| CADERNO ZERO #33
DEMOCRACIA = BUROCRACIA?
Uma conversa matinal com uma pessoa simples revela muito mais do que os jornais escondem
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)
ia desses cheguei no meu emprego um pouco mais cedo que o habitual e não havia ninguém ainda na casa, o que me obrigou a esperar alguém chegar para abrir o portão e começar mais um dia de trabalho. Aproveitei e fiquei de papo com o vigia da rua (bairro residencial de classe média-alta, já viu né?), chamado Zequinha. Homem de seus 30 e poucos anos, com aquele sotaque que entrega a sua “nordestinidade”. Fala tranqüila, sorriso sempre na face, é um daqueles seres pacatos que nós paulistas costumamos ver no interior do estado, o tão famoso caipira.
E enquanto fritávamos no sol das 8 da manhã, entramos numa conversa que fugiu do habitual cumprimento e futilidades, passando para algo mais sério. Falávamos de aluguel, pois uma casa vizinha ao meu trabalho estava vazia há 8 meses e eu perguntei a ele porque os donos não a vendiam. Detalhe: o aluguel da casa é R$ 1.400,00; aí estava a resposta. Daí, eu comecei a questionar também porque uma pessoa que se presta a pagar um valor desses não compra duma vez: “Quem tem esse dinheiro para pagar aluguel pode comprar uma casa né?”, indagava mansamente Zequinha, concordando com meu ponto de vista.
Nesse momento a prosa tomou um rumo interessante: Zequinha lembrou que para quem é pobre a compra de uma casa é muito mais difícil, pois “para você financiar uma casa na Caixa Econômica é uma democracia danada”. Sim, para quem não percebeu ou achou um erro de digitação do colunista, trocando “burocracia” por “democracia”, Zequinha falou mesmo a palavra “democracia”. Eu comecei a rir, mas não pela suposta ignorância do vigia e sim pela absurda verdade que Zequinha, sem perceber, mostrava a mim naquele instante.
O raciocínio é muito óbvio: que “democracia” é essa que exige diversas atribuições para um trabalhador pobre que não tem posses, nem meios de produzir lucro para obtê-las, a não ser seu salário-escravidão que lhe permite apenas comer e pôr no mundo mais mão-de-obra (seus filhos) para um futuro idêntico ao seu? Que “democracia” é essa que a instituição financiadora obriga que a pessoa tenha vários anos de trabalho numa mesma empresa, se, com a lógica neoliberal, essas empresas pratiquem hoje uma rotatividade monstro de seus funcionários, demitindo e contratando o tempo todo, tudo para cortar custos de rescisão e Fundo de Garantia?
Que “democracia” é essa que, no capítulo 2 da Constituição Federal, a seção Direitos Sociais (preste bem a atenção no título da seção) escreve que todo cidadão brasileiro tem direito à moradia, mas em 2000 foi estimado, segundo informações do Fórum Nacional de Reforma Urbana, a existência de um déficit habitacional de 6 milhões, sem contar os cidadãos que moram em palafitas, barracos e encostas de morros que podem cair a qualquer momento com as chuvas? Democracia, burocracia, enfim, a palavra é o que menos importa em um país que não respeita o seu povo e o engana em discursos vazios e hipócritas.
O próprio Zequinha mostra a entrada em cena do “jeitinho brasileiro” para burlar a nossa bela “democracia”. Ele cita um o caso de como um amigo conseguiu uma casa própria, pois o nosso humilde vigia ainda vive de aluguel: “Ele só comprou porque trabalhou muitos anos numa empresa e o patrão dele praticamente comprou a casa em seu nome, já que para o dono da empresa o financiamento sai mais fácil”, disse. E essa é uma dificuldade comum de quem sonha com uma morada sua. Tenho um amigo, Fernando, que está casado há mais de um ano e vive de aluguel, já que não tem condições de bancar uma casa própria e não atende as múltiplas exigências do banco estatal: “Eles colocam muitos obstáculos para a gente comprar uma casa”, disse-me uma vez, comentando sobre o assunto. O jeito, segundo ele, é conseguir aluguéis baratos até ver em algum “bom negócio” a possibilidade do casal se livrar do aluguel.
Já para Zequinha, a única opção é pela Companhia do Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU), pois uma conhecida dele está vendendo (de forma indevida, já que esse projeto do governo estadual proíbe que os apartamentos sejam vendidos ou mesmo que more outra pessoa que não o proprietário que venceu o sorteio) dois apartamentos em regiões inóspitas da periferia paulistana. “Mas você sabe como é né, CDHU é um pessoal bastante pobre. Mas tem muita gente boa”, justifica o vigia com uma cara desconfiada em relação ao povo que lá reside, esquecendo sua condição paupérrima, como todos os brasileiros costumam fazer, pois não enxergam e tem vergonha de admitir que a miséria está à sua porta. Após a conversa e a chegada de um funcionário para abrir o portão do meu emprego, o sereno Zequinha seguiu sua ronda e eu iniciei mais uma jornada de mais-valia relativa.
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