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30 de outubro a 12 de novembro de 2005
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #31

ALTO PREÇO PELO PODER
Projeto petista o transformou em um partido igual aos outros
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

crise política no governo do presidente Lula parece não haver fim. Quem poderia imaginar que um flagrante de pagamento de propina nos Correios faria tanto estrago no Legislativo, afetando profundamente a superestrutura do governo federal, em que deputados renunciam para fugir da cassação, enquanto outros pedem ajuda da Justiça para não serem julgados e cassados pela Câmara dos Deputados, sem falar nas denúncias que macularam a imagem pura que o PT vendia até então.

A compra de parlamentares através do chamado “mensalão”, bem como a organização de um esquema gigantesco de caixa dois para recolher fundos para a campanha eleitoral do PT, revelam o esgotamento absoluto do projeto de poder que saiu vitorioso dentro do partido desde sua fundação. O chamado hoje de Campo Majoritário, de caras conhecidíssimas como José Dirceu, Aloizio Mercadante, José Genoíno (que debandou para esse grupo após pertencer a tendências mais “radicais”), além do próprio Lula, desde seus primórdios buscou consolidar um projeto de governar o Brasil dentro das instituições capitalistas, sem provocar nenhuma espécie de ruptura no sistema.

Apesar disso, como nos primeiros anos após a fundação do PT a esquerda tinha presença massiva nas disputas internas, o programa do partido atendia as expectativas dessas correntes, contemplando pontos de cunho socialista, maior participação popular no governo, reforma agrária mais contundente, não-pagamento da dívida externa, etc. E foi com esse programa de governo que Lula disputou as eleições presidenciais de 1989. Após a derrota, uma luta intensa ocorreu no partido, com reflexões sobre qual caminho seguir e de que forma ele seria trilhado. O fracasso de 1989 consolidou a visão da antiga corrente da Articulação, que hoje contempla o Campo Majoritário, de abortar o discurso da ruptura do capitalismo e buscar a governança dentro do sistema democrático-burguês e tentar levar melhores condições de vida aos mais pobres.

Os conflitos internos se tornaram cada vez mais intensos e provocaram a saída da Convergência Socialista s e da Causa Operária, que formariam, em seguida, o PSTU e o PCO, respectivamente, com alguns acréscimos e recuos. A via da administração do capitalismo ganhava corpo dentro do PT, mesmo não sendo tratada clara e diretamente desta forma. Para garantir a vitória, o debate dentro do partido passou a ser cada vez mais restrito pela Articulação, que sempre presidiu o PT, para evitar que a base militante interferisse nas pretensões desse grupo. A democracia interna, tão vangloriada pelos quadros do partido, era amarrada com a camisa de força do Programa de Eleições Diretas (PED) que jogava a responsabilidade na votação e deixava de lado a discussão, além de enfraquecer os diretórios zonais, municipais, e, posteriormente, até mesmo os estaduais.

Mesmo assim, nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, o fantasma da esquerda fez com que a nação brasileira, conservadora que é, não votasse no “sapo barbudo com ares de comunista”. Afinal, brasileiro tem horror a comunista, mesmo sem saber que raios é isso . E assim, Lula perdeu para o “príncipe” Fernando Henrique Cardoso, viabilizado para liderar uma ampla aliança liberal-conservadora para implantar as reformas neoliberais e trazer a estabilização econômica tão desejada pela burguesia, conforme avaliou o economista José Luís Fiori em seu livro Os Moedeiros Falsos .

Por isso, as eleições de 2002 se transformaram em questão de vida ou morte eleitoral definitiva, tanto para Lula quanto para o PT. Isso ia requerer medidas drásticas. Então, o partido eliminou do programa qualquer citação a respeito de socialismo, não-pagamento da dívida externa, amansou o discurso sobre a reforma agrária, colocando o desenvolvimento e a inclusão social como palavras de ordem de seu programa. E para viabilizar a eleição do “Lulinha paz e amor”, sim, aquele candidato rosado que parecia mais um ursinho de pelúcia na televisão, foi elaborada a “Carta ao Povo Brasileiro”, conhecida como “Carta Acalma Banqueiro”, como disseram o presidente do PSTU, José Maria de Almeida, e o deputado federal Babá (PSOL-PA), pois o objetivo do documento era reafirmar que a política econômica neoliberal de FHC seria mantida e os contratos seriam respeitados, como até hoje, mais de 2 anos de mandato, o Lula repete em seus pronunciamentos. Aí o terreno estava livre para a vitória, obtida naquele ano. O projeto da Articulação, que agora tomava cerca de 60% do partido, vingava e o PT chegara, finalmente, ao poder.

Ledo engano. Governo sim, mas o poder, nunca. Ingenuidade acreditar que os fisiologistas de plantão dos partidos que ajudaram o PT a alcançar a vitória (PL, PMDB, PTB e PP), além dos opositores (PSDB e PFL) deixariam isso acontecer. Até por isso, o PT que elegeu apenas 20% das cadeiras do Congresso Nacional, precisou fazer alianças com muitos partidos que destoavam completamente de seu programa, história, metodologia, etc. e que se locupletam das maravilhas financeiras do Legislativo e fazem de tudo para se perpetuarem por ali. Mas a contrapartida fisiológica de liberação de verba e cargos para apoiar outros projetos não era mais suficiente: tinha agora o “mensalão”, para garantir de vez o apoio da própria base aliada nos interesses do Executivo quanto ao que seria votado no Legislativo.

Os petistas, que se viram fazendo as mesmas coisas que passaram anos criticando, demonstram de forma cristalina que a corrupção é inerente ao capitalismo, não importa quem esteja no governo, ainda mais quando falamos de um partido que nasceu num berço de esquerda, mas que, após tantas atitudes nefastas se tornou cópia escarrada dos demais, que não possuem ideologia, apenas conta bancária. E não foi pela “causa”, como adora escrever o fraco e ressentido cineasta e pior ainda comentarista político, Arnaldo Jabor. A única causa que restou ao PT é se manter no governo a qualquer custo e pagam caríssimo por isso, pois o preço é aceitar tudo que a burguesia pede, e como ela não exige pouco... A crise política e o escândalo que o Brasil vive revelam ainda que o caminho escolhido pela ala conservadora do PT, que surgiu como um partido de massas e de esquerda, se mostra num grave equívoco de estratégia, pois em vez do partido modificar a ordem existente, essa ordem subverteu o Partido dos Trabalhadores, que não mais representa a classe que está no seu nome.