| CADERNO ZERO #26
UM DILEMA CARACTERÍSTICO DO ROCK ATUAL
Mezmerize , novo CD do System of a Down, mostra momento ambíguo da banda
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
ia desses tive a oportunidade de ouvir o novo álbum do System of a Down, Mezmerize . Após quatro longos anos sem um CD de inéditas, a banda teve problemas com a seleção do material, já que a produção foi intensa, quase alcançando o total de 30 canções gravadas. A solução encontrada foi dividir o disco em dois, lançando a segunda parte num futuro próximo, ainda não definido.
Para a primeira parte ficaram apenas 11 músicas, levadas pelo carro-chefe “B.Y.O.B.”, música de trabalho que ergueu o álbum ao primeiro lugar na parada Billboard, como (mais uma vez) a sensação do rock. E “B.Y.O.B.” define bem o que o som do System of a Down é hoje: de um hibridismo sem fronteiras, radicalizado ao extremo nesta obra que mistura cavalgadas metaleiras (vide “Revenga”) com refrões pop e vocais amaciados (ouça “Radio Video” ou mesmo preste atenção no refrão da própria “B.Y.O.B.”).
“Mala” Kian
O que mais irrita durante a audição das 11 faixas é essa mania de suavizar os vocais, trazendo o guitarrista Daron Malakian para rivalizar as vozes com Serj Tankian em boa parte do álbum. Chega-se ao cúmulo de Malakian dominar as bases vocais de algumas canções, quando deveria ser a missão de Tankian. O talento deste último é inegável, com seus graves e agudos variados de forma constante numa mesma música. Daí fica a pergunta: qual a necessidade do guitarrista colocar sua voz aguda, insossa e esganiçada, ofuscando a performance de Tankian? Tem coisas que não dá para entender mesmo.
O espaço que Malakian tem ocupado nos vocais do System of a Down é perceptível a cada novo CD. Isso me faz elaborar uma segunda pergunta, agora, meramente especulativa: será que os dias de Tankian na banda estão contados? O mundo do rock é pródigo em casos de conflitos entre integrantes, principalmente quando um começa a se intrometer na função do outro. O que posso dizer disso é que a perda seria irreparável, pois Tankian detém o balanço nas canções do quarteto de descendentes da Armênia.
Metal
Apesar disso, é incontestável e até dispensável elogiar o poderio instrumental da banda, que a cada dia mostra uma variação intensa de seu repertório. A lamentar em Mezmerize , somente a diminuição em alguns pontos da bateria de John Dolmayan, servindo mais para marcação do tempo nas músicas, além dos barulhos chatos no chimbal à la Bee Gees nos tempos da discoteca. Ainda assim, as referências ao heavy metal são presentes, fazendo você pensar que escuta uma banda antiga do gênero.
Talvez por isso o álbum tenha seus pontos altos, como a tradicional pauleira de “Cigaro”, “Violent Pornography”, “Sad Statue”, além da “Old School Hollywood”, que lembra Marilyn Manson e o som industrial feito na década de 90. Sem contar a crítica ao governo de George W. Bush que continua agressiva e mostra a fina ironia de uma banda que busca se adequar ao mercado – dilema, aliás, que perseguem todas as outras, cada vez mais servis ao que o patrão (a gravadora) manda – sem perder o ideal político.
Enfim, Mezmerize é muito bom e chega a empolgar em alguns momentos, porém, em outros, como na última faixa, “Lost in Hollywood”, provoca desespero, apesar da letra interessante. No final das contas, o álbum anima mais que enfurece, o que demonstra toda a ambigüidade e uma ponta de decepção quanto a este resultado. |