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23 de janeiro a 5 de fevereiro de 2003


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BOTECO #11

CULTURA NO PAREDÃO
Idiotizante, medíocre, lixo intragável, entretenimento de baixíssima qualidade. Mas por que é que tem gente que adora Big Brother

por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)

uem vive a vida dos outros está desperdiçando a própria vida. É claro que não estou falando do menino que se encanta e quer ser Ivanhoé ou El Cid, nem do adolescente que adoraria viver como Sal Paradise e Dean Moriarty. Não há nada de mal em tentar pautar a realidade com elementos – muitas vezes deliciosos – da fantasia. Bom, estou tentando colocar da forma mais delicada possível, mas o negócio é o seguinte: eu odeio o fenômeno reality show. Estou de saco cheio de Big Brother tal, Celebrity isto e aquilo, um monte de lixo que não vale a pena nem citar o nome. Sério, qual a emoção de se acompanhar o dia-a-dia de pessoas vazias? É uma leitura bem da vagabunda de um voyeurismo mais do que distorcido. Estou convencido, do alto de minha (suposta) arrogância, de que esse tipo de programa é coisa de gente tapada, diversão para medíocres. Isso não é para quem está acima de um celenterado na escala evolutiva.

Fico assustado, no entanto, quando percebo que tem muita gente com educação e QI perdendo tempo com reality shows. Quando vejo colegas da faculdade se dignando a tratar o tema com seriedade, percebo um sintoma de que a doença da programação imbecilizante na TV não vai passar jamais. Sei que a cultura não deve ser feita “de cima para baixo”, mesmo porque não concordo que as faculdades criam uma nata cultural. Nem deveria ser assim. Mas quando uma elite – econômica, que seja – aceita de bom grado que sejamos entupidos de baboseiras como Big Brother, aí é problema. O único que não é idiota é o capitalista, o sujeito que vende essas idéias, aquele que ganha enquanto muito material humano é desperdiçado ao queimar fosfato discutindo se A ou B deveria ser eliminado no paredão. Quem não é burro e perde tempo vendo Casa dos Artistas, ou assume conscientemente que está jogando fora a oportunidade de fazer algo de útil ou, na boa, está emburrecendo.

Pior do que isso é a imprensa. Eu trabalhava em um grande portal quando começou o primeiro BBB, e me revoltei quando percebi que o assunto não seria ignorado – na minha opinião, o melhor remédio, além da crítica austera e sistemática, é claro. Ainda bem que o pessoal de esportes não tinha nada a ver com esta cobertura. Mas eu não estava imune: não saber quem eram os participantes do jogo me deixava de fora da maioria das conversas. De novo, minha arrogância: nunca me senti tão feliz por estar completamente desinformado. Mas a imprensa não deu chance mesmo, não deixou o mal morrer antes de nascer. Repercutiu como se não houvesse opção. Como é que órgãos antes tão influentes, como Estado e Folha se dignam a cobrir porcarias deste naipe? Já é ridículo considerar jornalismo cultural (termo paradoxal, mas assunto para outro dia) a cobertura de fofoca de novelas e afins, mas daí para dar o mesmo espaço para a crise diplomática norte-coreana e para os últimos eliminados do joguinho da televisão... Tenho certeza de que isto está previsto no Apocalipse. Culturalmente, estamos perto do armagedon. Espero que seja só meu pessimismo habitual.

Às vezes me sinto um velho, com os “a que ponto nós chegamos” e afins. Cansei até de apelar, pois não sou a voz da razão nem para mim mesmo, o que dirá para os outros. Agora, até me divirto vendo uns e outros desmarcando compromissos para acompanhar o “programão” da Globo. O mais engraçado é que a mesma pseudo-intelectualidade que critica os EUA (muitas vezes sem razão) resolve devorar seu produto mais nefasto e devastador. Eu gostaria de trocar de lugar com o Iraque. Joguem as bombas aqui e levem os Survivors para lá. Pelo menos os estragos provocados pelos Tomahawks se perpetuam por menos gerações.

ETÍLICAS I – Virada de mesa. Eu não gostaria de ter que proferir estas palavras, mas é o que estão dizendo por aí. Minha leitura da situação: não, eu não gostaria de ver o Flamengo perdendo pontos por tamanha bobagem. Por duas vezes o São Paulo foi prejudicado em casos tão ridículos – e de pura burocracia – quanto este de Wendell. Mas, se for para punir o Flamengo, que suba só a Lusa, primeira na fila dos rebaixados. Mas acreditar que vai ficar por isso mesmo é achar que existe Papai Noel. O Flamengo não cai, sobe a Lusa e aí vem junto o “Trem da Alegria”. Se sobem Palmeiras, Gama e Botafogo, abriu a porteira. E o Brasileirão de 2003 vai ter uns 40 times... Vão cumprir a palavra, Luiz Zveiter e Ricardo Teixeira, ou vão fazer como de costume?

ETÍLICAS II – Entre uma cerveja e outra, meu colega Marcelo Grimberg, da Folha, pautou bem uma discussão importante: até onde vão as mudanças das regras da F-1. Para tentar ferrar com a Ferrari (sem trocadilhos), proibiram até rádio nos carros. Os bólidos deste ano serão mais arcaicos do que os do ano passado. As equipes (ricas), que entendem que a F-1 é uma competição de tecnologia, já aprontaram um xeque para cima da FIA, que organiza o mundial e dita as regras. Não é impossível que haja um racha, como já ocorreu nos EUA. Lá, a Indy se separou em IRL e Cart, deixando grandes equipes de fora da tradicionalíssima 500 Milhas de Indianápolis. Não gostaria de ir até Interlagos para não ver as Ferraris, Williams, McLarens, mas tudo pode acontecer.

ETÍLICAS III – Tente encontrar alguém que votou no Garotinho. Sumiram, simplesmente.

ETÍLICAS IV – Meu amigo de infância Michel, que já escreveu neste Rabisco, reclama quando digo que o São Paulo seria campeão se o Brasileiro tivesse sido disputado em pontos corridos. É claro, Michel, que se a regra fosse outra, os jogos seriam outros, e tudo seria diferente. Eu já vi De Volta para o Futuro pelo menos umas dez vezes. Mas, caro Michel, o sentimento do torcedor é imutável, inerte a estas considerações filosóficas, temporais e Einsteineanas. Resumindo: são-paulino chorão será sempre são-paulino chorão.

PRA LER NO BANHEIRO – Com os vinte anos da morte de Garrincha, a indicação não poderia ser outra. Estrela Solitária, a biografia do craque escrita por Ruy Castro, é incontestavelmente imperdível. Não é pré-requisito gostar de futebol: o livro é delicioso e o personagem Garrincha é um achado: simultaneamente heróico, cômico e dramático. Acaba de virar filme (não pela primeira vez), interpretado pelo embuste chamado André Gonçalves. Baseado no livro, o filme até pode não sair de todo ruim mas, nesse caso, estou como São Tomé.