| CADERNO
ZERO #15
UM FEITO HISTÓRICO
Surpresa Once Caldas derrota Boca Juniors nos pênaltis e se consagra como um incontestável campeão da Libertadores de 2004
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
endito seja Diós, Bendito seja Diós, Bendito seja Diós. Colômbia! Essas eram as palavras proferidas aos prantos por um locutor de uma rádio de Bogotá após o goleiro do Once Caldas, Henao, pegar o quarto e derradeiro pênalti do Boca Juniors, batido por Cangele, e conquistar pela primeira vez em sua história a Taça Libertadores da América. Foi a confirmação de um feito histórico para a equipe da pequena cidade de Manizales, com cerca de 380 mil habitantes, que agora vive em festa. É o segundo título de um clube colombiano nesse torneio, depois do Nacional de Medellín ter triunfado em 1989.
dasO Once Caldas derrubou quatro campeões da competição: o argentino Vélez Sarsfield (campeão em 1994) na primeira fase, o Santos (bicampeão em 1962-63) nas quartas de final, o São Paulo (bicampeão em 1992-93) na semifinal e o Boca Juniors (campeão cinco vezes nos anos de 1977/78, 2000/01 e 2003) na finalíssima.
dasCom um esquema defensivo de duas linhas de quatro jogadores marcando atrás, e, contando com o talentoso meia Valentierra para armar as jogadas para a fraquíssima dupla de ataque Moreno e Alcazar, o Once Caldas não deixou ninguém jogar e teve um aproveitamento fabuloso nas poucas oportunidades de gol que produziu durante a Taça. O esquema era o seguinte: empatar a todo o custo fora de casa, sacrificando de todas as formas o ataque (contra o São Paulo, no jogo do Morumbi, foram dados 3 chutes a gol pelos colombianos, mas apenas um com perigo, aos 44' do segundo tempo); em casa, com um volante a menos e um meia avançado a mais, o time abria espaços em sua defesa para atacar com maior qualidade.
dasAssim, o Once Caldas foi batendo seus adversários: único classificado do grupo 2 na primeira fase*, terminou em primeiro lugar no Grupo 2, com 13 pontos; venceu 4 partidas, empatou 1 e perdeu apenas 1. Três vitórias em casa contra o Fênix, do Uruguai, por 3 a 0, contra o Vélez Sarsfield, por 2 a 0, e contra o Unión Atlético Maracaibo, da Venezuela, por 2 a 1. Fora de casa o desempenho foi razoável: vitória contra o mesmo Maracaibo por 2 a 1, derrota para o Vélez Sarsfield por 2 a 0 e empate por 2 a 2 contra o Fênix.
dasNas oitavas de final passou pelo equatorianos do Barcelona de Guaiaquil nos pênaltis, após empatar no Equador por 0 a 0, e em Manizales por 1 a 1. Nas quartas de final superou o Santos, após empate na Vila Belmiro por 1 a 1, vencendo a peleja em casa por 1 a 0, com um golaço de falta de Valentierra, já próximo do fim do jogo. Na semifinal, com a mesma tática defensiva impediu o São Paulo de atacar no Morumbi e empatou por 0 a 0 no Brasil, vencendo por 2 a 1 na volta, de forma dramática, com gol do atacante reserva Agudelo aos 45' do segundo tempo. Na final, empatou com o Boca Juniors no La Bombonera, novamente sem abertura na contagem do placar, deixando para decidir tudo em casa, mais uma vez.
dasIsso deu nova vantagem ao Once Caldas, saindo na frente do placar com um golaço do centro-campista Viáfara. Mesmo assim, na etapa final, Burdisso, de cabeça, empatou a partida e tudo se encaminhou para os pênaltis. Nas penalidades ocorreu algo muito inusitado, para não dizer trágico: os quatro batedores do Boca Juniors erraram suas cobranças. Schiavi (fora), Cascini (goleiro), Burdisso (trave) e Cangele (goleiro) perderam. Pelo lado do Once Caldas, Valentierra e Ortegón tiveram suas cobranças defendidas por Abbondanzieri, enquanto que Soto e Agudelo converteram suas chances.
dasO Once Caldas, que nunca perdeu jogos internacionais em seu estádio Palogrande, derrubou o tabu boquense que não perdia em decisões por pênaltis desde 1989, quando perdera para o Olímpia, do Paraguai, nas oitavas de final daquele ano. É mais uma zebra que vence. Se bem que, depois dos últimos acontecimentos desse ano, a vitória do Santo André na Copa do Brasil, o título inédito da Grécia na Eurocopa, diante dos portugueses, num torneio que não teve nenhuma seleção campeã do mundo nas semifinais, o jeito é atirar a arrogância para longe. É preciso começar a olhar com mais cuidado e respeito para os adversários “menores”, que, se não têm tradição, camisa, torcida, possuem cabeça no lugar e muita organização, além de saber de seus próprios limites e de um item que tem faltado aos chamados grandes clubes em decisões: humildade.
das* = Neste ano os segundos colocados se classificaram por índice técnico. Os cinco melhores segundos classificaram-se direto para segunda fase e os quatro piores jogaram partida única. O sexto pior pegava o nono e o sétimo jogava contra o oitavo pior. O Maracaibo, do grupo do Once, terminou com 8 pontos, e foi para a repescagem como o nono pior segundo e foi goleado pelo Barcelona de Guaiaquil, em Guaiaquil, por 6 a 1.
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