| CADERNO ZERO #27
BRASIL REVIVE GLÓRIAS
Qualidade da seleção brasileira retoma futebol-arte vivido em passado distante
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
futebol apresentado pela seleção brasileira nos últimos confrontos pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006 e mesmo em alguns amistosos a credencia como a maior favorita para o evento mundial.
"Dream team", "Melhores do mundo" e outros títulos sensacionalistas percorreram as manchetes e noticiários brasileiros nas últimas semanas, por conta do massacre impetrado pela trupe canarinho em cima da pobre coitada seleção do Paraguai, no último dia 5 de junho. Nesse dia, a magia de Ronaldinho, a ginga e a molecagem de Robinho, a leveza de Kaká e até a surpresa Zé Roberto determinaram o escore dilatado de 4 a 1, lembrando tempos futebolísticos em que o placar tinha esse outro nome.
Até os próprios argentinos – nossos maiores rivais, não só na política e no comércio exterior, mas também no futebol – resolveram reverenciar a esquadra brasileira, admitindo que nosso futebol está melhor que todos os outros. "Por que não outra goleada?", estampava a manchete do diário esportivo da Argentina Olé . Alguns jogadores, como o atacante Hernán Crespo, admitiram a superioridade e a qualidade do futebol brasileiro.
Já o treinador da seleção portenha, José Pekerman, procurou minimizar a repercussão da lavada sobre os paraguaios. "O Brasil é o campeão do mundo e merece respeito. Mas nós também temos chances de ganhar. Este é um jogo atípico e não podemos fazer prognósticos", disse à GazetaPress .
Claro que o Brasil também pode aprender, como a Argentina nos ensinou na goleada azul e branco de 3 a 1 imposta em cima da seleção canarinho no último dia 8. Foi resultado da falta de atenção dos jogadores brasileiros no início daquela partida, movida também pelo corpo mole condicionado nas declarações de Parreira, ao definir o jogo Brasil versus Argentina como "um amistoso de luxo", quando todos sabem que nunca isso será possível, dada a rivalidade extrema entre as equipes, reforçada pelo 3x1 ocorrido no turno de ida das Eliminatórias, em Belo Horizonte.
Caminho vitorioso
Apesar do tropeço, o que fica de todo esse contexto festivo pintado (e muitas vezes enganoso) nos últimos dias é a qualidade interminável do futebol brasileiro em renovar seu celeiro de craques. Tirante a Copa do Mundo de 1990, na Itália – o Brasil foi desclassificado nas oitavas-de-final pela Argentina, comandada por Maradona e Caniggia –, em que os grandes craques não eram tão grandes assim (Branco, Valdo, Dunga são alguns exemplos), as gerações posteriores retomaram aos poucos o caminho do futebol arte, ofensivo, de dribles e gols, respeitando a tradição de tantos craques.
É só lembrar fins da década de 50 e todo o período de 60, em que Pelé e Garrincha foram os paladinos de uma geração grandiosa, relembrada com saudosismo até hoje. Mesmo os anos 70, uma época magra de títulos da seleção, foram repletos de jogadores talentosos, como Gérson, Rivellino, Reinaldo (um craque do gol), Falcão. Este último ainda pegou a década de 80, sempre reverenciada, apesar de não ter obtido nenhum campeonato mundial, mas que contou com outros craques como Zico, Sócrates, Júnior.
A retomada
O reinício das jornadas vitoriosas do Brasil se deu em 1994, na Copa do Mundo dos Estados Unidos. A seleção foi comandada pelo próprio Carlos Alberto Parreira – atual técnico – que, mesmo com um esquema retrancado, privilegiando a marcação e a posse de bola sem objetivo claro, alcançou o sucesso graças ao talento e astúcia de Romário, que, com sua atuação no ataque contribui decisivamente para que o esquema defensivo daquele time desse certo.
Já em 1998, na França, o Brasil perdeu, mas alcançou a final com craques que viriam a brilhar depois, como Rivaldo e Ronaldo. Este último foi tão decisivo, que, talvez graças à sua atuação apagada na finalíssima (devido à convulsão que o jogador teve horas antes da partida), a França tenha conseguido passar facilmente por cima da seleção canarinho. Mas o futuro reservaria a conquista de uma verdadeira glória na carreira de Ronaldo.
Na Copa do Mundo do Japão e da Coréia do Sul, em 2002, o craque teve atuação marcante: após dois anos se recuperando de mais uma contusão em seu joelho, foi um dos destaques da copa, anotando oito gols na competição e levando o time comandado por Luiz Felipe Scolari, o gaúcho "Felipão", ao título máximo. Outro feito: foi escolhido o melhor jogador de futebol do mundo em 2002, pela terceira vez (as outras foram em 1996 e 1997). Mas não podemos esquecer a participação de outros atletas na competição, como a do meio-campista Rivaldo, o jovem Ronaldinho, o "gaúcho", e os já experientes laterais Roberto Carlos e Cafu.
Futuro glorioso?
Agora, um ano antes de mais uma copa, as opções ofensivas brasileiras pululam de todos os lados do mundo, fazendo com que Parreira tenha de se curvar a escalar num mesmo time Ronaldinho, Robinho, Kaká e Adriano, liberando a equipe para o ataque, com preocupação apenas de jogar um futebol para frente, vitorioso, mas sem perder a beleza, a audácia, a firula, até mesmo em Buenos Aires, contra a Argentina.
Não é à toa que a critica se derrete pela seleção brasileira. O jornalista Mauro Beting, da Rádio Bandeirantes de São Paulo, chegou a comparar o potencial ofensivo do time atual com as seleções de 1982 e 1970, que ficaram muito famosas pelo seu futebol-arte, apesar da primeira não ter alcançado o título, objetivo que a segunda (que tinha Pelé e o time apontado por boa parte da crônica especializada como a melhor seleção de todos os tempos) concretizou com méritos.
O próximo teste da seleção é a Copa das Confederações que começa neste mês, no mesmo palco da copa do ano que vem, e pode ser uma prévia do que os adversários irão encontrar, ainda mais se levarmos em conta o fato de que esses jogadores terão um tempo maior de preparação e convívio, pegando entrosamento e adaptando-se aos desejos de Parreira.
Até o momento, essa equipe mostrou-se auto-suficiente, mesmo sem contar com Ronaldo (e isso fica para Parreira resolver, como disse o jornalista Juca Kfouri em sua coluna no Lancenet! , pois, para ele, Ronaldinho pareceu se movimentar mais à vontade em campo sem a presença do outro "R") e tantos outros que poderiam vestir a camisa de qualquer seleção do mundo, mas que no Brasil não tem espaço pelo excesso de qualidade.
Esse quadro revela duas coisas: se os jogadores tiverem espaço ou conseguirem esse buraco para jogar, ninguém segura; se o técnico soltar os atletas, fica mais fácil, e a atuação esplêndida de Zé Roberto, quando jogou sem muita responsabilidade defensiva contra o Paraguai, prova esse ponto de vista. Portanto, é esperar para ver se a esperança e a alegria do futebol ofensivo do Brasil irão superar o medo desta vez.
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