| AQUARELA
#52
O QUE É A VERDADE?
Documentários revelam detalhes interessantes e pouco divulgados da América Latina
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
que seria de nós sem as versões não-oficiais? Esta pergunta, que me foi muito forte na adolescência, acabou voltando à tona com freqüência depois que assisti Além do Cidadão Kane, em 2003. Acho que depois daquela sessão no cineclube, que acabou gerando um artigo aqui para a Rabisco, eu passei a ter uma atenção maior com certos tipos de documentários. Essa idéia foi reforçada um pouco mais quando, algum tempo depois, eu assisti A Revolução Não Será Televisionada, que mostrava uma versão bastante diferente da que foi divulgada por parte considerável da imprensa, inclusive brasileira, sobre Golpe de Estado dado na Venezuela, em abril de 2002.
Esta semana, enquanto estive fazendo a cobertura da primeira Mostra Cinema e Direitos Humanos da América do Sul, esta sensação de ser informada pela metade – ou nem isso –, veio com força, quando assisti a mais dois documentários: The Real Thing: Coca, Democracia Y Rebelion En Bolívia, dirigido por Jim Sanders, e Estado De Miedo, dirigido por Pamela Yates. O primeiro, como diz o título, debate a questão da produção da coca, na Bolívia, e o segundo o estado de exceção em que viveu o Peru, especialmente durante o governo de Alberto Fujimori, até o ano 2000.
Durante as duas sessões, no cinema da Fundação Joaquim Nabuco, a sensação que eu tinha era a de que nós não conhecemos nada da América do Sul – e, se esperarmos pela cobertura jornalística tradicional, para saber algo mais relevante, isso talvez não aconteça. Não lembro de ter lido em qualquer grande jornal do estado em que moro, e nem em algum dos nacionais, uma abordagem sobre os agricultores que plantam a coca, como a que Jim Sanders trouxe em seu documentário.
Desvincular o cultivo da planta como causa direta da produção de cocaína foi a principal delas. A segunda foi levantar quais outros possíveis motivos, além do combate ao narcotráfico, teriam países estrangeiros em querer acabar com a atividade dos cocaleros em determinadas regiões da Bolívia. A hipótese levantada pelo vídeo foi a de que o real interesse em ocupar militarmente certas regiões do país, com a desculpa de extinguir as plantações de coca e conseqüentemente diminuir a produção de cocaína, era, na verdade, articular maneiras de controlar o petróleo boliviano.
Depois das armas de destruição em massa, no Iraque, essa suposição não tem nada de infundada. Ainda mais quando Sanders apresenta a versão fornecida pelos agricultores que cultivam a coca para uso próprio e da região em que vivem. O que eles contam nos leva a uma perspectiva completamente diferente da que conhecemos tanto sobre a cultura da coca, quanto das rebeliões que ocorreram na Bolívia, antes da eleição de Evo Morales.
A questão é que, se por um lado, temos a sorte de ter o acesso à internet como forma de buscar mais dados sobre os temas tratados nos documentários, por outro é preciso considerar que a maioria da população não tem acesso à internet, e, entre os que têm, nem sempre existe o hábito de buscar estas fontes de pesquisa. Então, o uso da rede acaba se restringindo ao recebimento de e-mails e conversas instantâneas. Esse problema de isolamento, mesmo diante de um ambiente com potencial de informação, é discutido em Estado de Miedo.
A diretora Pamela Yates nos confronta com personagens que, mesmo morando em Lima, capital do país, e com a possibilidade de intervir no ambiente de violência que se instalava no interior do Peru, não o fizeram por estarem alheios ao que acontecia fora de seu cotidiano. Foi preciso que o país entrasse em Estado de Sítio, o Congresso fosse destituído por Fujimori e qualquer pessoa passasse a ser potencialmente suspeita de “praticar terrorismo”, para que parte significativa da população visse que havia algo de errado com o Peru.
Estado de Medo tem cenas de deixar a alma dilacerada, e que não são de violência explícita. É o significado oculto mesmo que machuca. A sensação de impotência presente provocada por um passado de desinformação. A gente sai da sala de exibição olhando para a rua e se perguntando “o quanto do que vi no país vizinho existe aqui e eu não enxergo?”. Talvez esta seja a melhor semente que Yates e sua equipe poderiam deixar: a dúvida. Porque foi através dela que a minha mente abriu para questões que eu nunca havia levantado e por ela que eu decidi retomar a minha coluna. Pois, as informações que estes filmes trazem não podem ficar circulando apenas na mente de quem viu. Elas têm que seguir adiante.
E de nada adiantaria sair do cinema comentando com uma amiga que a gente não costuma ler abordagens como estas nos jornais, quando eu tenho este espaço para disseminar as informações que recebo e ele não era usado porque eu achava que não tinha o que falar. Então, agora eu digo, vejam estes filmes. Entrem em contato com a equipe da Mostra, exijam repetição da programação completa. Peçam cópias para veicular em escolas ou passar em praça pública. O importante é fazer a informação circular, é confrontar as versões que recebemos para não ficar como uma das personagens do documentário de Pamela Yates, que se pergunta a todo do tempo: “onde é que eu estive? Em que mundo eu vivi enquanto estas pessoas passavam por isso?”. Boas questões para todos nós. |