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BOTECO #3
FÉ ABALADA
Brasil só tem a ganhar com
crescimento de população sem religião
por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)
catolicismo está se confinando nos grotões do
país, afirma estudo feito por professores da PUC-RJ. Baseados
nos dados do censo do IBGE, os pesquisadores mapearam a concentração
de cada religião no país, e provaram algo que a gente
já sabia há algum tempo, mas que ainda faltava confirmação:
o tradicionalismo católico só sobrevive com força
total no interior das regiões Nordeste, Sul e Sudeste. O
progresso é o pior inimigo das igrejas.
O que me interessa nesses dados não é
o óbvio crescimento dos evangélicos. Que meus avós
não leiam isso, mas fiquei muito feliz com o crescimento
da população sem religião. Hoje somos 7,28%,
contra apenas 4,73% em 1991. Podem querer atribuir isso à
desilusão da vida moderna, à falta de perspectiva
provocada pelo desemprego e violência nos grandes centros,
etc. Mas eu só enxergo isso com bons olhos. É sinal
de maturidade, de deixar de esperar que uma força divina
faça alguma diferença na sua vida. Intelectualmente,
é uma evolução sem precedentes.
Não estou dizendo que não há
inteligência entre os religiosos. Tenho duas colegas de faculdade
que são religiosas, mesmo. Uma é católica,
do interior – bem pertinho da minha Bauru. É uma das
melhores alunas da sala, inegavelmente. A outra é evangélica,
e não tenho como dizer que isso restringe sua capacidade
intelectual. Se eu tivesse metade do conhecimento dela em literatura,
por exemplo, seria uma pessoa muito mais completa. Além disso,
meu melhor amigo, dos tempos de infância, é espírita.
Faz medicina em Botucatu, e é um cara genial.
Só que, puxando um pouco para o marxismo,
vejo a religião como uma forma de controle social nesse nosso
país tão castigado. E a pesquisa da PUC-RJ só
comprova essa tese. Por exemplo: onde há catolicismo fervoroso,
há analfabetismo, miséria, taxas absurdas de natalidade,
falta de condições básicas de saúde
e saneamento. Coloque o mapa de concentração de católicos
no país ao lado de uma representação gráfica
do IDH no Brasil. É batata: o subdesenvolvimento é
proporcional à porcentagem dos religiosos. Não por
coincidência, essas são as mesmas áreas que
dão sustentação eleitoral para políticos
conservadores, caudilhos e coronéis da laia de ACM.
O crescimento dos agnósticos e ateus é
sinal de que esta dominação pode estar indo para o
buraco. Lenta e gradualmente, o brasileiro está acordando
para o fato de que tem trabalhado feito burro de carga para sustentar
um sistema injusto. Ainda é preciso derrubar, é verdade,
o fundamentalismo político, mania de continuidade que só
atrasa a decolagem deste país. Mas tudo tem sua hora. Infelizmente,
muita gente vai nascer e morrer na miséria antes desse dia
chegar.
ETÍLICAS I –
Rodrigo Gomes, leitor dessa coluna, reclama que o Cruzeiro nunca
é apontado como favorito no início das competições.
Segundo ele, a imprensa dá sempre a mesma lista de times
tradicionais, esquecendo o celeste de BH. Tem alguma razão,
já que o Cruzeiro conseguiu títulos importantes no
primeiro semestre. Mas o time não está com toda essa
moral. Amigo mineiro: tá certo que o seu time acabou com
o meu São Paulo, mas ainda está na rabeira da tabela!
ETÍLICAS II –
Na coluna passada, tive que dar uma boa resumida no currículo
do Sr. Paulo Maluf, tantas as estripulias realizadas por este velho
político. Meu amigo Eduardo de Carvalho lembra de duas condenações
judiciais que foram deixadas de lado em meu texto: o escândalo
das flores – 2 mil dúzias de rosas compradas em seu
último mês como governador biônico – e
a inefável Paulipetro. Maluf teve que devolver um bom cascalho
aos cofres públicos. Eduardo, vai aí mais uma: você
se lembra da história dos Fuscas? E ainda existe malufista
no mundo...
ETÍLICAS III
– E por falar em malufista, um leitor do site tá
me enchendo o saco porque falo de política neste espaço.
Segundo ele, aqui só se fala de cultura pop, e minha coluna
destoa desse propósito. Ótimo. O objetivo deste Rabisco
é fugir da camisa-de-força que era o outro fanzine,
finado por causa de censuras idiotas. É hora de eleições,
e só de saber que tem gente – como você, Julio
– que vota no PPB, já é motivo para eu continuar
a escrever sobre política.
PARA LER NO BANHEIRO
– Mais um livro sobre futebol. Só mesmo alguém
de fora para enxergar as coisas bem: Futebol – The Brazilian
Way of Life, do jornalista inglês Alex Bellos é
isso aí. Num misto de imparcialidade, admiração
e paixão, Bellos faz a melhor reportagem que já vi
sobre a relação quase beata do brasileiro com a bola.
Só saiu em inglês, mas deve chegar às livrarias
uma versão traduzida até o final do ano.
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