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23 de Dezembro de 2005 a 10 de janeiro de 2006
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CADERNO ZERO #34

OS EUA AINDA SÃO OS LÍDERES DO MUNDO?
Crise de hegemonia afeta a discussão teórica que não supre as contradições impostas pelo “hegemon”
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

discussão a respeito da ordem mundial atual, desde o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a consolidação dos Estados Unidos como Estado Hegemônico do Sistema Mundial, se mostra bastante importante, devido a falta de respostas positivas dos EUA em relação a sua condição de líder estabilizador. Principalmente após a eleição de George W. Bush e dos atentados em solo estadunidense em 2001, quando o país passou a provocar insistentemente a (des)ordem mundial, mudando de pacificador (que seria condição principal de uma nação hegemônica) para um perturbador da paz mundial, intervindo em países menores, desestabilizando a economia internacional com seus déficits monstros. Por tudo isso, faz-se necessária uma análise sobre o papel do líder e entender o porquê dos Estados Unidos, tendo sua hegemonia diminuída a cada momento que avançamos dentro do século XXI, atua contraditoriamente no rumo do esfacelamento da ordem e do sistema mundiais dos dias de hoje.

Esse debate é feito pelo sociólogo José Luís Fiori no texto “Formação, Expansão e Limites do Poder Global”, do livro O Poder Americano , organizado por ele com textos de vários outros autores. Fiori começa justamente pela crítica à “teoria da estabilidade hegemônica”, que tantos os realistas quanto os marxistas (e até os liberais) convergem: para haver a chamada paz mundial e a manutenção do sistema atual precisaria, segundo estas correntes teóricas, haver um país hegemônico a liderar os demais. No caso dos realistas, a “teoria da estabilidade hegemônica” foi formulada no início da década de 1970, por Charles Kindelberger e Robert Gilpin, pois ambos “estavam preocupados com a possibilidade de que se repetisse a Grande Depressão dos anos 30, por falta de uma liderança mundial”, atesta Fiori. Grosso modo, idéia dos realistas está voltada à necessidade de um país assumir a responsabilidade para fornecer alguns “bens públicos” essenciais para o bom andamento do sistema mundial, caso da moeda internacional, do livre-comércio e da coordenação das políticas econômicas.

Os marxistas, especialmente Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi, partem desse conceito e da história do “Sistema Mundial Moderno”, criado na Europa, no século XVI, para afirmar que a competição entre os estados-nacionais europeus só não levou ao caos (político e econômico) por conta do comando nos últimos 500 anos “de três grandes potências hegemônicas que teriam sido capazes de organizar ou ‘governar' o funcionamento hierárquico deste Sistema Mundial”.

Arrighi vai mais fundo e aponta o que seriam quatro “sintomas” das “crises de hegemonia” que surgem associadas às transições e crises hegemônicas: as grandes “expansões financeiras sistêmicas”, que seriam o efeito combinado de uma crise de sobreprodução com o aumento da disputa estatal pelos capitais circulantes no mundo; a intensificação da competição estatal e capitalista; a escalada global dos conflitos sociais e coloniais ou civilizatórios; e a emergência de novas configurações de poder capazes de desafiar e vencer o antigo estado hegemônico.

Fiori argumenta que se as teorias acima são verdadeiras, como é possível explicar que os anos de 1990 foram marcados por instabilidades nos mercados, baixo crescimento, desenvolvimento fraco. Esses exemplos jogam por terra tais teorias de que um país hegemônico traz o equilíbrio ao sistema. Isso provoca o que Fiori chama de “paradoxo do hiperpoder”, pois o país hegemônico tem provocado as crises sistêmicas, ao invés de contê-las. Para isso, ele exemplifica os acontecimentos dessa última década do século XX (exemplos: as invasões no Iraque e no Afeganistão), em que os Estados Unidos se consolidaram como a maior potência hegemônica, sem, contudo, assumir a condição de país estabilizador, mas sim de perturbador do sistema vigente.

“O grande problema teórico, entretanto, não está apenas na dificuldade dos Estados Unidos para estabilizar a paz e o crescimento econômico do Sistema Mundial. Está no paradoxo, absolutamente inexplicável do ponto de vista de todas as teorias existentes sobre as lideranças ou hegemonias mundiais: a descoberta de que as principais crises do sistema foram provocadas pelo próprio poder que deveria ser o seu grande pacificador e estabilizador”, pondera Fiori em seu raciocínio.

Esse problema hegemônico estadunidense fica claro nos argumentos de Robert Gilpin, no capítulo “Para gerir a economia global”, do livro O Desafio do Capitalismo Global , que aponta quais são as condições de reafirmação da liderança pelos Estados Unidos do Sistema Mundial. Ele coloca que os EUA devem procurar manter e fortalecer uma “economia global e unida”, independentemente da estratégia a ser tomada para este novo século, pois isso trará para benefícios tanto políticos como econômicos. “Uma economia mundial regionalizada, com amplas áreas inacessíveis a terceiros, ou uma economia mundial caracterizada pelo protecionismo comercial prejudicaria os interesses econômicos e políticos americanos e dificultaria sobremaneira a preservação da cooperação econômica, política e de segurança entre os Estados Unidos e seus principais aliados europeus e japoneses”, observa Gilpin.

Outro ponto levantado por esse autor é quanto a necessidade de reforçar sua característica militar de controle mundial, ficando atento em relação as possíveis rivalidades entre russos e europeus, além da “ameaça chinesa” ao Japão, não podendo ser deixada de lado pelos EUA nos seus planos políticos. “Na qualidade de potência ligada ao status quo , os Estados Unidos precisam de estabilidade e paz no mundo. Para preservar esta situação é necessária, como requisito mínimo, a permanente presença política e militar americana tanto na Europa quanto na Ásia”, afirma Gilpin.

