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04 a 19 de fevereiro de 2007

Equipe Edições Anteriores

AQUARELA #54

MONÓLOGO IMEMORIAL
Uma crônica-pergunta para aqueles que se foram em nome de um futuro em Brasília
por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

uem é você? Eu fico aqui me perguntando. Quem é você? Se eu olhar para o moço ao lado, também farei a mesma pergunta, mas você não quer me responder primeiro? É que esta é apenas uma da série de perguntas que eu gostaria de fazer. Não apenas a você, a todos eles. Todos esses homens ao seu redor, que me olham, sem me ver. Como é seu nome? Eu queria mesmo saber.

Você é casado? Solteiro? Onde morava antes de ir a Brasília? Por que quis ir? Deixou filhos? O que fez quando viu aquele espaço vazio pela primeira vez? Chorou? Sorriu? Pensou no futuro? No dinheiro que levaria para casa? Em bom estudo? Qual foi o seu maior sonho? Você conseguiu realizar, antes de parar aqui? Por sinal, como você veio parar aqui? Lembra? Lembra como foram os últimos segundos da sua vida? O último passo dado antes de chegar a esta lápide?

Em algum momento de sua vida pensou que o local em que dormiria para sempre seria igual ao dos seus companheiros de trabalho? Vocês eram iguais? Eram homens ou eram números? Em que Brasília transformou vocês? Nestas placas de identificação? Em calangos? Você gosta de ser chamado de calango? O que acha dos homens que lhe deram esse apelido? Eu queria ouvir a sua opinião, posso? Você vai me responder ou terei de adivinhar pelos traços fundos do seu rosto e pelo significado deste olhar?

O que você me diz? O que você quer me contar? Ou sou que quero que você me diga algo? Me revele, me ilumine, amplie o meu conhecimento além do que me diz este seu retrato 3x4. Ou será 5x7? Como eram medidas as fotos documentais naquela época? Alguém lhe disse? Quanto pagou para carimbar aquela ficha que o levou para o meio do nada que existia na futura capital federal?

Estou cheia de perguntas, parada, na sua frente, olhando muito forte para ver se não esqueço da sua face. E nem da deles. Quero saber a sua história. Não me contas. Por que não? Você consegue me ouvir aqui? Consegue? O que eu digo ultrapassa a dimensão que separa corpos e almas? Continuidade e Memória? Ou não? Você me escuta? Compreende? Pode responder? Ou não me ouve? Ouve? Não..não me ouve...não me ouve...não me ouve...

* Esta crônica foi inspirada na obra Imemorial, de Rosângela Rennó.