| AQUARELA
#51
VOU – ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Manuel Bandeira e a lembrança que se espalha nos arredores da Rua da União
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
sta semana eu recebi um texto muito bonito, enviado por Conrado Falbo, que falava sobre o poeta Manuel Bandeira. Ele se parecia com uma crônica, mas era muito extenso para ser uma. Eu li, adorei, e acabei descobrindo que foi uma palestra que o Marcelino Freire proferiu no Projeto Tertúlia , que aconteceu na Livraria da Vila, São Paulo, em maio deste ano. O texto inaugurou a coluna dele no site literário Cronópios , chamada Ensaios de Improviso , e leva o título de O Menino Que Queria Ser Tuberculoso . Se puderem, leiam. É lindo!
Eu estou citando este texto do Marcelino, aqui, porque uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida é circular pela Rua da União. Existe uma padaria maravilhosa, no quarteirão seguinte à casa do poeta, que eu costumo passar as chuvas e os excessos de sol, quando estou pelo centro da cidade. Comer em padarias é sempre muito bom e mais barato, mas essa tem algo especial: conversas importantes da minha vida foram realizadas naquelas mesinhas de madeira, ouvindo o atendente gritar “um café com leite” ou “um misto”...e coisas afins.
Além disso, desde o ano passado que eu ando de olho nas modificações que andam sendo feitas no Espaço Pasárgada. Em julho de 2004, eu estive com Conrado no local e a situação era constrangedora. Estava chovendo no dia, e nós pudemos presenciar livros de poesia raros e antigos, em mesas, nos fundos do casarão, expostos à umidade. Foi a coisa mais triste que eu vi na vida. Este ano, no entanto, eles avançaram nas reformas do Espaço e eu vi uns grandes murais com fotos e poemas de Manuel Bandeira na área de entrada do casarão. Presenciar o processo de organização me deixou bastante animada, porque a casa do poeta além de ser um patrimônio do Estado de Pernambuco (foi tombado em 1984), tem uma certa rotina de atividades culturais, como recitais, entre outras coisas.
Para vocês terem uma idéia, o Espaço Pasárgada tem dois andares, onde devem funcionar biblioteca, galeria de audição, oficina tipográfica e uma galeria especialmente feita para Manuel Bandeira. Se bem cuidado, e devidamente divulgado, o local pode se tornar um espaço cultural visitado não apenas por literatos e turistas, mas por pessoas da própria cidade. Tem muita gente que passa diariamente pela frente do número 263 da Rua da União e não sabe que foi a casa de um dos maiores poetas brasileiros. Eu morro de medo que o lar de Manuel Bandeira vire um estabelecimento comercial, como virou a casa de Clarice Lispector, na Praça Maciel Pinheiro.
Eu nem me importo se me acusam de excesso de nostalgia ou coisas afins, mas eu tenho um respeito especial pela história da cidade em que eu vivo, e pela produção cultural dela e gostaria de ver estes espaços melhor cuidados. O acervo do Arquivo Público Estadual está em um estado, que é de sentar e chorar (mas este assunto merece uma coluna inteira, fica para a próxima), voltemos a Manuel Bandeira e sua querida Rua da União.
Pois bem, ela é muito movimentada durante o dia porque diversos estabelecimentos comerciais e órgãos governamentais estão localizados nos casarões e edifícios. No entanto, durante o final de semana, tudo fica silencioso e é possível observar a beleza dos casarões e ouvir as conversas nos bares e barracas. Além disso, a União cruza três quarteirões, dando acesso a outros espaços interessantes da cidade. É um passeio que vale muito a pena.
Se a gente entrar na rua pela Conde da Boa Vista, que é a principal avenida do bairro, passaremos, primeiro, pelas costas do Museu de Arte Moderna Aluisio Magalhães, que tem uma entrada para um café. No quarteirão seguinte tem a casa de Manoel Bandeira e no último quarteirão tem o casarão da Assembléia Legislativa de Pernambuco, que é lindo, apesar da decoração a la Gotham City que resolvem colocar durante o Natal (é que eles montam uns refletores super potentes e o feixe de luz alcança as nuvens, então, o pessoal na cidade comenta que tem vontade de driblar a segurança e colar um símbolo do Batman para ver o que acontece.... imagina?).
Mas os refletores “ batman returns” pouco me interessam agora. Eu já estou fugindo do assunto de novo. A Rua da União me interessa porque, além de eu ter vivido bons momentos nela, tanto na padaria, que eu ainda freqüento, quanto nas tardes ensolaradas em que a gente tocava violão na casa de um amigo, o entorno da rua faz parte da minha história de vida. O Memorial Tortura Nunca Mais, erguido em homenagem as pessoas que foram massacradas na ditadura, e que tem uma placa em homenagem ao meu tio – avô, que era jornalista, e comeu o pão que o diabo amassou nas celas da cadeia, que hoje é a Casa da Cultura.
A Biblioteca Pública Estadual, onde a minha formação de leitora foi bastante aguçada nas tardes das minhas férias, quando eu freqüentava os encontrinhos literários infantis. Sem contar que, quando eu fui proibida de participar das sessões para criança, eu assisti, pela primeira vez, Sociedade dos Poetas Mortos , na sala de vídeo para adultos. Esse filme marcou minha vida. Na frente da biblioteca fica o Parque 13 de Maio, onde eu brinquei muito na infância com as minhas irmãs e hoje, quando passo pela frente, vejo muitos jovens e velhos sentados nas mesas de xadrez ensinando, criando, aprendendo jogadas.
Então, me diga, como posso eu não gostar da Rua da União? Como posso não gostar do que existe nos arredores dela? Como posso não gostar de Manuel Bandeira? Como posso não deixar de me emocionar com o testemunho de Marcelino Freire? Como posso deixar de agradecer a Conrado por ter me enviado o texto, se foi aquela leitura que fez brotar estas três páginas de texto, depois de um silêncio branco de mais de dez edições? Não posso, não posso nunca esquecer que, entre todos os pequenos paraísos existentes em Recife, a Rua da União é um deles. Uma espécie de pasárgada na minha existência. Alguém quer tomar um café comigo?
P.S – Segundo o site da Fundarpe, o nome Pasárgada, do poema de Manuel Bandeira foi achado assim: “O exótico nome é mais histórico do que literário e surgiu por acaso. Manuel Bandeira, lendo o escritor grego Xenofonte, descobriu a palavra "PASÁRGADA", tratando-se de uma cidadezinha provinciana ao sul da antiga Pérsia. Para o poeta, foi aí o paraíso terrestre, com tanta felicidade que inspirou o famoso poema "Vou-me embora pra Pasárgada", publicado pela primeira vez no seu livro "Libertinagem": em 1930.” |