Portanto, a viabilidade do poder global estadunidense, na visão de Gilpin, está intrinsecamente ligada à capacidade do mundo ter uma economia mundial totalmente global, sem fronteiras, para que os mercados possam efetuar seu livre desenvolvimento, sem a interferência de estados-nacionais que prejudiquem a liberdade das transações comerciais e financeiras, vistas, na opinião de Gilpin, como essenciais para o sucesso do Sistema Mundial atual. Essa ameaça, para ele, vem justamente dos blocos comerciais ou políticos, caso do Mercosul e da União Européia, por exemplo, que poderiam excluir os países fora do bloco das negociações econômicas e, conseqüentemente, do acesso a determinadas mercadorias. Para Gilpin, essa situação pode acarretar não só uma ameaça à hegemonia dos Estados Unidos quanto ao próprio sistema. É evidente que essa posição vai de encontro ao que Fiori argumenta que os fatos históricos dos dias de hoje têm demonstrado totalmente o seu oposto, isto é, os próprios EUA desestabilizando a ordem mundial, ao invés de protegê-la.

Lógica da guerra

Mas para entender as relações conflituosas entre os países dentro do capitalismo é preciso compreender a lógica da guerra e da acumulação de poder, que contribuiu decisivamente para a formação dos estados-nacionais que conhecemos hoje, bem como a distribuição hierárquica entre essas nações, sob a égide do Sistema Mundial atual. Uma das teses apresentadas por Fiori foi a de Charles Tilly a respeito da origem dos estados territoriais europeus, que haviam seguido uma lógica semelhante de “provocação de guerra”: “Todo aquele que controlava os meios substanciais de coerção, tentava garantir uma área segura dentro da qual poderia desfrutar dos lucros da coerção, e mais uma zona tampão fortificada para proteger a área segura. Quando essa operação era assegurada por algum tempo, a zona-tampão se transformava em área segura, que encorajava o aplicador de coerção a adquirir uma nova zona-tampão em volta da antiga. Quando as potências adjacentes estavam perseguindo a mesma lógica, o resultado era a guerra”, explica Tilly na obra citada pelo Fiori.

Outra contribuição para o entendimento da lógica da guerra e da acumulação de poder foi feita por Norbert Elias, através de seu conhecido “quem não sobe cai”. Ou seja, a expansão contínua dos territórios e das guerras é inevitável para a “preservação da existência social”. A análise de Fiori a respeito não poderia ser outra senão a de que a guerra foi o que empurrou a expansão territorial e criou as primeiras hierarquias entre os vencedores das contendas. “A guerra foi condição básica de sobrevivência de cada uma destas unidades e, ao mesmo tempo, foi a força destrutiva que as aproximou e unificou, integrando-as, primeiro, em várias sub-regiões e, depois, dentro de um mesmo sistema unificado de competição e poder”, considera.

Por isso mesmo, todos os territórios que desejassem uma posição de destaque (além de evitar a possibilidade iminente da guerra) deviam se atirar a conquista de mais terras e, conseqüentemente, de mais poder, que é melhor explicado por Fiori: “Nesse sentido, apesar do paradoxo aparente, se pode dizer que a necessidade de expandir o poder para conquistar a paz acaba transformando a paz na justificativa número ‘um' da própria guerra”.

Porém, seu limite está justamente nessa busca incessante pelo poder total, que pode causar o que Fiori chama de monopólio, pois, se todos lutam pela conquista do poder global que seja exercido num espaço territorial cada vez maior e unido, sem fronteira alguma, essa sede pode levar a criação de um império hegemônico, o que limitaria a continuação do processo de acumulação de riqueza e poder, pois os demais poderes territoriais seriam extintos. É a chamada contradição do “jogo das guerras” que almeja uma exclusividade do poder, mas que deve ser evitada, pois coloca em risco a própria acumulação capitalista. “Se a exclusividade fosse alcançada, e fosse criada uma situação de monopólio absoluto, o sistema de acumulação do poder entraria em crise, e tenderia a um estado de entropia por causa do desaparecimento das hierarquias, da competição e da guerra”, crê.

Crítica

O trecho citado acima é o paralelo que explica a posição de Fiori criticar as teses sobre a estabilidade a partir de uma liderança hegemônica, porque nenhum dos autores analisou as características negativas e contraditórias do hegemon que busca sempre expandir seu poder, percebendo apenas suas “contribuições positivas”. Isto é, não vêem sua capacidade de causar guerras e impedir a concorrência entre as nações, em caso, claro, da formação de um império mundial. Além disso, o tratam como se fosse uma “categoria virtual”, como se não houvesse conflitos que definam essas relações entre os estados e o líder hegemônico.

Na visão de Fiori, essa é a causa para as teorias não conseguirem responder o paradoxo causado pelas relações conflituosas de expansão do poder dos estados-nações e a conseqüente crise do sistema que é fomentada pelo líder. “Neste sentido, se pode concluir com toda segurança que os conceitos de ‘liderança' ou ‘hegemonia internacional' ajudam a compreender a estabilização e o funcionamento ‘normal' do Sistema Mundial, mas não dão conta das suas contradições e do desenvolvimento tendencial dos seus conflitos que existem e se mantém ativos, mesmo nos momentos de maior legitimidade e paz hegemônica”, escreve o sociólogo.