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10 a 25 de agosto de 2004 Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #17

UMA MANHÃ NO METRO DE SÃO PAULO

Empurra-empurra, xingamentos, correria e ignorância são elementos comuns nos trens paulistanos

por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

metrô de São Paulo é algo muito engraçado e, por vezes, esquisito. Ele faz parte de meu cotidiano e de diversos paulistanos. Tomo o metrô de segunda à sexta bem no horário de maior pico, às sete da manhã, na estação Artur Alvim, a segunda do lado leste da linha 3 – vermelha, conhecida como leste-oeste. O metrô vai lotado de pessoas que se acotovelam por um lugar longe (ou não) das portas ou mesmo querendo se sentar.

Muitas vezes eu prefiro ir para a estação inicial Corinthians-Itaquera e pegar o famoso bate-volta, ou seja, pegar o metrô que pára em Itaquera, mas já retorna sentido oposto, que é a Barra Funda, ao invés de mandar todos descerem e irem a caminho da garagem para voltar na outra plataforma.

O esquema da estação funciona da seguinte maneira. Há 3 plataformas: na primeira, o trem segue direto e todos tem que descer, porque vai sentido garagem para voltar na plataforma 3 que recebe os trens vazios e parte como ponto inicial. Já a plataforma 2, que fica na faixa central, é a do bate-volta, que vem com o pessoal de Artur Alvim e se encaminha para a Barra Funda. Isso premia o povo de Alvim e outras estações (já vi gente voltando da quarta estação – Vila Matilde – para Itaquera apenas para ir sentado) que desejam enfrentar a viagem sentados.

Quando o trem não entra na plataforma do meio bate um desânimo nas pessoas e o tédio de ter de disputar lugar na próxima composição, com grande chance de ir em pé. Nunca vi tanta pressa e agressividade reunidas num ambiente. As pessoas se esquecem de que são... pessoas! No dia que resolvi escrever esta coluna (uma quarta-feira) tive a sorte de pegar o bate-volta e pude ir sentado e na janela, recompensa máxima que alguém pode almejar.

O trem costuma lotar em Artur Alvim e dá para perceber as figuras, como um carinha de toca e óculos, encostado na barra de ferro, dormindo em pé (aliás, metade das pessoas em pé dormem e quase todas as sentadas fazem o mesmo). Todos de cara amarrada, num clima terrível de mau humor.

E a viagem segue entre brecadas e trancos até o Brás, onde ocorre a integração gratuita do metrô com os trens de subúrbio da CPTM, do pessoal que vem de trem da região do ABC, de Guaianazes ou São Miguel Paulista, ambas do extremo leste de São Paulo. O povo que entra empurra sem dó os demais que superlotam o vagão. Pessoas se apertam nos ferros, se machucam, reclamam, xingam, numa gritaria só. E onde já estava repleto de passageiros, uma nova leva adentra para amassar ainda mais as “sardinhas” que estavam naquela lata de rodas.

Tanto que na estação seguinte, a Pedro II, ninguém consegue entrar e a sorte está na estação ser próxima do centro da cidade, portanto, com pouco acesso. Dá até para ver o rio Tamanduteí sujo e morto abaixo dos trilhos. Sorte que são apenas duas estações até chegar a Sé, ponto de ligação da linha vermelha com a outra que liga a região norte e sul da cidade, chamada de linha 1 – azul. É na Sé que a maioria desce.

Me encaminho sentido sul e, ao descer, tomo um susto: a plataforma totalmente tomada por um mar de gente enfileirado que não dava para ver o chão de borracha do local. Isso não é normal, o metrô resolveu ser gentil com o colunista, para este ter realmente muito para escrever.

Me dirigi até a extremidade da plataforma, como uma faixa enorme ordena, “preferencialmente”, que você o faça. Até chegar próximo da porta é preciso esperar ao menos passar um metrô e aguardar todos entrarem numa carreira só. Me meto no meio do povo e vejo uma mulher com sua filha quase esmagada. Aparece outra mulher empurrando as boiadas para dentro do vagão e reclamando, depois, que ninguém tinha calma e empurrava as outras – o ser humano acha que porque o outro fez ele também tem o direito, quando devia ser o contrário.

Pedidos de calma, palavrões e risos (sabe-se lá do quê) se misturavam. Procurei um lugar no centro e só fui sentar na estação Paraíso, onde há integração com a linha 2 – verde, que dá acesso a Avenida Paulista, chamado centro financeiro de São Paulo, onde vários descem para trabalhar.

Depois disso a viagem segue tranqüila (com alguns hematomas, suor e estresse) até meu destino final, a estação Conceição, a penúltima do lado sul da linha. Por isso que paulistano é um bicho mal humorado e nervoso! Também, depois de uma viagem dessas, não há como permanecer calmo e contente. Quem o fizer ou é maluco ou adora contato físico e discussão. É um lugar perfeito para isso, onde o ser humano mostra toda a sua virulência e ignorância, toda a falta de cidadania e individualidade, pensando apenas em não chegar atrasado e tomar bronca do patrão e, no retorno, em chegar o mais cedo possível em casa, para ficar entediado e emburrado mais tempo por não fazer nada.