| CADERNO
ZERO #21
"CONFORTO" PARA QUEM PAGA MAIS
Estádio do Morumbi discrimina torcedor da arquibancada e oferece “benefícios” obrigatórios a quem tem mais dinheiro
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
amos aqui prosseguimento ao tema da coluna anterior: as condições de atendimento dos estádios brasileiros. Conto agora o outro lado da moeda: uma partida de futebol vista de um setor mais caro e confortável do estádio do Morumbi, pertencente ao São Paulo Futebol Clube. Gostaria apenas de lembrar duas coisas aos que discordam da crítica colocada por esta coluna: primeiro, quem acompanhou o noticiário essa semana que antecedeu a última rodada do Brasileirão soube que, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, houve longas filas para comprar ingresso e ação de cambistas nas proximidades do estádio local, cobrando até 10 vezes mais por um ingresso de arquibancada que custava, na bilheteria 15 reais, de acordo com site da Gazeta Esportiva. Segundo é o relato, na última quinta-feira, no programa de rádio CBN Esporte Clube, do técnico do Atlético Paranaense Levir Culpi, a respeito do confronto de sua equipe com o Vasco da Gama no dia 12 de dezembro, no estádio carioca de São Januário. Ele afirmou que, além de seus jogadores terem sido forçados a treinar no estacionamento, pois o vestiário reservado para o time havia sido trancado, eles foram obrigados a esperar ajuda da cavalaria para adentrar ao estádio, pois a torcida vascaína fazia um “corredor polonês” para agredi-los.
Morumbi Vazio
Como sou são-paulino (não vejo motivo para esconder de ninguém tal informação), fui a dois jogos seguidos do São Paulo por pura diversão e aproveitei as peculiaridades ocorridas em cada dia para relatar a vocês aqui. Houve detalhes que chamaram a atenção deste jornalista durante as partidas em que o tricolor venceu o Juventude por 4 a 0 e o Internacional por 2 a 1, ocorridas em 21 e 27 de novembro, respectivamente.
A diferença entre o Palestra Itália e o Morumbi é que este último tem cerca de 40 mil lugares a mais. Não é demérito algum para o estádio menor, muito pelo contrário: por ser tão grande, o Morumbi quase sempre aparenta estar vazio, a não ser em grandes eventos como a Taça Libertadores da América deste ano, quando o São Paulo atraiu, em média, 50 mil torcedores. Mas, normalmente, o que se vê é um público muito reduzido, como constatei em ambas as pelejas, com uma média de 10 mil torcedores em cada. Diferença grande, não?
Mesmo assim, a numeração obrigatória dos lugares é, também, “para inglês ver”, pois na área das arquibancadas há somente um assento de plástico que vive normalmente sujo. Há setores da própria arquibancada superior vermelha em que há somente o cimentado para se “aconchegar”, sem falar nas cadeiras antigas de algumas áreas considerados mais “nobres”, que possuem assentos de madeira ainda antigos.
Um problema muito comum e que sempre me irritou - como imagino que deva irritar muitos torcedores que não vão de carro ao Morumbi - é o mais completo descaso das autoridades com relação a transporte público. Do centro da cidade existem apenas quatro linhas que passam no Morumbi: Largo São Francisco - Terminal João Dias, Largo São Francisco - Terminal Capelinha, Terminal Bandeira - Inocoop Campo Limpo e Praça Ramos de Azevedo - Jardim Colombo (esta última costuma passar apenas de hora em hora durante a semana). E com um agravante: nos dias de eventos, em que se deveria colocar mais carros dessas linhas na rua, a frota é diminuída, fazendo com que longas filas se formem em pontos de ônibus como o Terminal Bandeira. Lá, a turma esperou em média uma hora até chegar o ônibus e foi inteiramente “enfiada” em um único veículo.
Notam-se duas diferenças ao ir no Morumbi: quando se chega cedo (como no dia 21) é perceptível a tranqüilidade com que o torcedor pode andar e comprar seu ingresso, ao contrário, do dia 27, em que cheguei mais em cima do horário e as filas estavam enormes, para variar, na bilheteria das arquibancadas. Aliás, é lá que se concentra a maior quantidade de cambistas oferecendo ingresso e pessoas conversando em rodas, meio “a ver navios”. Torcedores e cambistas se confrontam com expressões mal encaradas e ameaçadoras. Você começa a por as mãos nos bolsos e a esconder tudo para evitar que roubem alguma coisa.
Meu intuito era assistir ao jogo no setor Premium, uma área VIP organizada pelo São Paulo que chega a custar a bagatela de 50 reais, com sala de espera, estacionamento reservado dentro do estádio, cadeiras numeradas e mais confortáveis, além de lanchonetes do Habib’s com funcionários também entregando nas cadeiras, loja São Paulo Mania e banheiros melhores (que discutirei mais à frente). Fui logo perguntando a um orientador de público onde eu comprava ingresso para estudante para tal setor. Eu estava em frente a uma bilheteria que vendia somente que a chamada “inteira”, e não a meia estudantil. O rapaz me indicou o local incorreto e só depois de descer em direção à bilheteria da arquibancada -onde os cambistas faziam a festa - pude achá-la. Fui abordado por outro orientador que “controlava” a entrada nessa bilheteria:
- Você vai comprar o quê?
- Premium estudante.
-
Ah, tudo bem. Pode ser ali no guichê 14.
