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19 de junho a 3 de julho de 2006
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CADERNO ZERO #42

UMA ODE AO “LÍQUIDO DOS DEUSES”
Vinho possui charme próprio; não pode ser consumido em um bar de padaria
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)


ocê gosta de vinho? Não, esta coluna não é nenhuma apologia ao consumo de álcool, até porque, cada um faz o que quer da vida, não sou eu quem vai influenciar alguém a alguma coisa. Trata-se apenas de uma reflexão a respeito do vinho e seus encantos, mais especificamente, sobre minha relação com a bebida. Na verdade, eu só queria entender o porquê do vinho causar fascínio nas pessoas. Deus Baco que o diga, não?

Engraçado que eu nunca prestei a atenção nessas coisas de marca, sabor, tipos, gostos, etc. Na época em que eu adentrava a maioridade, o que importava para mim era se tinha algum teor alcoólico. “Tem? Então beleza, vamos embora”. Coisa de garoto né? Beber por aí, cair na calçada, passar mal e rir no dia seguinte. Hoje quando bebo – em uma freqüência muito mais espaçada do que antigamente -, eu fujo de qualquer sensação que indique que irei vomitar e fico puto da vida quando sofro de ressaca, pois não consigo descansar direito, muito menos trabalhar.

Mas vinho eu realmente nunca me preocupei e nem sou chegado a tomar muito, porque sempre dá uma bela dor de cabeça no dia seguinte, principalmente se misturar com outra bebida. Prefiro apreciar o sabor de uma cerveja gelada apenas, de preferência entre amigos, pois, como muitos sabem (e as esposas dos maridos precisam saber), o que dá o prazer da “loira” é a companhia, o boteco, e não apenas aquele gosto amargo.

Mesmo assim, não sou um bom apreciador no sentido de identificar marcas de cervejas e dizer que A é melhor que B. Tenho minhas preferências que, aliás, são um tanto quanto exigentes, mas coisa de fresco mesmo, de quem bebe e gosta de dizer que tomou cerveja de “pessoas normais” e não aquelas mais baratas, consideradas de pinguços. Mera bobagem preconceituosa. Nem tanto vai, porque há realmente muitas cervejas ruins e algumas boas, dá para perceber a diferença em certos casos.

Voltando ao vinho, eu sempre achei bacana aquele pessoal que sabe identificar a safra, que faz pose para cheirar, chacoalhar o líqüido da taça e virar em um gole só. Mas só uma bicada. Achava elegante aquilo. Hoje sei que é uma baita bobagem, pois quem degusta vinho faz exatamente isto, ou seja, degusta, não bebe. Ainda bem, imagina o cara experimentando 100 tipos de vinho por dia, como vi em uma matéria recente na televisão? O cara travava duma vez só. Melhor eles não beberem, senão seriam todos alcoólatras.

Mesmo com tudo isso, eu acho aquilo bacana, mas ainda não troquei os vinhos baratos que vendem em padaria ou em uma adega aqui perto. Se bem que, como meu gosto ficou mais apurado e menos juvenil, hoje vejo que o vinho dessa adega (famosa em meu bairro) é uma bela porcaria repleta de açúcar. Lembra um suco de uva. Argh! Por isso mesmo, passei a prestar mais a atenção nos tipos de vinhos mais “requintados” e a perguntar essas coisas.

Quem me ajuda nisso é um amigo que entende (ou quer entender) um pouco do assunto, diz conhecer algumas coisas, sabe a diferença entre um vinho seco suave e um tinto não-sei-lá-o-quê. O bom é que pelo menos ele compra umas garrafas de vinho bacana de vez em quando e vai abastecendo a sua, digamos, adega, se é que posso chamar assim, pois é algo bastante simples. Isso quer dizer que, às vezes, ele libera uma ou outra garrafa, para a felicidade geral minha e de nossos amigos. E como ele fez uma caridade no meu aniversário, abrindo alguns vinhos pra gente, eu vou devolver a gentileza e no aniversário dele irei comprar um “do bão”, bem caro. Ele vai ficar feliz. Amigos: é sempre bom tê-los por perto.

Outra influência forte nessa minha “iniciação” no assunto é, com toda a certeza, o filme Sideways . Imagina, fazer uma viagem com seu melhor amigo por boa parte da Califórnia só degustando vinhos? Ah, que maravilha! Seria algo único, realmente. Se bem que não deu muito certo né, porque eles se separaram: um arrumou uma mulher por lá e o outro só enchia a cara. É, não sei se daria muito negócio, mas seria especial e emocionante, estou certo. E o filme trata de questões interessantes, há diálogos gostosos sobre a vida, o amor, a amizade. Pelo menos eu gostei. Não sei você.

Por tudo isso, acabei de resolver: coloquei como um objetivo este ano aprender um pouco mais sobre o tema e a iniciar minha adega. Pelo menos quando eu tiver minha própria casa. Claro, não adianta ser um apreciador, você também tem que ter o seu próprio espaço. Mesmo que só para fazer inveja aos outros e nunca abrir garrafa nenhuma, mas é importante ter.

Que nada. Vai ser difícil parar alguma coisa em casa. Vou chamar sempre algum amigo para degustar um bom vinho. Afinal, vinho é para ser admirado enquanto se bebe, não é como uma cerveja que tu bebe no balcão da padaria. Tem um charme, um garbo próprio. Um dia eu ainda vou ter minha adega e vou chamar todo mundo para curtir um bom “suco de uva”. E você, gosta de vinho?