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15 a 30 de março de 2006
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #38

COMEÇA MAIS UM ANO NO BRASIL, SERÁ?
Carnaval, Copa do Mundo, Corrupção e Eleições; O ano de 2006 vai ser lembrado em nossa História algum dia?
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)


gora parece que o ano vai começar. O carnaval se foi, adeus festa, alegria e amnésia dos problemas. É hora de encarar a dura realidade da vida simples e injusta, do salário de merda e da falta de perspectiva num ano eleitoral, em que a eleição há muito já deixou de ser uma ferramenta transformadora, num país que nunca tornou possível que isso acontecesse. E claro, a retomada do cotidiano casa-trabalho-casa renova o mau-humor dos coletivos durante as manhãs, com empurra-empurra, xingamentos, suspiros resignados e insatisfação garantida.

Mas não há de ser nada, a Copa do Mundo se aproxima e temos mais uma chance de ter um momento de felicidade com nossos craques-heróis, que vão resolver todos os nossos problemas trazendo o caneco, pois a “mística da amarelinha” nunca “nos” abandonou. E depois, ah, depois tem eleições e, tudo bem, essa época chata de propaganda política obrigatória, com personagens rosados, cheios de maquiagem, vendidos como sabão em pó, prometendo o mundo e atacando o seu adversário-televisivo, de programa partidário e alianças semelhantes, passa logo. Enfim, tudo é cena, no fim das contas todos se locupletam dentro da mesma panela, todos arranjam um lugarzinho dentro dessa cuia chamada Brasil. Afinal, para que dividir com o povo se é possível armazenar mais entre uma meia dúzia?

Até porque, agora tudo melhorou, o recesso parlamentar caiu de 90 para 55 dias, os deputados e senadores, coitados, terão “apenas” quase dois meses para descansarem da chateação que é dizer as mesmas hipocrisias, todos os dias, para jornalistas-amigos que estão pouco se lixando para o que vai acontecer, e ter que aprovar emendas para seus redutos eleitorais e garantir mais mandatos vitalícios. A grana extra também sumiu, ótimo, pois pegava mal demais aquela dinheirama toda, já que ninguém nunca foi nas sessões extraordinárias. Mas o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B, pode?), avisou que essa convocação foi a mais produtiva da história, segundo nota divulgada na Agência Estado . Dá para acreditar? Vindo de alguém como ele, que mudou todo o seu discurso contra o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e agora apóia a corja de dirigentes corruptos que são, como ele agora, contra o clube-empresa, é bem possível crer.

E como tudo é possível no país do faz de conta, em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que deu o Brasil em privatizações a preço de banana para entregar as empresas que davam lucro à União para seus amiguinhos de fora, tem a cara de pau de se colocar como o paladino da crítica contra o atual governo. E a imprensa dá espaço, lógico, ele é culto, fala quatrocentos zilhões de línguas, elaborou uma teoria sobre a dependência que ninguém mais se lembra (e nunca fez sentido realmente), viveu no exílio durante a ditadura, e outras lenga-lengas que essa mídia burguesa adora relatar para querer se vangloriar como raça superiora e detentora de uma verdade única.

Azar do tal “sapo barbudo”, ex-operário, político profissional, alvo de piadas por não ter um dedo e chamado de “vagabundo” por transeuntes na rua por não trabalhar há tanto tempo. Agora me digam: qual foi o último emprego do FHC? Mas tudo bem, Lula e FHC se parecem muito hoje, afinal, o projeto de ambos é tão semelhante, calcado numa social democracia que não deu certo na Europa (uns mais, outros menos, pois nada é idêntico) e eles ainda insistem em importar isso para cá. Afinal, somos atrasados, até os erros trazemos para cá, depois de tanto tempo, sem verificarmos a cagada da esquerda do Velho Mundo.

Isso abre espaço para caras como o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, dizer no último dia 13 de fevereiro, por meio de nota (claro, já viu assessor de imprensa sem emprego, ainda mais em Brasília?), que o PT devia comemorar, além dos 26 anos de existência, a onda da impunidade que atinge dois anos, levada a cabo desde as denúncias de corrupção do caso Waldomiro Diniz, sem que “ninguém” tenha sido punido, segundo o tal. Dizem até que pode ser instituído como feriado nacional da impunidade.

Boa, no país da hipocrisia de um deputado de direita como esse falar uma coisa dessas, além de ser uma nação de conchavos e jeitinhos, nada melhor do que declarar algo assim. Poderia ser: “o dia do jeitinho brasileiro” ou “o dia da lei de Gérson”, ou qualquer porcaria dessas que deixa qualquer cidadão com nojo. Mas como tudo tem limite, o repúdio se transforma em escárnio no dia em que alguma situação surge para essa pessoa, que requeira o tal “jeitinho”. Aí, a coisa muda de figura e um cidadão qualquer se torna como um político que ele critica a todo o momento nas rodas de bar e nas filas da padaria. É, pelo visto, mais um ano que passará em branco. Mesmo.