| CADERNO ZERO #25
SURPRESA É MARCA REGISTRADA
É preciso esquecer o passado de sucesso para aceitar os trabalhos de Billy Corgan pós-Smashing Pumpkins
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
s grandes astros do mundo da música costumam pregar peça na gente. A cada dia que passa, suas obrigações contratuais, loucuras, ou mesmo o passar do tempo e o vazio criativo que muitos sofrem (ou que são impostos) abreviam carreiras e confundem fãs de todo o mundo. Vou citar um exemplo de um cara de que sou muito fã e tenho uma pequena base para comentar: Billy Corgan, ex-vocalista e guitarrista da banda The Smashing Pumpkins e do Zwan. Corgan não passa por obrigações contratuais ou mesmo por vazio criativo, mas o tempo joga implacavelmente situações que ele jamais esperaria viver quando estava na cultuada banda das “Abóboras”: a eterna espera angustiante para emplacar um disco e conseguir voltar às paradas de sucesso e ao mundo da música de forma efetiva.
Desde o encerramento das atividades do Smashing Pumpkins em 2000, após diversas versões decepcionantes sobre o fim que só deixaram os milhares de fãs frustrados cada vez que esse assunto vinha à tona (a última foi no blog do Corgan, no ano passado, quando ele culpou o outro ex-guitarrista da banda, James Iha, mas depois de muitas críticas voltou atrás e contemporizou), o autor de pérolas como “Bury Me”, “Disarm”, “1979”, “Zero” e “Stand Inside Your Love” ainda busca sua reafirmar seus pés em solo musical.
O jogo dos sete erros
A primeira tentativa veio com a banda Zwan, em 2002, que contava com as participações de Jimmy Chamberlin, ex-batera dos Pumpkins, David Pajo, Matt Swenney, e Paz Lechantin, ex-A Perfect Circle. A aventura não durou mais que dois anos e um disco, o aguardado e frustrante para os fãs “Mary Star of the Sea”, repleto de músicas felizes e virtuosismos, mas sem a pegada roqueira que levou Corgan ao estrelato. Claro, a banda não podia ser cópia dos Pumpkins e nem deveria, mas alguma coisa faltava ali, mesmo com toda a parafernália de três guitarras no talo e com todo aquele arranjo complicado e bem tocado. O projeto não rolou por divergências internas, até hoje não esclarecidas, como em toda e qualquer boa banda de rock. Boatos correram na época que Corgan não agüentou o estilo “devasso” de Pajo e da “inércia” e “descompromisso” dos outros integrantes, principalmente de Paz, e com exceção de Chamberlin, seu fiel escudeiro.
Desiludido novamente, o “mr. Ego Man” – como é intitulado por alguns irônicos e sarcásticos antifãs do músico, por conta de seu temperamento forte e de difícil convivência, principalmente no estúdio – buscou a reclusão por algum tempo, chateando ainda mais seus admiradores, como pude notar de perto, pelo menos quanto a muitos apreciadores dos Smashing Pumpkins aqui no Brasil. Mas, como tudo na vida passa, o tempo esvaiu por uma ampulheta e eis que Billy Corgan começou a por as asas de fora. Fez apresentações em sua cidade natal, Chicago, escreveu um livro de poesias (lançado recentemente com o nome de Blinking With Fists) , realizou shows divulgando a obra e participou de trilhas sonoras de filmes B, preparando o terreno para o tão comentado disco solo, que, até fins de 2003, era mais especulação que verdade.
Chegou 2004 e os rumores se confirmaram: Billy Corgan estava nos estúdios gravando seu primeiro disco solo! As expectativas cresceram assustadoramente e a síndrome de órfão dos fãs foi minimizada pelo futuro lançamento do álbum. A mixagem terminou no segundo semestre e, meses depois, as participações no disco foram anunciadas. E, para a surpresa geral, Robert Smith, vocal do The Cure, colaborou numa cover inusitada: “To Love Somebody”, do Beegees. A outra participação, obviamente, foi de Jimmy Chamberlin, que tocou bateria na canção “DIA”, retribuindo a atuação do vocalista na música “Lokicat”, de primeiro trabalho solo de Chamberlin, Life Begins Again .
