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12 a 2 de janeiro de 2005
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CADERNO ZERO #22

É 2005: E DAÍ?
Todos os anos novos são recebidos com muita festa e comemoração. Por quê?
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

2005 chegou. Fogos de artifício, comemoração, confraternização, comida e bebida em profusão é o que costumamos ver desde crianças por todas as cidades. À espera da meia-noite, todos arrumam desculpa para farrear e esquecer um pouco de seu cotidiano sofrido, de seu trabalho chato e estressante, de sua vida inerte e nada emocionante. Na primeira segunda-feira e dia útil do ano, dois dias após a mudança no calendário, mas ainda com as pessoas um tanto atordoadas (ou de ressaca), fui cortar o cabelo e lá ouvi uma frase emblemática. Enquanto o cabeleireiro fazia o serviço na minha ex-vasta cabeleira, um dos homens que esperava a sua vez disse, sem nenhuma restrição: “Devia ser ano novo sempre só pra gente poder comer pernil, picanha e tomar cachaça. Tô até pensando em ir na minha mãe almoçar o que sobrou da festa”.

O mais engraçado é notar que esse é um pensamento comum. A cada um que você conversa, seja em casa, na rua, com os amigos, colegas de trabalho, enfim, com qualquer cidadão, você ouve a mesma preocupação antes do Natal e do Ano Novo: como farei para garantir que em ambos os feriados eu irei “curtir”? Uma viagem à praia, a um sítio, me enfiar na casa de alguém ou me convidar a alguma festa, ir para a avenida Paulista? São várias as perguntas que passam pela mente dos jovens, principalmente, que possuem aquela aversão, em sua maioria, em passar tais datas na companhia da família. Confesso que esta foi também a minha preocupação, tanto que, para fugir do tédio familiar, aluguei alguns filmes para passar o tempo na noite de Natal, enquanto meus pais dormiam em meio àquele barulho característico dos fogos. Já na “festa da virada”, consegui algo para fazer, com a acolhida de uma amiga à sua casa, com sua hospitaleira família e um outro amigo meu que é namorado dela.

Lá, inclusive, tive a certeza da perenidade de uma comemoração como a virada para o novo ano. A tarde e a noite transcorreram tranqüilas, com filmes, jogos de cartas, cervejas, cigarros, conversas, enfim, nada demais, a não ser a espera pela meia-noite (confesso que só me dei conta que se aproximava quando eram já 23h30). Quando o pessoal da casa se inflamou com a proximidade do horário e a expectativa para ver os fogos de artifício, passamos a olhar o relógio mais vezes, sem saber, porém, qual estava certo. Percebemos que o barulho aumentava e, pela televisão, a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a avenida Paulista, em São Paulo, já comemoravam o 2005. Daí resolvemos nos abraçar, naquele gesto meio esquisito no qual eu mesmo nunca sei como me portar, ainda mais quando lido com estranhos, como era o caso da maioria das pessoas naquela noite. Tá, eram parentes de minha amiga, mas não eram pessoas com quem eu tivesse um contato próximo e freqüente, então, fica sempre aquela coisa estranha. Além do mais, comemorar o quê? Desejar o quê? Que eu tenha um 2005 cheio de sucesso, felicidade, amor, paz, saúde? Não parece isso a vocês um tanto clichê?

Me deram a champagne para abrir e aí todos se animaram, mesmo com meu desastre de desperdiçar metade do líquido na escada da casa. Bom, somente após o brinde a ceia foi servida – cada família com seu costume, em casa também era assim, até eu começar a mudar as regras de tanta fome e exigir que a comida fosse servida à noite, afinal, tua mãe preparando aquelas delícias o dia todo e você só a ver, crueldade total – e comemos com muito prazer e festa. Todos se empoleiraram no sofá para ver os fogos distantes, ou próximos, que pipocavam pelo céu negro de São Paulo, que ficava mais claro e colorido àquele momento.

Interessante foi ouvir de meu amigo a sua indiferença em relação à comemoração. Ele falou não saber a razão de celebrar o ano novo se logo vinha a segunda-feira para todos reclamarem do retorno à rotina. Assenti com a cabeça e passei a refletir sobre aquilo, em meio aos fogos, a festança na televisão e ao deserto das ruas próximas onde estávamos. É um indício do vazio imenso a que as pessoas chegaram, pois você festeja apenas a alteração da “folhinha” e a falsa esperança de que tudo vai melhorar na vida, de que “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender” todos teremos neste novo ano. Enfim, tudo que não obtivemos nos 365 dias passados conseguiremos, ou devemos alcançar, agora. Eu fico a me perguntar onde raios foi inventado isso e por qual razão. Pode ser rabugice minha, mas não entra na cabeça desse colunista o motivo dessa pseudo-alegria, a não ser a desculpa esfarrapada do cliente do cabeleireiro.