| CADERNO
ZERO #20
ESTATUTO DO TORCEDOR: MAIS UMA LEI CRIADA E DESCUMPRIDA
Caderno Zero apura as condições de dois estádios paulistas, a relação com cambistas e compara o tratamento dado aos torcedores
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
 ma coisa que me chamou a atenção nos últimos tempos para comentar por aqui são as condições dos estádios brasileiros, partindo do princípio que, aos direitos do torcedor, correspondem deveres das instituições desportivas organizadoras dos eventos, no que tange ao cumprimento das regras que levem ao conforto e à dignidade de quem vai acompanhar os jogos do seu time. Nesta e na próxima coluna escreverei um pouco sobre a minha recente experiência como torcedor em dois estádios da cidade de São Paulo, onde têm ocorrido mais jogos atualmente: o Palestra Itália, do Palmeiras, situado na zona oeste da capital paulista, e o Morumbi, do São Paulo, estabelecido na zona sul da cidade. O primeiro texto fala sobre a peleja realizada no dia 20 de novembro de 2004 entre Palmeiras e Guarani. O assunto abordado será muito menos o jogo e muito mais os bastidores que envolvem uma partida de futebol, sob o ponto de vista da torcida.
Uma tarde no Palestra
Por volta das 16h de um sábado à tarde resolvi assistir ao confronto entre Palmeiras e Guarani, válido pela 42º rodada do Campeonato Brasileiro de 2004. Após pegar metrô e descer na estação Barra Funda, não imaginava a quantidade de torcida que iria até o estádio e tomei um susto quando alcancei a rua Turiassú, que dá acesso à entrada principal do clube e do estádio. Porém, desde o shopping West Plaza haviam cambistas oferecendo ingressos. Mais 500 metros à frente e percebi o trânsito parado, por conta da estreita rua Turiassú, piorada pela aglomeração de torcedores nos bares, nas calçadas e na própria via. Na bilheteria do estádio, uma dezena de cambistas caminhava de um lado para o outro, “empurrando” ingressos mais caros às pessoas. Resolvi ir para a fila e reparei num policial contando o número de torcedores, para ver se a quantidade de ingresso daria para todos. Nisso, um torcedor à minha frente passou a se indignar com a cena de descaso e perguntou ao orientador de público que estava ao lado da bilheteria:
– Qual o procedimento adotado por vocês aqui contra esse monte de cambista?
– Ah, isso a gente não tem o que fazer. É com eles ali ó – respondeu o orientador, apontando para um policial militar (PM) que estava próximo. Eis que o torcedor não se fez de rogado e se dirigiu até o PM, que disse:
– A gente não tem o que fazer aqui, porque não tem uma lei contra os cambistas. Aí o torcedor palmeirense, já na casa dos 40 anos, perdeu as “estribeiras”:
– É uma sacanagem, pois o policial tá lá contando os ingressos que estão acabando, sendo que tá cheio de cambista na frente da bilheteria vendendo ingresso.
Enquanto isso, senhores próximos ao incidente conversavam entre si com ar secreto, como querendo esconder algo, ao mesmo tempo que um repórter da rádio Jovem Pan AM observava a confusão lá fora e voltava para dentro do clube.
Quando chegou minha vez, o vendedor informou que não havia ingresso para estudante e a única entrada que tinha era a de cadeira descoberta inteira, que custava 25 reais. Eu só tinha 23 reais no bolso, contando as moedas e os trocados, pois pensava que não gastaria mais que isso. Resolvi ir atrás de algum cambista, apesar de minha relutância em manter esse comércio:
– Quanto é a numerada? – perguntei para um senhor de mais ou menos 50 anos e que oferecia ingresso a quem passasse.
– 70 reais – respondeu ele.
– E a arquibancada? – retruquei.
– 25 – disse secamente o sujeito.
Dou mais uma volta e vejo uma discussão entre um outro cambista e um torcedor. O palmeirense acusava-o de ter recebido adiantado o dinheiro e não ter dado o ingresso. Eu já andava feito barata tonta, com uma certa dose de desespero, pois passava das 17h30 e nada de ingresso. Caminhei para a avenida Francisco Matarazzo, hesitei, voltei para a frente da bilheteria, onde se aglomeravam policiais, torcedores, cambistas, orientadores de público, pessoas com colete da prefeitura (escrito “apoio”, fazendo o quê, não se sabe). Decidi pesquisar com um cara mais jovem que me abordou se eu queria arquibancada. Ele disse que custava 20 reais e eu safei-me desta braveza, retirando os contados 20 reais do bolso para pagar o ingresso, meio desconfiado de sua validade.
Fui descontente até a entrada do setor da arquibancada na Av. Matarazzo, ainda preocupado. Nesse lado o assédio era menor, até por conta do menor poder aquisitivo de quem vai para uma arquibancada, normalmente a torcida organizada e outros com menos grana. Quando fui passar o ingresso, para meu desespero, a catraca o rejeitou e pensei: “Fodeu, é falso”. Tentei quatro vezes passar o bilhete magnético, até um senhor (com colete do Palmeiras, identificado como funcionário do clube) que ficava por ali orientando os torcedores me indicou a falar “com o rapaz de preto”, pois ele me ajudaria a entrar. Fui lá e o jovem tentou uma, duas vezes, até abrir a catraca, forçar o cartão a passar, liberando minha passagem e marcando o ingresso para que eu não o desse a outra pessoa. É de se achar no mínimo estranha a causa do bilhete não ter sido aceito e o rapaz ter liberado sem nenhum questionamento.
