| CADERNO
ZERO #19
NOITE SEM FIM PARA UM AMOR SEM INÍCIO
Seis atos de Reveillón: um coração partido confronta sua paixão na virada do ano
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
º
Ato ----- Casa e Alma Vazias -----
Uma mente angustiada passeava pela casa deserta. Todos haviam saído para comemorar o novo ano que adentrava. Mas aquela alma parecia penada, algo de outro mundo, vagando em vão, indo e voltando, como que se estivesse esperando o tempo morrer. O corpo disperso só se acalmava depois de sorver alguns bons goles de um wiskhy barato. O líquido descia pela garganta, queimando o esôfago, destruindo tudo o que via pela frente, fazendo o interlocutor de nossa história contorcer seu estômago, como se uma úlcera tivesse saltado naquele momento.
Passados mais alguns longos momentos daquela noite, que se iniciara eterna, eis que o telefone toca. Pessoas procuram por aquele que falava meio embargado. Não se sabe se por causa das lágrimas ou da garrafa de wiskhy que esvaziou-se desde o fim de tarde até o início daquela escuridão. Gilberto – o nosso sôfrego – respondeu que estava saindo, terminando de se arrumar. E despistou, desligando o telefone, quando perguntaram se algo lhe ocorrera.
As oito badaladas do relógio da sala registraram a hora em que Gilberto levantou-se, dispondo-se a andar até a porta, para ir a quem o havia ligado e incomodado seus momentos angustiosos de espera e solidão. Para ele, estar sozinho com sua agonia e seus devaneios era melhor e menos perigoso do que enfrentar o medo das possibilidades que a vida proporciona. Passo por passo, meio cambaleante, muito lentamente, Gilberto pôs-se a caminhar rumo ao destino que lhe reservara alguma surpresa naquela noite. Ou não. Apenas reservara algumas cervejas e vômitos, como já costumeiro.
Meia hora adiante, após parar em uma padaria para comprar cigarro e tomar uma dose de 51, eis que nosso “ilustre” personagem desta paródia comemorativa de fim de ano, um dos mais queridos do grupo, chega próximo ao recinto, antes porém, caindo ao meio fio. Alguns transeuntes o reconhecem e gritam o nome do dono da casa, pedindo para ver o que acontecera. À primeira vista, nada demais – todos já se acostumaram a ver o rapaz naquele estado pelo bairro –, mas acontece que dessa vez ele demorara um pouco mais a erguer-se. Quando os vizinhos começaram a dispersar, eis que o trôpego de camisa branca, já muito suja, pôs-se a levantar e saudou os amigos, desculpando-se pelo ato desleixado. Com isso, todos adentraram a casa com uma sensação de alívio e insegurança, pois a noite apenas estava começando e já se tinha péssimos episódios a relatar.
2º Ato ----- A Angústia da Festa -----
Engraçado que a medida que os convidados iam chegando, Gilberto sorvia mais rapidamente as cervejas que lhe ofereciam. Isso demonstrava claros sinais de ansiedade e desespero que o rapaz sofria em seu canto escuro e depressivo do jardim. A festa começava a empolgar, o som dançante tocava alto, pondo muitas pessoas a requebrar-se. Gilberto não gostava de dançar. Na verdade, não sabia. Tentara, em vão, anos antes, nas poucas festas que ia com amigos, provocando gargalhadas nas pistas. Preferia, hoje, continuar tomando sua cerveja, fumando seu cigarro, sem ser notado por ninguém. Isso, ninguém mesmo, nem os amigos que mais gostam dele. E não é nem por vergonha que estes não se aproximam muito, e sim por saberem do auto-isolamento que Gilberto se propôs há alguns anos. Já foi muito conseguir fazer o jovem sair de casa e ir até José e Paulina, dois de seus melhores amigos e responsáveis pela confraternização da virada de ano.
Gilberto, muito arredio, não queria ir, até por motivos compreensíveis. Mas, por insistência dos dois, ele não pôde recusar pela décima vez o convite. Até por não visitar os colegas há uns dois anos. Apenas quando José, à caminho do trabalho, passava para ver como estava o amigo-irmão. Ou os constantes telefonemas de Paulina, que se preocupava muito com a saúde dele, que andara debilitada nos últimos meses. Ele não sofria de mal nenhum, ao menos aparentemente. A não ser a bebida que consumia seu corpo vorazmente. Mas isso era irreversível, Gilberto não iria largar um de seus mais prazerosos vícios: o álcool. Amigo, fiel, protetor, bom ouvinte. Que consola, aquece, esquece, adormece, transcende, tira a consciência. Tudo aquilo que nosso personagem desejava quando seu coração apertava. Ainda mais no dia de hoje, com tanta expectativa e medo reunidos, nada melhor que algumas cervejas e outras doses de wiskhy para manter o resquício de coragem restante a essa alma quase morta, ao menos socialmente.
