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24 de julho a 6 de agosto de 2005
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #28

VIOLÊNCIA MARCA FINAL
Despreparo da Polícia Militar e falta de civilidade de torcedores promovem batalha campal em São Paulo
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

clima da conquista da Libertadores pelo São Paulo, após golear o Atlético Paranaense por 4 a 0 no último dia 14, era para ter sido dos mais brilhantes, não fosse a falta de preparo (mais uma vez) da Polícia Militar, a ausência de organização (de novo) de um evento esportivo e a demência de torcedores (novamente) que provocaram o caos nas imediações do Morumbi e na avenida Paulista.

O desânimo toma conta cada vez que eu vou para um evento esportivo e me deparo com imagens como as que todo o Brasil pôde ver no dia seguinte à final da competição, que ficou em segundo plano, graças também ao espírito carniceiro da imprensa. Afinal, é muito mais rentável na audiência mostrar desgraça e, também, é muito mais fácil generalizar e criticar os torcedores vândalos e não checar o que motivou a violência na capital paulista. Os policiais não, esses sempre tomam as melhores medidas quando enfrentam grandes multidões. Ah, faça-me o favor.

Eu estive na Paulista após o jogo. Saí do Morumbi, tomei uma lotação abarrotada de torcedores em direção ao ponto que deveria ser de comemoração. Cheguei lá e esolvi transitar pela avenida e sentir o clima, festejar. Poxa, havia 12 anos que o São Paulo não ganhava nada tão expressivo e que fosse bacana a ponto de todos quererem ir para a Paulista, tradicional local de festas das torcidas paulistanas.

Enquanto eu caminhava vi um torcedor jogar uma pedra no vidro da agência da Caixa Econômica Federal, no Conjunto Nacional. Em seguida, o indivíduo tropeçou na corrente que divide os sentidos da avenida e caiu estatelado no chão, bem ao meu lado, enquanto o guarda do banco corria atrás dele e batia com o cassetete. Notei também que centenas de pessoas iam à direção contrária que eu, isto é, para longe do epicentro da festa, que ocorria (ou deveria ser) em frente ao prédio da Cásper Líbero, próximo à avenida Brigadeiro Luís Antônio. Resolvi parar alguém para saber o que sucedia, pois comecei a ficar desconfiado.

– Porque tá todo mundo voltando? – perguntei a dois jovens adultos com camisa tricolor.

– A polícia tá batendo em todo mundo, pois ela não quer que ninguém fique na avenida – respondeu um dos garotos. Detalhe: eram quase duas da madrugada, será que havia tantos carros assim para passar por lá que precisasse deixar a pista livre?

– Nós viemos de Chapecó, Santa Catarina e estamos envergonhados. Nunca vi uma polícia fazer isso como a daqui fez. Meu pai também é policial e ele teria vergonha se visse isso – disse revoltado o outro rapaz. E era isso mesmo, os dois tinham vindo do Sul só para ver a finalíssima e curtir a festa após o jogo.

Despedi-me dos dois, pois desisti de comemorar. Procurei um ônibus que não encontrei, mesmo após longa espera no ponto. Isso me fez descer a pé toda a rua da Consolação até o centro da cidade, para tomar um ônibus noturno que sai de hora em hora. Enquanto isso eu ouvia pelo rádio de pilha a confusão que acontecia na mesma Paulista de que eu fugi, amedrontado pelos barulhos de bomba e pelo início da correria.

Destruição

O estrago feito por vândalos e bandidos que depredaram e saquearam a avenida Paulista é reprovável e se torna até patético de comentar, pois o absurdo do ocorrido consegue ser pior do que o fato em si. Não dá para imaginar o ser humano ainda fazendo esse tipo de coisa. A falta de civilidade dos que lá estiveram é uma coisa atroz, retrógrada, que remonta a tempos longínquos e que pareciam não existir mais. Apesar disso, quase ninguém buscou a raiz do problema, que aconteceu também em protesto ao fato de não colocarem telão no local, nem deixar os torcedores comemorar na rua vazia, como se fizesse alguma diferença interditar a avenida Paulista durante a madrugada, afinal, é mais que tradição o local receber festa de times campeões em São Paulo.

As perguntas se multiplicam. Por que a polícia não interditou o local à noite para as pessoas irem para lá festejarem? Por que resolveram sair batendo em mundo para abrir caminho para os poucos carros que transitavam pela região? O que veio depois foi conseqüência da truculência e do despreparo de uma polícia que não sabe lidar com grande número de pessoas. E não me refiro apenas a torcidas de futebol; em passeatas, protestos, isto é, em qualquer manifestação popular, o cidadão é visto como “delinqüente, meliante” (apesar de na batalha da Paulista o termo se aplicava bem aos que destruíram o local), como diz a linguagem preconceituosa, pois para eles todo mundo é ladrão e safado, até que se prove o contrário. E parte da imprensa corrobora com esse discurso, botando no mesmo balaio de gatos vândalos e torcedores, trabalhadores e bandidos.

Isso porque, a polícia não é do povo, ela remete a um tempo que os brasileiros desejam esquecer, em que a violência, a tortura, o assassinato, o desaparecimento de pessoas, a repressão, eram as formas de governo vigentes nesse país e esse resquício de ditadura chamado polícia militar (minúsculo mesmo) insiste em perseguir a população a cada momento de sua vida, seja na felicidade de uma conquista de um campeonato de futebol, seja na reivindicação de direitos junto aos governantes.

Ela está sempre lá para controlar, e, como diz a música “Propaganda”, da Nação Zumbi, para jogar “gás de pimenta para temperar a ordem”, além das bombas de efeito (i)moral e gás lacrimogêneo que feriram mais de cem pessoas na porta do estádio do Morumbi. Enquanto isso, um agente repressor batia com o cassetete no olho de um torcedor que não demonstrava agressividade, como mostrou uma imagem da televisão. Pessoas caídas no chão por causa de bombas apanhando, sendo tiradas por outros torcedores do meio da confusão para não sofrerem mais.

Essa foi a outra briga, em que torcedores queriam entrar sem pagar no estádio e forçaram a entrada. A aglomeração ao redor do Morumbi se deu pela expectativa de virarem o telão do estádio para o lado de fora. Só que essa possibilidade já havia sido vetada pela polícia dois dias antes, de forma plenamente correta, para evitar a concentração de torcedores sem ingresso na porta do estádio. Mesmo assim, muitos foram com essa desculpa para o local e acabaram por participar da verdadeira guerra que aconteceu fora do estádio.

Neste caso os torcedores que estavam do lado de fora sem ingresso foram amplamente responsáveis pelo início da briga, que impediu alguns que estavam com ingresso de entrarem, além de despertar uma polícia treinada para bater e jogar bomba em todo mundo que ver pela frente e foi isto, mais uma vez, que se viu. Balas de borracha, bombas e cassetetes de um lado contra pedras e correria do outro.

E a tragédia declarada ocorreu sem que, no dia seguinte, nenhuma autoridade criticasse a conduta da polícia ou tomasse alguma providência para punir os baderneiros e fazer um planejamento que possa evitar isso no futuro. É assim, ninguém mais se importa com a violência, seja na favela ou na porta de um estádio de futebol. Essas coisas entraram tanto no cotidiano de nossa sociedade de tal modo que nem as autoridades mais aparecem nesses momentos para tomar alguma posição, nem mesmo para fazer discursos e angariar votos para as próximas eleições. As pessoas estão descrentes até mesmo no perigo da força da violência. O que é muito preocupante.