| CADERNO ZERO #24
NADA DE NOVO NA TERRA DA AMBEV
Times paulistas se apresentam mais uma vez melhores na temporada 2005
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
futebol brasileiro de 2005 começa sem maiores surpresas. Pelo menos quanto ao péssimo desempenho dos times grandes cariocas frente aos clubes do interior e a (mais uma) boa performance dos paulistas que fazem um campeonato estadual bastante equilibrado, em que o interior tem participação considerada. Já a dupla mineira mantém sua supremacia em Minas Gerais, com o Cruzeiro a levar vantagem e no Rio Grande do Sul, a confirmação do fiasco gremista e a surpreendente inoperância do Internacional. Já dá para imaginar que o torneio nacional deverá ter amplo domínio das equipes de São Paulo, como já vem ocorrendo nos últimos três anos. Tudo isso para mostrar a mesmice que os torneios regionais levam a todos, apesar da emoção que alguns aparentam. Enquanto isso, a Ambev ganha um milhão de dólares com o amistoso do Brasil contra Hong Kong e assim caminha o futebol brasileiro.
Dos times paulistas, São Paulo e Santos mais uma vez despontam nos certames deste ano. O primeiro perdeu poucos titulares e contratou jogadores em posições importantes, como os volantes Josué e Mineiro, que gastam a bola no meio campo são-paulino. Luizão passa por recondicionamento físico e Falcão por adaptação ao gramado. Mas a falha grave do São Paulo é a falta de um meia armador, pois Danilo não tem qualidade para assumir tal função. Já o Santos vive o início do fim de sua superioridade, pelo menos é o que se especula, com a tão falada ida de Robinho para o Real Madrid no meio do ano. Enquanto a ressaca não chega, o “Rei do Drible” leva o Santos ao favoritismo na Taça Libertadores, com a base de 2004 mantida nas suas posições-chave, engrossada pelo voluntarioso Fábio Baiano e pelo ainda lento Tcheco, apesar da saída recente de Elano.
Já o Corinthians, depois da lavada tomada na Vila Belmiro pelo Santos de Robinho no último dia 13/02, é uma incógnita. Dependente da única estrela Tevez, no meio da constelação de ruindade e incompetência, o Timão se ressente de outro meia armador, de um centroavante e de um bom lateral-esquerdo, sem contar a necessidade de um técnico que ouse mais, coisa que foge à característica do técnico Tite. Por outro lado, o arqui-rival Palmeiras parecia deslanchar em 2005, após contratações interessantes como Marcel, Christian, Warley, Bruno. Contudo, sente falta demais de um centroavante oportunista, que coloque a bola na rede quando a partida está complicada. Ao mesmo tempo, crise interna, briga com jogadores e imagem desgastada, fazem do técnico Estevam Soares presa fácil para sua demissão nas próximas rodadas.
A Portuguesa não se acerta e se vê mais uma vez no fundo do poço, sem escada ou corda para se reerguer. Já faz três anos que a agremiação se encontra na segunda divisão e a volta aos bons tempos da Lusa do Canindé parecem não retornar nunca mais. Ao passo que, o São Caetano, sem a verba voluptuosa que recebia até 2004, passou a economizar nas contratações e nos salários, o que refletiu numa queda considerável na qualidade do plantel do ABC que, já sem torcida, vê sua grandeza iniciar o caminho buraco abaixo. O Zetti deve ter pensado bem onde foi “amarrar o burro”.
A luz no fim do túnel apagou...
No Rio de Janeiro a pataquada se estabeleceu. Somente o Botafogo na semifinal da Taça Guanabara (correspondente ao primeiro turno do campeonato local), sendo ainda eliminado pelo Americano de Campos. O que mais preocupa é a pompa e circunstância dos dirigentes cariocas, que, ao invés de servir-se de humildade e muito trabalho para recuperar seus clubes, vivem do passado e de nomes que não mostram mais nada ao futebol – como Caio, Ramón, Felipe, Romário, Edmundo, Guilherme, Zinho – e crêem superar os obstáculos somente com sua camisa e história. Faz anos que isso não acontece mais e a cada Brasileirão os torcedores cariocas sofrem com o rebaixamento e vivem plena angústia.