Gilberto, José e Paulina tinham ainda outro amigo de longa data que já estava na festa quando nosso companheiro bêbado chegou: o Marcondes. Esse era um grande irmão para Gil – como os colegas costumam chamá-lo –, uma pessoa de quem sempre obteve auxílio. Marcondes sofreu com o isolamento de seu mais fiel parceiro, tanto que acabou por se afastar também, como se tivesse criado uma barreira entre os dois, apesar do amor fraterno que compartilhavam.
Alguns até agora não estão entendendo o que esse cara totalmente insólito tem de ilustre e querido em uma festa de pessoas tão alegres e divertidas, enquanto permanece escondido entre as árvores, como se estivesse fugindo de algum fantasma. É que vocês não conheceram ele alguns anos antes. Jovial, alegre, otimista, divertido e até levemente bagunceiro, Gilberto encantava a todos com suas brincadeiras. Juntamente com José, Paulina, Marcondes, formavam um grupo de pessoas que sempre se mantiveram unidos, com uma amizade bastante sincera e forte, defendendo a todos com unhas e dentes. Até que seu protagonista principal sofreu um baque que lhe fez perpetrar pelos caminhos sem retorno da bebida e do recolhimento. Ninguém entende como isso aconteceu, mas sabem o porquê. Mas nunca chegaram a comentar, até para não piorar o estado do rapaz, que pareceria um menino, não fosse o auto-flagelo em que ele se condicionou a viver nos últimos anos.
3º Ato ----- O Pesadelo -----
11 horas da noite. A alma de Gilberto começava a ficar aliviada. “Estou livre disso”, acreditava ele, urrando dentro de si palavras felizes de “viva”. Até que, com o som de uma palavra gritando o nome de Paulina no portão, um frio na espinha de Gilberto surgia, fazendo-o suar como se estivesse um calor de 40 graus à sombra. No entanto, seu corpo ficara congelado, seu rosto pálido como o mais alvo dos brancos, ao passo que suas pernas amoleciam. Fez sentar-se em uma cadeira que estava a seu lado, enquanto, paralisado, fixava o olhar no céu longínquo, como querendo fugir daquela casa.
A pessoa que gritara o nome de Paulina no portão era a “causa” de todo o sofrimento e alteração da personalidade do jovem Gilberto. Marília era o nome dela. Já faziam alguns bons anos que os dois não se viam, como se fosse um pacto para que não houvesse conflitos. Também amigos de muito tempo, Marília fez parte do grupo, até o dia que Gilberto descobriu-se apaixonado por ela. Ah! Que momento de alegria ele viveu quando começou a sentir tais belos sentimentos. Passeava pelas calçadas vizinhas à sua casa com felicidade sem tamanho, cumprimentando a todos nas ruas, no auge de seus 18 anos de idade. Mesmo sem dizer para ela, o então menino Gil sentia-se feliz, apesar da angústia que lhe assombrava de vez em quando, por desejar algo mais do que sentir solitário aquilo. Queria ela perto de si, sentindo a mesma paixão que ele.
E foi com esse desejo de união e todo esse amor que Gilberto escreveu uma carta a Marília. Nervoso, mas esperançoso, ele postou a carta no correio, contando os dias para chegar a seu destino. Não moravam longe um do outro, mas Gilberto não tinha coragem de levar a correspondência até a residência de sua amada. Passaram-se três dias e nenhuma resposta: nem por carta, nem por telefone. O rapaz começava a perder os sentidos de tanta ansiedade e nervosismo que eclodiam dentro de seu espírito. E foi assim durante semanas, meses, anos. Nenhuma resposta de Marília ao coração totalmente despedaçado de Gilberto, que, sem coragem de perguntar a sua algoz, resignou-se a destruir a própria vida, em protesto contra a mesma vida que não o permitia possuir o que desejava.
4º Ato ----- A Desolação ------
Bom, voltando ao contexto atual, sete longos anos depois, ambos iriam se reencontrar. Gilberto não imaginara esse dia há tempos, nem em suas mais profundas crises de loucura, que tinha de vez em quando. Agora, encontrava-se o rapaz completamente atordoado, olhando fixo para o nada, esperando a sua “morte” chegar. Marcondes percebeu o que estava por acontecer e foi “socorrer” o amigo. Gilberto não respondia, só olhava fixamente o céu, como que procurando alguma estrela que o escondesse àquele momento. José, que estava atrapalhado com seus convidados não pôde assistir ao amigo em precárias condições. Nem mesmo ele sabia da presença de Marília à festa, apenas Paulina e Marcondes. E o próprio Gilberto.
Aos passos que se seguiram quando as duas subiram as escadas, o coração daquele homem amargurado disparou de um tal modo que Marcondes ficou aflito, pois ele mesmo conseguia ouvir os batimentos sem pôr o ouvido no peito do amigo. Na virada para o espaço, eis que Marília avista o “preterido” Gilberto. Ela mesma fica um pouco aturdida, olhando para a amiga Paulina, cobrando o porque do não-aviso da presença do rapaz. Mas, após esse momento de arrogância, Marília resolve por evitar o ex-amigo, mais por vergonha do que pelo inicial desprezo.
