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14 a 27 de novembro de 2002


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BOTECO #7

EU QUERO A ARCA BRASILEIRA!
Não dá para elogiar o cinema brasileiro só porque ele está mais palatável para o grande público

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

ui conferir a tal Arca Russa na semana passada. Fiquei de queixo caído. Não apenas pelo prodígio que foi realizar o filme – são noventa e tantos minutos num plano-seqüência único. Mas também porque Sokúrov faz cinema de gente grande, de poesia mesmo. O filme é uma grande discussão sobre o embate entre memória e revolução, passado e futuro, história e vontade. Já li por aí que Sokúrov preferiu fazer o filme sem cortes porque não há dialética, apenas absorção, em um empirismo contínuo. Não concordo. Sokúrov, longe de ser o anti-Eisenstein, compreende que não é apenas na montagem que se faz cinema. Não me lembro de ter visto diretores que tratam tão bem a imagem quanto o russo. A película é tratada como uma tela, e há uma atenção à textura e às cores inigualável.

Pois bem, mas essa coluna não é sobre a Arca Russa, que deve estrear em breve no circuito comercial de cinema. Enquanto estava ainda embasbacado com a habilidade do cineasta russo, parei para pensar: não se faz mais filme assim no Brasil. Posso até estar enganado, mas pelo menos para mim (e para o grande público) não chega nenhum produto nacional com essa qualidade. Não quero usar os termos cinema de arte ou cinema intelectual, mas é por aí mesmo. Chame como você quiser, não tenho visto isso ser feito nessas terras.

O que mais me espanta é que neste momento está se falando por aí de um ressurgimento do cinema brasileiro. Os críticos estão apaixonados por filmes como Cidade de Deus e Madame Satã. Sobre o primeiro, já li elogios de tanta gente que até me pergunto: será que vi o mesmo filme que todo mundo? Vi o mesmo filme que meus colegas de Rabisco, que meus amigos da cervejinha de terça-feira na Fradique, que o Arnaldo Jabor? Antes que me perguntem se estou louco, quero dizer que também gostei de Cidade de Deus. Ou melhor, que achei um trabalho muito bem feito. O mesmo posso falar de O Invasor. É, no mínimo, divertido.

Mas não posso entrar na onda de louvar essa safra de filminhos com historinhas bem contadas. Na verdade, estou puto da vida com essa puxação de saco. Porque é que o cinema nacional está em alta quando mais se aproxima do modelo americano? Porque é que agora que estamos fazendo filmes como nos EUA é que estão dizendo: “nossa, como o cinema brasileiro evoluiu!” Pois é isso que estamos vivendo, minha gente. Cidade de Deus e sua montagem videoclípica quase esquizofrênica poderia ter sido feito em Hollywood. Melhor ainda, poderia ter saído da mente do incompetente Guy Ritchie – o farsante de Jogos, Trapaças e dois Canos Fumegantes e Snatch.

Arca Russa é uma preciosidade, um ícone que certamente identificará a arte russa para sempre. Na boa: o que há de arte brasileira no filme de Fernando Meirelles? Ou talvez a pergunta seja simplesmente “o que há de arte?”. Como diria Paulo Francis, o filme de Sokúrov é uísque; Cidade de Deus, groselha. Nada contra a missão de entreter, mas não dá para se elogiar uma safra que só pensa em deixar o espectador mediano grudado na cadeira. Se for para nivelar por baixo, é melhor cancelar a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual, redirecionar os investimentos para qualquer outro projeto e importar mais filmes “pipoca” dos EUA.

ETÍLICAS I - O PFL disse que vai ser oposição responsável ao governo do PT. Só pode ser piada. Já é difícil acreditar que o PFL vai ser oposição – por mais que tenha brincado de ser depois de romper com o governo FHC. Agora, responsável... Tá, o partido do ACM, responsável? O partido da Roseana, responsável? Vou fingir que acredito. Mas, falando no presidente eleito, ganhou alguns pontos comigo ao escolher Aldo Rebelo como ministro dos esportes. Das “viúvas de Lênin”, como dizem os maldosos, é um dos mais ativos e competentes. A CPI da Nike só não tirou os cartolas de circulação porque o Brasil não tem se esforçado para desmentir Charles de Gaulle, que disse que isso aqui não é um país sério. A bancada da bola tratou de desfazer todo o trabalho de Rebelo e trupe. Pena.

ETÍLICAS II - O Rabisco está recebendo muita gente boa nessa semana. Meu grande amigo Artur, citado na coluna da cidade passada, escreveu um texto fantástico sobre o samba e a malandragem. Leitura recomendada, assim como dois textos sobre televisão, escritos por dois outros estreantes desta revista. Minha amiga Laura já estava devendo um texto faz tempo. Chegou de sola, discutindo a novela Marisol, do SBT. Bom demais. Também sobre o SBT é a análise de Júlio Bernardes, veteraníssimo da Escola de Comunicações e Artes. São três craques, e que sejam todos muito bem-vindos.

ETÍLICAS III - Não falei que Milton Neves não presta? A última foi de doer. Luiz Zveiter, o picareta que controla do STJD, foi entrevistado no Terceiro Tempo da TV Record. Zveiter foi protegido por Milton, que evitou que o juiz fosse trucidado pelos comentaristas presentes. Para piorar, o capo da Justiça Desportiva disse que Romário só levou um jogo de suspensão por agredir o colega Andrei – quando normalmente a pena é de três partidas – porque há atenuantes no caso do atacante do Flu. Quais? “Romário é um campeão do mundo”, respondeu Zveiter... E ninguém questionou essa explicação. Ou seja: no tribunal do Sr. Zveiter, todos são iguais perante às leis, mas alguns são mais iguais que os outros.

PRA LER NO BANHEIRO - Já que falei de Arca Russa, a dica de leitura não poderia ser outra. Aleksandr Sokúrov, organizado por Álvaro Machado, é leitura necessária para compreender o mundo deste mais do que genial cineasta. Quem pode conferir a retrospectiva na Mostra sabe do que estou falando.