| CADERNO ZERO #23
IMPRENSA FETICHISTA
Burguesia tenta camuflar seu discurso em matérias “jornalísticas” para desqualificar a verdadeira esquerda brasileira
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
ma coisa que tem se mostrado clara na imprensa burguesa brasileira desde que o Partido dos Trabalhadores (PT) entrou no governo federal é o fetichismo dessas empresas vendedoras de notícias em relacionar os quadros do partido que atuam no governo à esquerda socialista, ao lembrar o passado desses dirigentes como representantes de movimentos sindicalistas trotskistas, stalinistas, rebeldes, revolucionários...
A revista Isto É da última semana coloca em destaque na sua capa, com o dizer “exclusivo”, um ex-policial, treinado pela CIA (agência de inteligência estadunidense) que prendeu o atual ministro da Casa Civil, José Dirceu, em 1961, após congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Não seria mais grave o fato de haver a facilitação da CIA no país, numa clara aceitação da intervenção dos Estados Unidos na ditadura militar entre os períodos de 1964-1985? A revista Veja em sua última edição questiona se o país ficou mais “burro” com a chegada do PT ao Planalto e coloca a seguinte chamada na capa: “O obscurantismo oficial condena o inglês, quer tirar a liberdade das universidades e quer mandar na cultura”.
Essa semana que passou, vi uma matéria no jornal O Estado de S. Paulo com uma lista de vários dirigentes petistas, ligando-os com seu passado sindicalista e questionando a indicação destes para cargos importantes e estratégicos do governo Lula. Outra matéria deste mesmo impresso, do dia 18 de janeiro, dá conta da indicação de Paulo Okamotto, amigo próximo de Lula, ex-metalúrgico e fundador do PT, para presidir o Sebrae. O texto está no caderno “Nacional” e possui o título “Lula começa reforma pelas bandas e partidariza agências reguladoras”, referindo-se ao início da reforma dos Ministérios e das agências que controlam alguns serviços. A reportagem diz que o governo coloca pessoas de seu partido para “tomar conta” do montante da “grana”.
Em dezembro passado saiu no mesmo O Estado uma entrevista com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, em que Celso Ming, articulista do jornal, perguntava se o aprendizado trotskista acrescentara algo para Palocci no seu ministério. Embaixo da entrevista havia uma pequena listagem com nomes de alguns dirigentes-chaves do governo e sua relação histórica com as escolas trotskista e stalinista.
O que me pergunto é a razão para tanto fetiche em ligar o PT atual com sua base de formação histórica que ficou perdida lá no início de 1980, isto é, não existe mais. Por exemplo, afirmar que o presidente Nacional do partido, José Genoino, combateu na guerrilha do Araguaia (região do atual Tocantins) virou lugar comum, qualquer pessoa cita com aquele ar blasé de conhecimento do assunto. Mas por acaso, o fato dele ter sido guerrilheiro indica que hoje ele é comunista? Muito pelo contrário, até porque já ouvi da boca desse cidadão dizendo ser um “democrata”. Ocorre que ele reciclou sua forma de pensar, assim como muitos dirigentes que estão na liderança do partido hoje, possuíam alguma tendência mais a direita e acabaram por consolidar esse caminho ao longo dos anos. Essa transformação na concepção de como governar um país e conduzir um partido ficam evidentes no cerceamento da democracia interna do PT e na reza à cartilha da administração do capitalismo, na sua face atual conhecida como neoliberalismo, reforçando as desigualdades abertas no governo anterior, tão criticado pelo PT naquela época.
Que a imprensa está contra o governo Lula é óbvio e com toda a razão, em relação aos erros na administração do país. Mas essa crítica é feita com base no ideário burguês e não no respeito aos anseios da população, posição dispensada também pelo partido. Isso demonstra o aspecto puramente ideológico da classe média, representada pelos meios de comunicação de massa, em bater duro porque do outro lado há um governo caracterizado de esquerda, embora não o seja na realidade. Se Fernando Henrique Cardoso estivesse na presidência da nação, a crítica seria mais branda, ou talvez nem existisse.
Só para compreender um pouco melhor o ponto de vista, ao tomar posse da prefeitura de São Paulo, porque José Serra não foi bombardeado com matérias a respeito de sua presidência na UNE e a posterior decadência da entidade? Há um fato bastante atual e que demonstra o posicionamento de Serra e a falta de combate a isto. De acordo com a notícia “Serra traz subprefeitos de fora”, veiculada também no dia 18/01, no caderno “Metrópole” de O Estado , o novo prefeito da cidade escolheu para comandar a subprefeitura de Guaianases (zona leste da capital) Estevam Galvão Oliveira, 61, ex-deputado federal pela Arena, partido dos militares durante a ditadura e prefeito de Suzano em quatro oportunidades. Aliás, este foi escorraçado na última administração, encerrada em 2004, após muita luta local para mudar o prefeito. Tanto que numa conversa informal uma pessoa próxima dessas ligações políticas da região comentou: “Ele [Estevam] vai estragar tudo o que foi feito de bom em Guaianases”.
Sem falar na indicação de um ex-assessor do ex-presidente FHC e de um ex-embaixador para administrar outras subprefeituras ou mesmo no fato de que dez subprefeitos interinos são engenheiros que trabalharam nos oito anos da administração Paulo Maluf-Celso Pitta, de tão triste memória para os paulistanos. Porque não há uma matéria em destaque para esse fato? Porque a vinculação de Serra a dirigentes de tal extirpe?
Por isso mesmo vejo a crítica da imprensa com o objetivo de destruir o “inimigo”, que no caso da burguesia é o PT. Então, a ligação com o passado de esquerda e a tentativa de desqualificar o partido por conta de sua história é, na verdade, a investida da classe média para desqualificar o discurso e a atuação da esquerda propriamente dita no Brasil, que não se vê representada pelo PT. Esse aspecto de tentativa em diminuir a esquerda é um tanto óbvio, pois a burguesia quer permanecer com os seus no poder para satisfazer seus anseios e vê Lula como uma ameaça a isso, quando não deveria, pois o governo não pretende retirar tudo deles. Mas, afinal de contas, qualquer tentativa de tirar o mínimo da elite brasileira é motivo de rebelião nas salas refrigeradas e aconchegantes de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Porto Alegre...
Portanto, é bom ficar claro esse posicionamento da classe média quanto aos ataques em boa parte da imprensa, pois muitos tentam camuflar isso atrás de reportagens e matérias ditas jornalísticas, tentando eliminar algo tão límpido e claro que é a permanência da existência da divisão de classe e da conseqüente luta travada ainda nos dias de hoje.
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