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BOTECO #11
CULTURA NO PAREDÃO
Idiotizante, medíocre, lixo
intragável, entretenimento de baixíssima qualidade.
Mas por que é que tem gente que adora Big Brother
por Leopoldo Godoy (leogodoy@hotmail.com)
uem
vive a vida dos outros está desperdiçando a própria
vida. É claro que não estou falando do menino que
se encanta e quer ser Ivanhoé ou El Cid, nem do adolescente
que adoraria viver como Sal Paradise e Dean Moriarty. Não
há nada de mal em tentar pautar a realidade com elementos
– muitas vezes deliciosos – da fantasia. Bom, estou
tentando colocar da forma mais delicada possível, mas o negócio
é o seguinte: eu odeio o fenômeno reality show. Estou
de saco cheio de Big Brother tal, Celebrity isto e
aquilo, um monte de lixo que não vale a pena nem citar o
nome. Sério, qual a emoção de se acompanhar
o dia-a-dia de pessoas vazias? É uma leitura bem da vagabunda
de um voyeurismo mais do que distorcido. Estou convencido, do alto
de minha (suposta) arrogância, de que esse tipo de programa
é coisa de gente tapada, diversão para medíocres.
Isso não é para quem está acima de um celenterado
na escala evolutiva.
Fico assustado, no entanto, quando percebo que tem
muita gente com educação e QI perdendo tempo com reality
shows. Quando vejo colegas da faculdade se dignando a tratar o tema
com seriedade, percebo um sintoma de que a doença da programação
imbecilizante na TV não vai passar jamais. Sei que a cultura
não deve ser feita “de cima para baixo”, mesmo
porque não concordo que as faculdades criam uma nata cultural.
Nem deveria ser assim. Mas quando uma elite – econômica,
que seja – aceita de bom grado que sejamos entupidos de baboseiras
como Big Brother, aí é problema. O único
que não é idiota é o capitalista, o sujeito
que vende essas idéias, aquele que ganha enquanto muito material
humano é desperdiçado ao queimar fosfato discutindo
se A ou B deveria ser eliminado no paredão. Quem não
é burro e perde tempo vendo Casa dos Artistas, ou
assume conscientemente que está jogando fora a oportunidade
de fazer algo de útil ou, na boa, está emburrecendo.
Pior do que isso é a imprensa. Eu trabalhava
em um grande portal quando começou o primeiro BBB,
e me revoltei quando percebi que o assunto não seria ignorado
– na minha opinião, o melhor remédio, além
da crítica austera e sistemática, é claro.
Ainda bem que o pessoal de esportes não tinha nada a ver
com esta cobertura. Mas eu não estava imune: não saber
quem eram os participantes do jogo me deixava de fora da maioria
das conversas. De novo, minha arrogância: nunca me senti tão
feliz por estar completamente desinformado. Mas a imprensa não
deu chance mesmo, não deixou o mal morrer antes de nascer.
Repercutiu como se não houvesse opção. Como
é que órgãos antes tão influentes, como
Estado e Folha se dignam a cobrir porcarias deste
naipe? Já é ridículo considerar jornalismo
cultural (termo paradoxal, mas assunto para outro dia) a cobertura
de fofoca de novelas e afins, mas daí para dar o mesmo espaço
para a crise diplomática norte-coreana e para os últimos
eliminados do joguinho da televisão... Tenho certeza de que
isto está previsto no Apocalipse. Culturalmente, estamos
perto do armagedon. Espero que seja só meu pessimismo habitual.
Às vezes me sinto um velho, com os “a
que ponto nós chegamos” e afins. Cansei até
de apelar, pois não sou a voz da razão nem para mim
mesmo, o que dirá para os outros. Agora, até me divirto
vendo uns e outros desmarcando compromissos para acompanhar o “programão”
da Globo. O mais engraçado é que a mesma pseudo-intelectualidade
que critica os EUA (muitas vezes sem razão) resolve devorar
seu produto mais nefasto e devastador. Eu gostaria de trocar de
lugar com o Iraque. Joguem as bombas aqui e levem os Survivors
para lá. Pelo menos os estragos provocados pelos Tomahawks
se perpetuam por menos gerações.
ETÍLICAS I –
Virada de mesa. Eu não gostaria de ter que proferir estas
palavras, mas é o que estão dizendo por aí.
Minha leitura da situação: não, eu não
gostaria de ver o Flamengo perdendo pontos por tamanha bobagem.
Por duas vezes o São Paulo foi prejudicado em casos tão
ridículos – e de pura burocracia – quanto este
de Wendell. Mas, se for para punir o Flamengo, que suba só
a Lusa, primeira na fila dos rebaixados. Mas acreditar que vai ficar
por isso mesmo é achar que existe Papai Noel. O Flamengo
não cai, sobe a Lusa e aí vem junto o “Trem
da Alegria”. Se sobem Palmeiras, Gama e Botafogo, abriu a
porteira. E o Brasileirão de 2003 vai ter uns 40 times...
Vão cumprir a palavra, Luiz Zveiter e Ricardo Teixeira, ou
vão fazer como de costume?
ETÍLICAS II –
Entre uma cerveja e outra, meu colega Marcelo Grimberg, da Folha,
pautou bem uma discussão importante: até onde vão
as mudanças das regras da F-1. Para tentar ferrar com a Ferrari
(sem trocadilhos), proibiram até rádio nos carros.
Os bólidos deste ano serão mais arcaicos do que os
do ano passado. As equipes (ricas), que entendem que a F-1 é
uma competição de tecnologia, já aprontaram
um xeque para cima da FIA, que organiza o mundial e dita as regras.
Não é impossível que haja um racha, como já
ocorreu nos EUA. Lá, a Indy se separou em IRL e Cart, deixando
grandes equipes de fora da tradicionalíssima 500 Milhas de
Indianápolis. Não gostaria de ir até Interlagos
para não ver as Ferraris, Williams, McLarens, mas tudo pode
acontecer.
ETÍLICAS III
– Tente encontrar alguém que votou no Garotinho.
Sumiram, simplesmente.
ETÍLICAS IV –
Meu amigo de infância Michel, que já
escreveu neste Rabisco, reclama quando digo que
o São Paulo seria campeão se o Brasileiro tivesse
sido disputado em pontos corridos. É claro, Michel, que se
a regra fosse outra, os jogos seriam outros, e tudo seria diferente.
Eu já vi De Volta para o Futuro pelo menos umas dez
vezes. Mas, caro Michel, o sentimento do torcedor é imutável,
inerte a estas considerações filosóficas, temporais
e Einsteineanas. Resumindo: são-paulino chorão será
sempre são-paulino chorão.
PRA LER NO BANHEIRO
– Com os vinte anos da morte de Garrincha, a indicação
não poderia ser outra. Estrela Solitária, a
biografia do craque escrita por Ruy Castro, é incontestavelmente
imperdível. Não é pré-requisito gostar
de futebol: o livro é delicioso e o personagem Garrincha
é um achado: simultaneamente heróico, cômico
e dramático. Acaba de virar filme (não pela primeira
vez), interpretado pelo embuste chamado André Gonçalves.
Baseado no livro, o filme até pode não sair de todo
ruim mas, nesse caso, estou como São Tomé.
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