Muitos que passavam ali queriam ir para a bilheteria, que ficava do outro lado do portão principal do estádio, que estava cercado para abrigar a Polícia Militar e a chegada das equipes. No jogo contra o Internacional eu ouvi um diálogo entre um torcedor colorado e um orientador de público mal-informado:
- Você sabe se tem área reservada para a torcida adversária? - indagou o torcedor.
- Não sei não. - respondeu, surpreendentemente, o orientador. É obrigação deste profissional prover tal esclarecimento. Nem era precisa ir muito longe: no próprio site do São Paulo havia esta informação. Aliás, para qualquer partida o local reservado para a torcida de um clube pequeno ou de fora da cidade é sempre a arquibancada amarela térrea, localizada ao lado do portão principal.
Outro detalhe interessante é que, para tentar diminuir a ação dos cambistas, é necessário apresentar a carteira de estudante no momento da compra e na hora de passar o ingresso na catraca eletrônica. O embaraçoso é que em nenhuma das duas vezes que fui ao setor Premium me pediram a carteirinha ou meu ingresso para conferir. No jogo contra o Juventude, no ato da compra, somente solicitaram somente minha identidade. Enquanto isso, no jogo contra o Internacional, um advogado com capacete nos braços havia ido mais cedo para comprar os ingressos para a família, mas não conseguia adquirir para seu filho, pois necessitava da carteira de estudante dele. “A moça da bilheteria disse que só precisava do RG, que na hora da catraca ele mostrava o documento e estava ok”, argumentava. “Eu disse a ele para trazer os dois documento. Eu não iria passar uma informação errada!”, justificava a vendedora “acusada” de tal equívoco. “Vim comprar agora, mas meu filho está em casa. Eu sou advogado, conheço meus direitos, não me façam de bobo!”, exclamava o sujeito.
“Engraçado” que eu só pude acompanhar isso porque a mesma atendente não conseguia efetuar a compra do ingresso para mim, pois “o sistema está com problema”, desculpava-se. Ela chegou a questionar se eu já tinha me cadastro no sistema deles. “Bem, eu já comprei ingresso nesse sistema, mas não sei se me cadastraram”, apesar de saber que me cadastraram a primeira vez na loja Centauro do shopping Aricanduva, zona leste de São Paulo, que foi posto de venda de ingresso na Libertadores. Lembro também que na segunda vez em que comprei ingresso nessa loja a menina fez novo cadastro, mas colocando apenas meu nome completo e CPF, por conta da longa fila que se formava na loja, causada pela lerdeza do sistema: “Depois você completa seu cadastro pela internet”, solicitou a vendedora à época.
Um outro mundo
Após conseguir, finalmente, o ingresso, procurei saber onde seria a entrada. Desta vez, o mesmo orientador de público que havia me indicado a bilheteria errada acertou e apontou a administração como a entrada correta. Trata-se de um outro mundo. Você entra no estádio mesmo, passa pelo escritório das categorias de base do clube e pelo estacionamento e entra numa sala de espera com ar condicionado, cinzeiro e sofás confortáveis para aguardar o início do jogo, enquanto admira quadros com as equipes mais vitoriosas do São Paulo (se bem que as placas com os anos estão com algumas informações equivocadas e merecem mais atenção dos organizadores). Há para os que chegam com antecedência alguns poucos exemplares do Jornal do Jogo, uma revista breve e simpática que relata tudo sobre a partida em questão, com dados do adversário, tabela do campeonato, entrevista e dados históricos interessantes.
Ao subir a rampa de acesso ao setor das numeradas azuis intermediárias, revestidas de cadeiras novas para dar esse toque Premium, dá até prazer de gastar 25 reais: pessoas civilizadas não têm jeito de que vão lhe roubar ou lhe bater a qualquer momento, seu lugar está limpo, somente aguardando apenas sua presença. Crianças em profusão correm de um lado para o outro num lugar apropriado às famílias. O banheiro, não dá nem para comparar: o branco prevalece em um ambiente asséptico e de água limpa, as privadas estão cuidadas e ninguém precisa matar a sede na torneira, pois há um bebedouro próximo. Tudo isso não deveria ser anormal em um estádio de futebol, assim como não é num cinema ou num teatro. Porque as pessoas são tratadas como animais em estádio de futebol? (Lembro-me muito bem do estado precário dos banheiros no setor das arquibancadas durante os jogos da Libertadores). Só porque o trabalhador paga 10, 15 reais numa arquibancada ele tem tratamento inferior ao outro que paga 50? Obviamente, algumas regalias este último deve ter, mas não banheiro limpo, afinal de contas, isso é um direito mínimo que consta no Estatuto do Torcedor.
Chega a ser revoltante pensar que só porque o cara paga menos ele não vai querer conforto e cuidado especial. Se ele deseja conforto e segurança até na casa dele, porque quando sai desse ambiente ele vai virar “bicho”? Ir num campo de futebol hoje é arriscado da saída de casa até a volta. Depois não venham reclamar que os estádios estão vazios e culpar a fórmula do campeonato por causa disso. Desafio o São Paulo Futebol Clube a dar esse “conforto” oferecido aos torcedores do setor Premium aos da arquibancada - que não são inferiores a ninguém, apesar da torcida uniformizada Independente (cujo nome já diz seu propósito) querer fazer parecê-lo. E desafio os torcedores a serem um pouco mais educados e respeitarem, como se estivessem em suas casas, as outras pessoas e os equipamentos e serviços à disposição no estádio, para também se dar ao direito de exigir respeito aos administradores dos clubes brasileiros. |