Os momentos antes da meia-noite se seguiram em um clima pesado. Apesar de todos continuarem se divertindo, o “grupo” encontrava-se dividido. Marília, que permanecia sem olhar para Gilberto, não largava de Paulina, que, por sua vez não tirava os olhos de Gilberto, que já era assistido pelos amigos Marcondes e José. Este último conseguira desvencilhar-se dos parentes. As únicas palavras que Gilberto pronunciava, além de solicitar a José mais cerveja e wiskhy, eram: “és mais bela do que tudo no mundo”, com um ar tristonho e melancólico. Os companheiros apenas aquiesciam suas palavras e atendiam seus pedidos de bebida.
5º Ato ----- O Reencontro -----
Meia-Noite. A hora fatídica e certeira. O momento em que todos se cumprimentam, desejando felicidades e realizações para o ano recém-nascido. Segundos em que os homens abrem as garrafas de champanhe para comemorar. Até as crianças tomavam um pouquinho. Gilberto gostava da bebida, mas nem podia beber mais, não agüentava. Todos se confraternizando. Até Gilberto se levantou e saiu do seu “canto escuro” para apertar a mão de alguns presentes à festa. É quando, em um movimento absorto, quase involuntário, Marília surge, com uma garrafa de champanhe, a frente de uma luz forte, que quase cega Gilberto. Mesmo assim, o rapaz conseguira ver quem era. Já sem mais o que fazer, resignou-se a dizer um “olá”, ao que se seguiu:
- Como você está Gil? – pergunta ela, como se não percebesse como estava o rapaz.
- Acho que você pode notar como estou – resmungou ele.
Mesmo com a seca e abrupta resposta, Marília avançou em sua tentativa de aproximação.
- Quer um pouco? – a garota ofereceu a Gilberto um gole de champanhe.
- Aceito.
- Feliz ano novo para você Gilberto.
- Obrigado. Para você também – resignou-se em responder Gil.
E assim começou um longo papo. O frescor do champanhe quebrou a vergonha de ambos, pondo-os a falar. Gilberto só queria saber o motivo do eterno silêncio de sua paixão de adolescente. Mas, as suas perguntas não teriam resposta num primeiro momento. Marília direcionou a conversa, inicialmente, a falar como foi sua vida nesses longos anos, dizendo que sentiu muito a falta do amigo, e que ressentia muito ter se afastado da forma como aconteceu. Pedia-lhe desculpas (a essa altura Gilberto já “não acreditava” no que ouvia) pela omissão, comentando que havia adorado a carta recebida, mas que não sentia o amor recíproco que ele reservava à ela. Sentiu-se envergonhada, mas totalmente incapaz de dirigir-lhe a palavra, impedindo também que os amigos comentassem o assunto.
6º Ato ----- As Lágrimas do Adeus -----
Gilberto, já sem muito o que dizer, prostrou-se a chorar. Mas não a cair lágrimas como em sua residência, antes de ir para a festa, e sim a derramar água compulsivamente, como se fosse um rio que desaguava naquele instante. Marília, compungida de ternura, consolou o “amigo”. Coberta de compaixão, a moça acariciou o rosto do rapaz, dizendo-lhe:
- Gil, eu gosto muito de você e não quero que fiques assim. Você sabe de tudo o que aconteceu comigo e eu começo a saber o que houve com você agora, então, eu te peço: pare de se destruir assim. Não chores mais, eu não mereço tanta atenção sua, tanto sofrimento de sua parte. Peço também que esqueça-me como alguém que amas, mas não como amiga. Isso eu quero preservar pela eternidade.
Com essas palavras cortantes a um coração já esfacelado, lá pelas 6 da manhã, o dia clareava. Só restavam os dois no lado de fora da casa, e, enquanto o resto “grupo” tinha se recolhido a dormir, Gilberto se ergueu e decidiu ir embora. Marília questionou o porquê de ir aquela hora, ao que o Gilberto respondeu:
- Não há mais nada para fazer aqui. Depois dessa noite, nada mais será novidade para mim, nem o fim. Tudo que eu fiz comigo está feito e não pretendo mudar. Ao menos aspiro ser mais quem eu sou, sem me esconder na dor do passado de sua presença em meu coração. Não digo que vou esquecê-la, e, também, não peça-me que ame outro alguém.
E assim, em passos meio esparsos e dispersos, mas firmes, Gilberto conduziu-se à rua, enquanto a Lua da manhã o saudava e o vento lhe assoprava um gostoso e frio aroma. Ao fundo, Marília enxugava as lágrimas, com um sorriso triste, porém, menos angustiado, assim como Gilberto após aquela passagem de ano, que marcaria fundo suas vidas pelo resto dos dias. |