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19 de setembro a 2 de outubro de 2002


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BOTECO #3

FÉ ABALADA
Brasil só tem a ganhar com crescimento de população sem religião

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

 catolicismo está se confinando nos grotões do país, afirma estudo feito por professores da PUC-RJ. Baseados nos dados do censo do IBGE, os pesquisadores mapearam a concentração de cada religião no país, e provaram algo que a gente já sabia há algum tempo, mas que ainda faltava confirmação: o tradicionalismo católico só sobrevive com força total no interior das regiões Nordeste, Sul e Sudeste. O progresso é o pior inimigo das igrejas.

O que me interessa nesses dados não é o óbvio crescimento dos evangélicos. Que meus avós não leiam isso, mas fiquei muito feliz com o crescimento da população sem religião. Hoje somos 7,28%, contra apenas 4,73% em 1991. Podem querer atribuir isso à desilusão da vida moderna, à falta de perspectiva provocada pelo desemprego e violência nos grandes centros, etc. Mas eu só enxergo isso com bons olhos. É sinal de maturidade, de deixar de esperar que uma força divina faça alguma diferença na sua vida. Intelectualmente, é uma evolução sem precedentes.

Não estou dizendo que não há inteligência entre os religiosos. Tenho duas colegas de faculdade que são religiosas, mesmo. Uma é católica, do interior – bem pertinho da minha Bauru. É uma das melhores alunas da sala, inegavelmente. A outra é evangélica, e não tenho como dizer que isso restringe sua capacidade intelectual. Se eu tivesse metade do conhecimento dela em literatura, por exemplo, seria uma pessoa muito mais completa. Além disso, meu melhor amigo, dos tempos de infância, é espírita. Faz medicina em Botucatu, e é um cara genial.

Só que, puxando um pouco para o marxismo, vejo a religião como uma forma de controle social nesse nosso país tão castigado. E a pesquisa da PUC-RJ só comprova essa tese. Por exemplo: onde há catolicismo fervoroso, há analfabetismo, miséria, taxas absurdas de natalidade, falta de condições básicas de saúde e saneamento. Coloque o mapa de concentração de católicos no país ao lado de uma representação gráfica do IDH no Brasil. É batata: o subdesenvolvimento é proporcional à porcentagem dos religiosos. Não por coincidência, essas são as mesmas áreas que dão sustentação eleitoral para políticos conservadores, caudilhos e coronéis da laia de ACM.

O crescimento dos agnósticos e ateus é sinal de que esta dominação pode estar indo para o buraco. Lenta e gradualmente, o brasileiro está acordando para o fato de que tem trabalhado feito burro de carga para sustentar um sistema injusto. Ainda é preciso derrubar, é verdade, o fundamentalismo político, mania de continuidade que só atrasa a decolagem deste país. Mas tudo tem sua hora. Infelizmente, muita gente vai nascer e morrer na miséria antes desse dia chegar.

ETÍLICAS I – Rodrigo Gomes, leitor dessa coluna, reclama que o Cruzeiro nunca é apontado como favorito no início das competições. Segundo ele, a imprensa dá sempre a mesma lista de times tradicionais, esquecendo o celeste de BH. Tem alguma razão, já que o Cruzeiro conseguiu títulos importantes no primeiro semestre. Mas o time não está com toda essa moral. Amigo mineiro: tá certo que o seu time acabou com o meu São Paulo, mas ainda está na rabeira da tabela!

ETÍLICAS II – Na coluna passada, tive que dar uma boa resumida no currículo do Sr. Paulo Maluf, tantas as estripulias realizadas por este velho político. Meu amigo Eduardo de Carvalho lembra de duas condenações judiciais que foram deixadas de lado em meu texto: o escândalo das flores – 2 mil dúzias de rosas compradas em seu último mês como governador biônico – e a inefável Paulipetro. Maluf teve que devolver um bom cascalho aos cofres públicos. Eduardo, vai aí mais uma: você se lembra da história dos Fuscas? E ainda existe malufista no mundo...

ETÍLICAS III – E por falar em malufista, um leitor do site tá me enchendo o saco porque falo de política neste espaço. Segundo ele, aqui só se fala de cultura pop, e minha coluna destoa desse propósito. Ótimo. O objetivo deste Rabisco é fugir da camisa-de-força que era o outro fanzine, finado por causa de censuras idiotas. É hora de eleições, e só de saber que tem gente – como você, Julio – que vota no PPB, já é motivo para eu continuar a escrever sobre política.

PARA LER NO BANHEIRO – Mais um livro sobre futebol. Só mesmo alguém de fora para enxergar as coisas bem: Futebol – The Brazilian Way of Life, do jornalista inglês Alex Bellos é isso aí. Num misto de imparcialidade, admiração e paixão, Bellos faz a melhor reportagem que já vi sobre a relação quase beata do brasileiro com a bola. Só saiu em inglês, mas deve chegar às livrarias uma versão traduzida até o final do ano.