelas livrarias, dei de cara com o Diário de Frida Kahlo. Eu já tinha visto na casa de uma amiga e achei lindo. Ela escrevia e desenhava em todas as páginas. Lembro de ter ficado encantada com aquelas gravuras, aquelas cores todas, aquela força das imagens. Minha amiga falava enquanto eu – muda - folheava as páginas. Os desenhos dela causam catarse na gente. É muito inquietante.

Quis comprar um. O único empecilho é que eu não sabia ler espanhol muito bem. Minha amiga disse que existe uma versão dele em português, mas eu nunca consigo achar. Em espanhol não pode ser, porque não quero ter uma obra para ficar enfeitando a estante. Então, tem que ser em português, para que eu possa afundar na cama, rir e chorar com os escritos dela. Comprar um livro que não vai ser lido não faz o menor sentido. O Fabrício Carpinejar fala disso em Cinco Marias : “um livro não lido pesa como um morto” . É uma grande verdade, na minha opinião.

A grande questão desse livro – diário da Frida é que, nas duas vezes em que o vi, fiquei com uma vontade brutal de voltar a fazer isso. Há uns dois anos e meio atrás eu tentei. Consegui fazer um caderno inteiro com relatos, idéias, poemas e gravuras. Ele tinha uma estrutura diferente, porque foi feito para dar de presente. Era um diário – carta. Então, os correios perderam a encomenda com ele dentro e eu fiquei um ano enlouquecida. De tanto imaginar meus escritos sendo lidos por outras pessoas, que não o destinatário, eu desisti de escrever relato pessoal.

Pode parecer besteira, mas escrever diários é, antes de tudo, enfrentar a si mesmo. Acredito que todo mundo passe por aquele processo de redigir algo e ter medo de que alguém leia; ou começar a relatar uma coisa e, de repente, se pegar em pensamentos que não deveriam estar ali; então, aparece a terceira etapa, que é começar a se censurar, quando a idéia do diário pessoal é justamente o oposto. É ser um espaço de libertação, ou estou errada?

Nesse sentido, fiquei pensando que o livro – relato pode ser uma boa. Não para falar sobre questões pessoais, mas para desenvolver idéias, embriões de textos. Acho que foi Raimundo Carrero que disse, em uma aula, que quando o processo de composição do texto estava confuso, ele escrevia cartas para algum amigo. É uma maneira mais simples de tentar resolver um problema de narrativa truncada, porque quando a gente escreve em um canal mais livre, como a carta, tudo flui melhor.

O texto jornalístico tem convenções que, muitas vezes, atrapalham o desenvolvimento do texto. Trava tudo. Por isso, quase sempre, eu faço questão de esquecer minhas aulas de redação na faculdade, aquelas que falam de texto em trinta linhas com resposta para aquelas perguntinhas “quem, o que, quando, onde, como e por que”. Eu sei que elas até podem ser necessárias para o jornalismo diário (será que são mesmo?) e toda aquela conversa de que é assim que se escreve em todos os jornais, mas nunca me senti feliz produzindo assim.

Quando eu me preocupava mais com o conteúdo e menos com a formatação, conseguia produzir melhor. Por isso, o diário da Frida Kahlo me chamou tanta atenção. Quantos daqueles desenhos não eram embriões de idéias para quadros que seriam pintados depois? É uma possibilidade. Usar o diário como uma maneira de dar vazão à tempestade de idéias que temos, todos os dias, e que podem ser lapidadas depois, ou transformadas em mais de um texto, ou texto e poema, poesia e gravura, tanta coisa...

Deixem-me fazer uma confissão. Quando comecei essa coluna, eu estava em dúvida sobre me envolver mesmo nessa aventura de produzir um diário – casulo (no sentido de ser o local onde a lagarta se transforma em borboleta, ou seja, algo que passa de uma fase para outra), mas ao longo da elaboração do texto, eu fui me convencendo que seria, de fato, um bom negócio. Quem sabe, assim, vocês conseguem ler outra coisa aqui, que não esse insistente diário – coluna.

Em tempo : para quem gostar de rock anos 80, vale a pena escutar o Acústico Ao Vivo 2, do Nenhum de Nós.