O mais impressionante é que no Estatuto do Torcedor não há nenhuma providência quanto à atuação do cambista e o direito do torcedor de obter ingresso para o setor desejado. Apenas que o promotor do evento fica encarregado de combater os abusos, como consta em seu artigo 21: “A entidade detentora do mando de jogo implementará, na organização da emissão e venda de ingressos, sistema de segurança contra falsificações, fraudes e outras práticas que contribuam para a evasão da receita decorrente do evento esportivo”, aponta.
Aproveitando o assunto, chega a ser interessante o que está no Estatuto do Torcedor e o que acontece nos campos de futebol brasileiros, no que diz respeito a numeração dos lugares. Os incisos I e II do artigo 22, no capítulo IV, que discorre sobre os ingressos, dizem: “I – que todos os ingressos emitidos sejam numerados; e II – ocupar o local correspondente ao número constante do ingresso”. Agora, um questionamento: como isso pode acontecer com um arquibancada que é só concreto e possui riscos de tinta para demarcar a posição de cada torcedor? Porque não pôr cadeiras com fila, número e letra, mesmo que diminua a capacidade total do estádio? Dentro do estádio
Após o sufoco da entrada, resolvi ir ao banheiro antes da contenda iniciar. Ao contrário do que o comentarista esportivo Fábio Sormani, da Rádio Bandeirantes AM, disse naquela tarde a respeito dos banheiros, que estavam limpos e com sabonetes, os sanitários destinados aos torcedores estavam cheios d'água, com um fedor de merda e urina terríveis, fora a maconha que fumavam lá dentro. Uma sujeira impressionante tomou conta do local, que não tinha, é claro, papel higiênico e sabonete. Os artigos 28 e 29 do Estatuto do Torcedor prevêm condições humanas dos banheiros, conforme texto abaixo: “ O torcedor partícipe tem direito à higiene e à qualidade das instalações físicas dos estádios e dos produtos alimentícios vendidos no local”. Este é o artigo 29: “É direito do torcedor partícipe que os estádios possuam sanitários em número compatível com sua capacidade de público, em plenas condições de limpeza e funcionamento”. Não exime, evidentemente, a responsabilidades das pessoas que utilizam esses lugares.
Mesmo a divisão de torcidas no Palestra Itália é temerária, com policiais prostrados em volta de um cordão para separar a torcida do time adversário dos palmeirense. Ou seja, se a torcida verde e branco resolvesse atacar o pequeno espaço destinado ao torcedor adversário, haveria um massacre. O mais “engraçado” para entender isso é o item seguinte ao inciso 2 citado acima, que valida a postura inerte dos dirigentes em cumprir os artigos mencionados há pouco: “ § 1 o O disposto no inciso II não se aplica aos locais já existentes para assistência em pé, nas competições que o permitirem, limitando-se, nesses locais, o número de pessoas, de acordo com critérios de saúde, segurança e bem-estar”, escreve.
Sem falar na obrigatoriedade das câmeras de vigilância em estádios de futebol com capacidade acima de 20 mil pessoas, caso do estádio do Palmeiras, como está colocado no estatuto, se bem que de forma muito interpretativa, em seu artigo 18: “Os estádios com capacidade superior a vinte mil pessoas deverão manter central técnica de informações, com infra-estrutura suficiente para viabilizar o monitoramento por imagem do público presente”, decreta. Não reparei nada disso, a não ser um policial militar com uma câmera filmando, do gramado, a torcida, após o final do jogo. Sentimentos preconceituosos
Uma coisa que me pergunto muito é porque quando o jogo vai começar, os torcedores xingam tanto o adversário, o juiz, a torcida do outro. Queria entender de onde surge tanta raiva. Até que os palmeirenses próximos a mim estavam comportados, não sendo tão grosseiros como de costume. Mas o preconceito era aflorado: contra o preparador de goleiros do Guarani, chamado diversas vezes de gordo; contra o árbitro Paulo César de Oliveira, berrado de negro; contra a assistente Ana Paula Silva Oliveira por ser mulher; contra o jogador adversário do interior (“vai criar gado!”, foi gritado por um palmeirense mais exaltado) e por aí vai.
O interessante foi notar a decepção geral após o segundo gol campineiro, decretando o placar final de 2 a 0 contra o Palmeiras em pleno Palestra Itália: todos os torcedores descendo as escadarias xingando o time, lamentando, reclamando. Alguns, depois de tudo isso, ainda clamavam seu amor pelo clube: “Ganhando ou perdendo, o Palmeiras é minha paixão, hoje a gente perde, amanhã ganha”. O que importava naquela fria e garoenta noite na Barra Funda era o Palmeiras fora da briga pelo título àquela altura do Brasileirão 2004. Ninguém ligou para o banheiro sujo, molhado, sem estrutura, ninguém reclamou dos cambistas ou do ingresso numerado à toa, todos só queriam saber da derrota. Como diz o jornalista esportivo Juca Kfouri, se todo mundo se preocupasse em lutar pelos seus direitos como o fazem quando o assunto é futebol, o Brasil poderia estar muito melhor do que está hoje.
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