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BOTECO #7
EU QUERO A ARCA BRASILEIRA!
Não dá para elogiar
o cinema brasileiro só porque ele está mais palatável
para o grande público
por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)
ui
conferir a tal Arca Russa na semana passada.
Fiquei de queixo caído. Não apenas pelo prodígio
que foi realizar o filme – são noventa e tantos minutos
num plano-seqüência único. Mas também porque
Sokúrov faz cinema de gente grande, de poesia mesmo. O filme
é uma grande discussão sobre o embate entre memória
e revolução, passado e futuro, história e vontade.
Já li por aí que Sokúrov preferiu fazer o filme
sem cortes porque não há dialética, apenas
absorção, em um empirismo contínuo. Não
concordo. Sokúrov, longe de ser o anti-Eisenstein, compreende
que não é apenas na montagem que se faz cinema. Não
me lembro de ter visto diretores que tratam tão bem a imagem
quanto o russo. A película é tratada como uma tela,
e há uma atenção à textura e às
cores inigualável.
Pois bem, mas essa coluna não é sobre
a Arca Russa, que deve estrear em breve no circuito
comercial de cinema. Enquanto estava ainda embasbacado com a habilidade
do cineasta russo, parei para pensar: não se faz mais filme
assim no Brasil. Posso até estar enganado, mas pelo menos
para mim (e para o grande público) não chega nenhum
produto nacional com essa qualidade. Não quero usar os termos
cinema de arte ou cinema intelectual,
mas é por aí mesmo. Chame como você quiser,
não tenho visto isso ser feito nessas terras.
O que mais me espanta é que neste momento
está se falando por aí de um ressurgimento do cinema
brasileiro. Os críticos estão apaixonados por filmes
como Cidade de Deus e Madame Satã. Sobre o
primeiro, já li elogios de tanta gente que até me
pergunto: será que vi o mesmo filme que todo mundo? Vi o
mesmo filme que meus colegas de Rabisco, que meus
amigos da cervejinha de terça-feira na Fradique, que o Arnaldo
Jabor? Antes que me perguntem se estou louco, quero dizer que também
gostei de Cidade de Deus. Ou melhor, que achei um trabalho
muito bem feito. O mesmo posso falar de O Invasor. É,
no mínimo, divertido.
Mas não posso entrar na onda de louvar essa
safra de filminhos com historinhas bem contadas. Na verdade, estou
puto da vida com essa puxação de saco. Porque é
que o cinema nacional está em alta quando mais se aproxima
do modelo americano? Porque é que agora que estamos fazendo
filmes como nos EUA é que estão dizendo: “nossa,
como o cinema brasileiro evoluiu!” Pois é isso que
estamos vivendo, minha gente. Cidade de Deus
e sua montagem videoclípica quase esquizofrênica poderia
ter sido feito em Hollywood. Melhor ainda, poderia ter saído
da mente do incompetente Guy Ritchie – o farsante de Jogos,
Trapaças e dois Canos Fumegantes e Snatch.
Arca Russa é uma preciosidade,
um ícone que certamente identificará a arte russa
para sempre. Na boa: o que há de arte brasileira no filme
de Fernando Meirelles? Ou talvez a pergunta seja simplesmente “o
que há de arte?”. Como diria Paulo Francis, o filme
de Sokúrov é uísque; Cidade de Deus,
groselha. Nada contra a missão de entreter, mas não
dá para se elogiar uma safra que só pensa em deixar
o espectador mediano grudado na cadeira. Se for para nivelar por
baixo, é melhor cancelar a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual,
redirecionar os investimentos para qualquer outro projeto e importar
mais filmes “pipoca” dos EUA.
ETÍLICAS I -
O PFL disse que vai ser oposição responsável
ao governo do PT. Só pode ser piada. Já é difícil
acreditar que o PFL vai ser oposição – por mais
que tenha brincado de ser depois de romper com o governo FHC. Agora,
responsável... Tá, o partido do ACM, responsável?
O partido da Roseana, responsável? Vou fingir que acredito.
Mas, falando no presidente eleito, ganhou alguns pontos comigo ao
escolher Aldo Rebelo como ministro dos esportes. Das “viúvas
de Lênin”, como dizem os maldosos, é um dos mais
ativos e competentes. A CPI da Nike só não tirou os
cartolas de circulação porque o Brasil não
tem se esforçado para desmentir Charles de Gaulle, que disse
que isso aqui não é um país sério. A
bancada da bola tratou de desfazer todo o trabalho de Rebelo e trupe.
Pena.
ETÍLICAS II -
O Rabisco está recebendo muita gente boa nessa
semana. Meu grande amigo Artur, citado na coluna da cidade passada,
escreveu um
texto fantástico sobre o samba e a malandragem. Leitura
recomendada, assim como dois textos sobre televisão, escritos
por dois outros estreantes desta revista. Minha amiga Laura já
estava devendo um texto faz tempo. Chegou de sola, discutindo
a novela Marisol, do SBT. Bom demais. Também sobre
o SBT é a
análise de Júlio Bernardes, veteraníssimo
da Escola de Comunicações e Artes. São três
craques, e que sejam todos muito bem-vindos.
ETÍLICAS III
- Não falei que Milton Neves não presta? A
última foi de doer. Luiz Zveiter, o picareta que controla
do STJD, foi entrevistado no Terceiro Tempo da TV Record.
Zveiter foi protegido por Milton, que evitou que o juiz fosse trucidado
pelos comentaristas presentes. Para piorar, o capo da Justiça
Desportiva disse que Romário só levou um jogo de suspensão
por agredir o colega Andrei – quando normalmente a pena é
de três partidas – porque há atenuantes no caso
do atacante do Flu. Quais? “Romário é um campeão
do mundo”, respondeu Zveiter... E ninguém questionou
essa explicação. Ou seja: no tribunal do Sr. Zveiter,
todos são iguais perante às leis, mas alguns são
mais iguais que os outros.
PRA LER NO BANHEIRO
- Já que falei de Arca Russa, a dica de leitura
não poderia ser outra. Aleksandr Sokúrov, organizado
por Álvaro Machado, é leitura necessária para
compreender o mundo deste mais do que genial cineasta. Quem pode
conferir a retrospectiva na Mostra sabe do que estou falando.
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