CELEBRA QUEM? CELEBRA O QUÊ?
Quando o culto às celebridades é mal administrado, artistas e público tendem a perder.
por Ana Lira ( analira@rabisco.com.br )

urante a cobertura do Cine PE , eu comecei a observar como a intensificação do culto às celebridades, em especial nas grandes capitais, tem alterado para pior a relação do público com a classe artística. Há pouco mais de três edições do festival era possível ver atores, atrizes e diretores circulando livremente entre o público, inclusive nas áreas externas, sem ocorrer nenhuma crise de histeria. Fernanda Montenegro, quando esteve no lançamento de O Outro Lado da Rua , filme que em contracenou com o ator Raul Cortez, em um dos seus últimos trabalhos no cinema, concedeu entrevistas e tirou fotos tranqüilamente com os admiradores no hall do Centro de Convenções.
Este ano, porém, Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella precisaram entrar pelos bastidores e serem escoltados, até as poltronas na platéia, junto com o restante do elenco do filme Não Por Acaso , de Philippe Barcinski. A histeria foi tão grande que a apresentadora Graça Araújo chegou a dizer “gente, vamos assistir o filme, depois vocês pegam, agarram, fazem o que quiser”, gerando uma série de questionamentos nos veículos de imprensa do país. Se artistas e público querem estar juntos, este culto exacerbado ao que se chama de celebridades vai de encontro a esta união, uma vez que para preservar a integridade física dos famosos, as produções dos festivais utilizam recursos como seguranças, áreas de isolamento, entre outros elementos que acabam, na verdade, afastando as pessoas de quem elas querem falar.
O mais estranho de tudo neste esquema de culto à celebridade é que as pessoas valorizam o registro pelo registro. O importante não é conversar, dizer o nome, perguntar se aquela pessoa a quem se está pedindo a foto está bem, ou não. O que interessa é ter a foto. É neste sentido, é meio bizarro observar pessoas pedindo autógrafos e tirando fotos com pessoas famosas que elas nem sabem quem são, que trabalhos fizeram ou por que são significativas em suas áreas de atuação, a ponto de serem consideradas celebridades. Eu lembrei de um caso ocorrido com o escritor Raimundo Carrero, que foi abordado na rua por uma senhora. Ele deu o autógrafo e quando perguntou a ela que livro dele ela havia lido ela respondeu “eu não sabia que o senhor era escritor, eu só vi a sua foto no jornal”.
Acho que este exemplo é bem sintético dessa distorção. Em geral, é de esperar que as pessoas peçam fotos ou autógrafos porque entraram em contato com o trabalho daquela pessoa, admiram o que ela produz e querem ter uma recordação deste momento de encontro, e não a foto pela foto ou o autógrafo pelo autógrafo. O outro lado da situação, ou seja, quando a celebridade motiva este tipo de relação vazia, também acontece. Eu recordo daquelas cenas de Xuxa assinando postais para jogar para o público, como se as pessoas que fossem receber não tivessem nome, rosto, gostos, entre outras coisas.
Outro exemplo, e este eu vi pessoalmente, foi durante a conquista das Olimpíadas pela Seleção Brasileira de Vôlei, quando o time era formado por Giovane e Marcelo Negrão, entre outros. Negrão recebeu uma homenagem na Câmara Municipal do Recife e havia muitas fãs querendo autógrafo. Então, eles o levaram para uma sala (que tinha duas portas), deixaram as fãs do lado de fora e fecharam a janela. Pouco depois, começaram a chover papéis autografados. Achei aquilo estranho e dei a volta no prédio. Marcelo Negrão estava indo embora, levado pelos assessores, e pessoas da Câmara estavam assinando os papéis para jogar as fãs que pegavam, coitadas, com todo amor do mundo, achando que o ídolo é que havia autografado. Então, um senhor gritou que o atleta havia indo embora e que as assinaturas eram falsas. Foi uma vergonha coletiva.
Porém, voltando ao CinePE , para se ter uma idéia desse culto às avessas, Nelson Pereira dos Santos, um dos maiores cineastas do país, integrante das movimentações do Cinema Novo, junto com Glauber Rocha, caminhava tranqüilamente nos corredores externos. Quando alguém chegava perto dele, era para conversar sobre os trabalhos que o diretor realizou, discutir aspectos do cinema nacional e mundial ou apenas para dar cumprimentos, em uma relação super sadia, como devia ser a relação entre os artistas e o público. E não esta coisa assustadora que a gente tem visto e que, se não é bem administrada, pode trazer decepções para todos os lados. Ô mundo estranho. |