equipe discussao anteriores
22/12/2003 a 3/1/2004



Picosearch

CADERNO ZERO #4

PARABÉNS SIAMESE DREAM
Há dez anos o álbum Siamese Dream, do grupo The Smashing Pumpkins, era concebido: um turbilhão de emoção e rock and roll pouco visto nos dias de hoje

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

esta edição, gostaria de compartilhar com vocês um álbum muito significativo para mim e que está completando dez anos de seu lançamento. Trata-se de Siamese Dream, segundo disco do grupo norte-americano The Smashing Pumpkins, que, lançado em 1993, mostrou para o mundo, finalmente, a que veio o então quarteto de Chicago. Comentarei cada faixa, mostrando o que representa este CD, um verdadeiro furacão de energia e coração rock and roll.

Diferente do primeiro trabalho (Gish, de 1991 – mais cru e direto), Siamese Dream apresentou uma proposta nova e surpreendeu de forma positiva crítica e público, que havia se acostumado ao movimento grunge, em alta na época. Os Pumpkins vinham de outra linhagem, com influências diversas da galera de Seattle, com tempero próprio para a banda construir as melodias. As músicas do disco são muito bem trabalhadas, com variações instrumentais impressionantes e dinâmica intensa. As letras completam o pacote visceral, falando de amor, dor e raiva, e refletem o estado de espírito dos “Abóboras” naquele momento. E é todo esse conjunto explosivo de acordes e vozes que será exposto nesta coluna a partir de agora.

“BANG BANG YOU’RE DEAD HOLE IN YOUR HEAD”

“Cherub Rock” inicia o CD e é daqueles petardos que você costuma ouvir quando está com muita raiva e resolve soltá-la. Possui ritmo e intensidade estonteantes e regurgita através da voz sutil de Corgan: “Freak out/And give in/Doesn't matter what you believe in/Stay cool/And be somebody's fool this year”. “Quiet” não deixa a peteca cair, mantendo a seqüência explosiva do álbum com solos e distorções expressivas. Nessas horas eu já estou berrando junto com o vocalista cada verso da canção, como este: “Be ashamed/Of the mess you've made/my eyes never forget”.

Em seguida “Today” fecha a parte pauleira do disco. Esta é uma das músicas mais “alegres” do álbum: “Today is the greatest/Day I've ever known/Can't live for tomorrow,/Tomorrow's much too long/I'll burn my eyes out/Before I get out”. O refrão canta o que pode parecer uma falsa alegria, mas a fina ironia de Billy Corgan está escondida. Quando eu já estou saciado e até mais calmo, “Hummer” chega com suas guitarras distorcidas, trazendo uma pitada de viagem ao Siamese Dream. Adoro ouvir essa música quando estou triste, pois ela dá uma força a prosseguir, como diz os versos “When you decide/That your life is a prize/Renew and revive”. Mesmo assim, Corgan indaga do fundo do seu coração: “Do you feel/Love is real?”.

“Rocket” volta com o peso característico do disco, mas com uma lentidão marcial e distorção de guitarra intermitente. Essa música fica mais para aqueles momentos de inspiração musical ou saco cheio. “Disarm”, outro single, atira pra matar na mãe do vocalista, jogando toda sua ira contra quem o largou na infância. Os violinos de “Disarm” são emocionantes, assim como a voz de Billy a cantar que “o assassino em mim é o assassino em você”. Uma ironia do destino, porém, vai marcar sua vida: 5 anos mais tarde, Corgan escreveria “For Martha” para o álbum Adore, em homenagem a sua mãe, de mesmo nome, que faleceria naquele ano.

“Soma” prossegue com o momento “baladinha” do disco. Se bem que a música varia em sua metade, com o barulho da guitarra voltando a encher os alto-falantes e o meu quarto bagunçado. Engraçado como os versos das canções podem retratar o estado emocional da pessoa que os lê. Para elucidação, coloco as primeiras palavras que lamentam e puxam a minha memória para uma realidade arrastada: “Nothing left to say/And all I've left to do/Is run away from you”.

“Geek U.S.A.” devolve a barulheira infernal ao álbum, com uma velocidade que pode derrubar os mais desavisados. Tenho uma vontade enorme de aprender a tocar bateria pois a maestria com que Jimmy Chamberlin executa o instrumento é de uma qualidade rara. Outro detalhe está na energia das guitarras de James Iha e Billy Corgan, que dão mostra da coesão harmônica do grupo nos idos de 1993. “Mayonaise” é uma balada bastante otimista, com violões tranqüilos fazendo a base para as guitarras cheias de efeitos. Curto muito escutá-la, pois também tem o dom de me trazer força, além de ser muito leve e gostosa. A mensagem positiva não nega: “I send a heart to all my dearies/When your life is so, so dreary/Dream”.

Já “Spaceboy” é uma balada tão triste, que pode deprimir aqueles que tem predisposição a isto. Mas vale ressaltar também a beleza dos violinos e violões que a conduzem, demonstrando emoção pura a cada acorde tocado. É uma canção bastante introspectiva e deliciosamente melancólica. Por outro lado, “Silverfuck” é a viagem por excelência. A bateria possui um som tribal, com guitarras sujas e distorcidas ao extremo. A letra grita contra a figura materna do vocalista de forma inexprimível. É daquelas coisas estranhas, cheia de buracos e silêncios no meio da faixa, mas também possui seqüências velozes e barulhentas, e resume de certa forma o som da banda. “Sweet Sweet” é uma música bem curta, pouco mais de um minuto, serve apenas de introdução e respiro, após os longos oito minutos da faixa anterior.

A faixa que fecha o disco é a fantástica “Luna”. Fantástica por conta do lirismo do som e da letra. No som, as guitarras trazem a calmaria necessária para a introdução dos violinos e violoncelos que colocam mais beleza a viagem. Na letra, o clima romântico é acentuado por frases de amor que falam das aspirações do pretendente quanto a sua amada. Para exemplificar, retiro o seguinte trecho: “I'll sing for you/If you want me to/I'll give to you and/It's a chance I'll have to take/And it's a chance I'll have to break”. Algo tão apaixonado e raro de se ver hoje em dia, e só prova a veia poética do garoto Billy. Sempre me emociono ao ouvi-la, pois o verso final sintetiza tudo o que desejamos dizer para quem amamos na frase: “Eu amo você”.