E, para ficar mais próximos de seus fãs, Corgan praticamente transformou seu site em um blog, com atualizações quase diárias comentando como anda sua vida, os shows, os ensaios, o livro e o novo disco. Lá, também, escreveu uma espécie de autobiografia, em que conta sua vida desde os tempos de criança abandonada pela mãe e mal quista pelo pai, passando pelos momentos da primeira banda, The Marked, e os sucessos e derrotas do The Smashing Pumpkins. Com todas essas novidades para os fãs saiu o nome do disco, The Future Embrace , além da listagem das músicas do CD.
Nova frustração?
A expectativa aumentou a tal ponto que, numa tarde, olhando emails em meu computador, vejo uma mensagem com o assunto “Vazou música nova do Billy Corgan, ‘A100'”. Depois de um dia de agonia e espera, pois meu computador pessoal está em ruínas e não consegue fazer sequer um download, peguei a canção no trabalho e liguei o som. Foi um instante de susto e frustração, mas a resignação costumeira veio a seguir, para quem já se decepcionou com o Zwan e agora não reclama mais do que vier de seu músico predileto. Tudo isso porque a música começa numa batida “tutz, tutz” à lá pistas de dança, mas num tom muito devagar, quase lisérgico. Não há bateria, não há guitarra, não há baixo. O que existem são programações em cima de programações, com um teclado de fundo, ressaltando a característica sombria da música.
O mais engraçado é que eu acabei gostando momentos depois, por lembrar do quinto trabalho do Smashing Pumpkins, Adore (1998), feito sem Chamberlin, em que a programação e os sintetizadores predominaram, num clima soturno e obscuro. E a música é tudo e tão somente isso: batida eletrônica, letra falando de amor, além da voz caracteristicamente lenta e apaixonada de Corgan, com um quê de sarcasmo ao fundo, apenas. Alguns amigos/fãs criticaram num primeiro momento, pois esperavam algo mais rock, com instrumentos tradicionais, e se apegaram a uma declaração de Corgan de que “A 100” destoa muito do CD e quase ficou de fora. Eu sei lá, o produtor é o mesmo do Adore , Flood, o velho amigo de Billy Corgan, e acho pouco provável que a música fuja tanto do contexto quanto se especula. Não há previsão de músicos no placo durante a turnê, muito menos divulgação de quem fez parte da banda de apoio nos estúdios.
O que estimula essa certa chateação dos fãs é a saudade daquela banda que estremeceu o mundo com acordes ferozes como em “Zero” e atacou corações como em “Ava Adore”. A nostalgia deposita toda a cobrança do mundo sobre Corgan e seu trabalho, seja onde for, afinal, foi ele quem comandou a construção, com amor e dedicação, de toda aquela história. Eu já perdi minhas esperanças na época do Zwan, que tinha uma boa base acompanhando e ali eu achava que a coisa seria promissora. Como não durou além de um disco de estréia, o jeito é esperar vir coisa boa por aí, ou então desencanar, para daí, quem sabe, ser surpreendido positivamente. Outros preferem achar maravilhoso tudo que Corgan faz. Nem tanto ao céu também, penso eu. Quanto ao álbum, ele tem lançamento marcado, mas não confirmado, para 21 de junho.
E a cada lançamento nossos “ídolos” nos pregarão peças, pois o que nós fãs esperamos é aquilo ou algo próximo daquilo que nunca mais vamos viver: os grandes momentos que fizeram nos apaixonar pela música, pelo som, pelas letras, pelo instrumental, pela pessoa do Billy Corgan (ou outro músico de sua preferência). O passado serve para recordar e nos fazer sentir melhor por termos vivido aquilo. Quanto ao futuro sonoro, esse resolve deixarmos acontecer e saborear o que vier pela frente. Até o momento, eu gostei da nova cara musical do ex-líder dos “abóboras”.
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