| CADERNO ZERO #4
PARABÉNS SIAMESE DREAM
Há dez anos o álbum
Siamese Dream, do grupo The Smashing Pumpkins, era concebido:
um turbilhão de emoção e rock and roll pouco
visto nos dias de hoje
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
esta
edição, gostaria de compartilhar com vocês um
álbum muito significativo para mim e que está completando
dez anos de seu lançamento. Trata-se de Siamese
Dream, segundo disco do grupo norte-americano The Smashing
Pumpkins, que, lançado em 1993, mostrou para o mundo, finalmente,
a que veio o então quarteto de Chicago. Comentarei cada faixa,
mostrando o que representa este CD, um verdadeiro furacão
de energia e coração rock and roll.
Diferente do primeiro trabalho (Gish, de 1991
– mais cru e direto), Siamese Dream apresentou
uma proposta nova e surpreendeu de forma positiva crítica
e público, que havia se acostumado ao movimento grunge, em
alta na época. Os Pumpkins vinham de outra linhagem, com
influências diversas da galera de Seattle, com tempero próprio
para a banda construir as melodias. As músicas do disco são
muito bem trabalhadas, com variações instrumentais
impressionantes e dinâmica intensa. As letras completam o
pacote visceral, falando de amor, dor e raiva, e refletem o estado
de espírito dos “Abóboras” naquele momento.
E é todo esse conjunto explosivo de acordes e vozes que será
exposto nesta coluna a partir de agora.
“BANG BANG YOU’RE DEAD HOLE IN
YOUR HEAD”
“Cherub Rock” inicia o CD e é
daqueles petardos que você costuma ouvir quando está
com muita raiva e resolve soltá-la. Possui ritmo e intensidade
estonteantes e regurgita através da voz sutil de Corgan:
“Freak out/And give in/Doesn't matter what you believe in/Stay
cool/And be somebody's fool this year”. “Quiet”
não deixa a peteca cair, mantendo a seqüência
explosiva do álbum com solos e distorções expressivas.
Nessas horas eu já estou berrando junto com o vocalista cada
verso da canção, como este: “Be ashamed/Of the
mess you've made/my eyes never forget”.
Em seguida “Today” fecha a parte pauleira do disco.
Esta é uma das músicas mais “alegres”
do álbum: “Today is the greatest/Day I've ever known/Can't
live for tomorrow,/Tomorrow's much too long/I'll burn my eyes out/Before
I get out”. O refrão canta o que pode parecer uma falsa
alegria, mas a fina ironia de Billy Corgan está escondida.
Quando eu já estou saciado e até mais calmo, “Hummer”
chega com suas guitarras distorcidas, trazendo uma pitada de viagem
ao Siamese Dream. Adoro ouvir essa música
quando estou triste, pois ela dá uma força a prosseguir,
como diz os versos “When you decide/That your life is a prize/Renew
and revive”. Mesmo assim, Corgan indaga do fundo do seu coração:
“Do you feel/Love is real?”.
“Rocket” volta com o peso característico do
disco, mas com uma lentidão marcial e distorção
de guitarra intermitente. Essa música fica mais para aqueles
momentos de inspiração musical ou saco cheio. “Disarm”,
outro single, atira pra matar na mãe do vocalista, jogando
toda sua ira contra quem o largou na infância. Os violinos
de “Disarm” são emocionantes, assim como a voz
de Billy a cantar que “o assassino em mim é o assassino
em você”. Uma ironia do destino, porém, vai marcar
sua vida: 5 anos mais tarde, Corgan escreveria “For Martha”
para o álbum Adore, em homenagem a sua
mãe, de mesmo nome, que faleceria naquele ano.
“Soma” prossegue com o momento “baladinha”
do disco. Se bem que a música varia em sua metade, com o
barulho da guitarra voltando a encher os alto-falantes e o meu quarto
bagunçado. Engraçado como os versos das canções
podem retratar o estado emocional da pessoa que os lê. Para
elucidação, coloco as primeiras palavras que lamentam
e puxam a minha memória para uma realidade arrastada: “Nothing
left to say/And all I've left to do/Is run away from you”.
“Geek U.S.A.” devolve a barulheira infernal ao álbum,
com uma velocidade que pode derrubar os mais desavisados. Tenho
uma vontade enorme de aprender a tocar bateria pois a maestria com
que Jimmy Chamberlin executa o instrumento é de uma qualidade
rara. Outro detalhe está na energia das guitarras de James
Iha e Billy Corgan, que dão mostra da coesão harmônica
do grupo nos idos de 1993. “Mayonaise” é uma
balada bastante otimista, com violões tranqüilos fazendo
a base para as guitarras cheias de efeitos. Curto muito escutá-la,
pois também tem o dom de me trazer força, além
de ser muito leve e gostosa. A mensagem positiva não nega:
“I send a heart to all my dearies/When your life is so, so
dreary/Dream”.
Já “Spaceboy” é uma balada tão
triste, que pode deprimir aqueles que tem predisposição
a isto. Mas vale ressaltar também a beleza dos violinos e
violões que a conduzem, demonstrando emoção
pura a cada acorde tocado. É uma canção bastante
introspectiva e deliciosamente melancólica. Por outro lado,
“Silverfuck” é a viagem por excelência.
A bateria possui um som tribal, com guitarras sujas e distorcidas
ao extremo. A letra grita contra a figura materna do vocalista de
forma inexprimível. É daquelas coisas estranhas, cheia
de buracos e silêncios no meio da faixa, mas também
possui seqüências velozes e barulhentas, e resume de
certa forma o som da banda. “Sweet Sweet” é uma
música bem curta, pouco mais de um minuto, serve apenas de
introdução e respiro, após os longos oito minutos
da faixa anterior.
A faixa que fecha o disco é a fantástica “Luna”.
Fantástica por conta do lirismo do som e da letra. No som,
as guitarras trazem a calmaria necessária para a introdução
dos violinos e violoncelos que colocam mais beleza a viagem. Na
letra, o clima romântico é acentuado por frases de
amor que falam das aspirações do pretendente quanto
a sua amada. Para exemplificar, retiro o seguinte trecho: “I'll
sing for you/If you want me to/I'll give to you and/It's a chance
I'll have to take/And it's a chance I'll have to break”. Algo
tão apaixonado e raro de se ver hoje em dia, e só
prova a veia poética do garoto Billy. Sempre me emociono
ao ouvi-la, pois o verso final sintetiza tudo o que desejamos dizer
para quem amamos na frase: “Eu amo você”.
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