O Fluminense contratou Tuta (ex-Coritiba), Felipe (ex-Flamengo), Gabriel (ex-São Paulo), mas o treinador Abel Braga não consegue fazer sua equipe jogar e passa vexame atrás de vexame no estadual. O Flamengo contratou jogadores medianos (Fabiano, ex-Atlético Paranaense, Adrianinho, ex-Ponte Preta e Marcos Denner, ex-Criciúma) e mantém uma base fraca, sem renovação qualificada e organização em seu departamento de futebol. Vem agora o técnico Cuca para “arrumar a casa”, mas a diretoria corneta que vive há tempos do futebol promete atrapalhar mais uma vez a vida na Gávea.
O Vasco da Gama aposta na juventude, mesclada com a experiência de Romário e Allann Delon, para deslanchar este ano, mas, não começou bem sua trajetória. Com Joel Santana no comando dos atletas, a coisa promete ficar ainda pior. O Botafogo personifica os erros cometidos nos últimos anos pelas equipes do Rio: contratação de jogador em fim de carreira ou de qualidade duvidosa que “morreu” anos atrás. O que pode salvar o time é o artilheiro Alex Alves com seus gols e sua aplicação. Mas não é previsto um futuro promissor para a “estrela solitária”.
Quase tudo normal
Em Minas Gerais, o Cruzeiro vive com o excesso de volantes e a escassez de meias de criação. Enquanto na defesa da zaga existem nomes como Marco Aurélio (ex-São Caetano, que pode também atuar na defesa) Maldonado, Marabá, Fábio Santos e Jardel, na ligação para o ataque há apenas o Sandro e o Wagner, sem qualidade à altura da raposa. Apesar do retorno de Ruy à lateral-direita e das contratações do útil Athirson e do duvidoso atacante Jean junto ao Flamengo, sem contar no lateral Patrick, ex-Guarani, falta criatividade ao time para armar as jogadas à revelação do time, o goleador Fred que já tem propostas para deixar o Brasil. Espero que fique mais um tempo, afinal, os craques também são nossos, não do dinheiro europeu, agora russo, ucraniano...
O Atlético Mineiro teve o retorno do Euller e conta com a volta da seleção brasileira sub-20, do atacante Quirino, sem falar no atacante paraguaio Pablo Gimenez, ex-Guarani de Assunção (Paraguai) e no meia argentino Lívio Prieto, ex-Belgrano. A falta de nomes mais consagrados pode fazer com que o futebol do Rodrigo Fabbri possa aparecer melhor, apesar da insegurança do técnico Procópio Cardoso.
No Rio Grande do Sul a imensa decepção fica por conta do Internacional. Contando com o retorno do técnico Muricy Ramalho que havia dado certo por aquelas bandas em pasagens, além de contratações interessantes como o meia Jorge Wagner (ex-Corinthians), os volantes Tinga (ex-Grêmio) e Augusto Recife (ex-Cruzeiro), o time não venceu ainda no Gauchão e começa a temer pela vida de seu treinador. Os destaques da seleção sub-20 Rafael Sóbis e Diego voltam e terão trabalho para revigorar uma equipe perdida pela seqüência de inesperadas derrotas.
Já o Grêmio começa a se recuperar no estadual. Porém, possui um elenco fraco e sem perspectiva de ascender à primeira divisão nacional para 2006. Com Mário Sérgio na direção de esportes do clube e do uruguaio Hugo de Leon para comandar o time dentro das quatro linhas, a coisa não tem funcionado como o desejado, mais pela ineficiência de seus jogadores do que pelo trabalho da dupla. A única contratação até o momento louvável é do atacante Somália, que teve ótima passagem no São Caetano. De resto, a garotada e as aquisições baratas precisarão de reforços para lutar esse ano.
Será que vai dar samba?
O ano de 2005 não demonstra nada muito de espetacular na terra da Ambev, Nike e Seleção Brasileira a preço de banana. A Taça Libertadores pode ficar aqui na terra do samba e do Kia Joorabchian, mas isso vai depender mais dos adversários que dos clubes tupiniquins, pois a cada ano que passa eles “amarelam” mais e mais para os “hermanos” sul-americanos. Enquanto os paulistas, em conjunto do Atlético Paranaense, brigam pela hegemonia na América do Sul, os demais estados assistem de camarote, isto é, na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, a partir de abril, a luta para ver quem será o melhor deste ano, ao mesmo tempo que batalham contra sua inoperância e fragilidade de organização. É uma pena dizer isso, mas o futebol cada vez mais elimina as praças esportivas de tradição, casos de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte. Que o Rio de Janeiro tome cuidado. Pode ser o próximo.
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