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4 a 18 de julho de 2006
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #43

UM MES INERTE, SUSPENSO NO AR...
Copa do Mundo proporciona peculiaridades e problemas para o país do futebol
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)


sse período de Copa do Mundo tem se mostrado bastante pitoresco. O Brasil praticamente pára por causa dos jogos, principalmente da seleçao brasileira. Tá, tudo bem, as areias do tempo nao chegam a ficar inertes por causa de um confronto entre Ira e Angola, mas a sensaçao é bem essa, de que nada acontece no planeta a nao ser a Copa. Já nos casos das partidas do Brasil, nao tem sensaçao, é a realidade mesmo: ruas vazias, trânsito tranqüilo, transporte público abandonado, escolas, lojas, empresas, todas fechadas, residencias e bares lotados, tudo parece parado, suspenso no ar.

E o jogo vira desculpa para sair mais cedo do trabalho, para faltar nele, encher a cara, passar dos limites e tudo o mais que ocorre nos carnavais e nas festas de fim de ano. Sim, a seleçao brasileira em campo é um evento tao gigante quanto estes, no sentido de festejo inclusive, ocupando um lugar de destaque na vida dos brasileiros.

Tanto é verdade que o assunto do momento é qualquer coisa sobre a Copa: as bolhas e a gordura do Ronaldo, o fraco desempenho do time (na hora em que esse texto irá ao ar muita coisa do Mundial já terá ocorrido, portanto, esqueçam comentários sobre resultados), a entrada ou nao de Robinho e Juninho Pernambucano, sao temas recorrentes em metrôs, ônibus, filas de banco e de hospitais públicos, rodas de amigos, butecos, empresas, etc, etc, etc.

Sem falar nos famigerados boloes, que surgem como febre nessa época, com todo mundo apostando. Até quem nao costuma torrar grana na Loto, Sena, bilhete premiado, raspadinha, jogo do bicho e afins – e que, detalhe, nao entende bulhufas de futebol – resolve dar seus pitacos e ataca de palpiteiro no bolao da empresa, do orkut, do amigo, do prédio, da televisao... E por aí vai... A jogatina corre solta nos corredores, emails, refeitórios, ruas...

Ah, e tem também o álbum de figurinhas. Pensava que era coisa de criança. Que engano. Se nao bastasse meu sobrinho de 10 anos, o Lucas, colecionar fotografias de jogadores de futebol (o que é normal), vejo amigos casados e de barba na cara completando álbum, colegas de trabalho (homens e mulheres) trocando figurinhas durante o expediente. Uma verdadeira festa. É, todo mundo vira criança durante a Copa.

Uma coisa divertida é a preocupaçao das pessoas em acompanhar os jogos. Principalmente para os aficionados. Até porque a TV Globo foi quase que obrigada a transmitir todas as partidas. Entao é jogo o dia todo. O que é uma bençao para a emissora, que pode atirar na lata do lixo durante um mes toda a porcaria que é passada no horário e ainda ganha audiencia de quem nunca assistiria TV durante o dia. Já quem nao pode ver na telinha se vira como pode. Quem trabalha com computador deixa aqueles narradores (podres) de portais que contam o que acontece durante a partida. Quem pode, espia na televisao, num bar, restaurante, clube, até terminal de ônibus transmite os jogos da seleçao brasileira.

Para citar um exemplo, o último jogo da primeira fase do Grupo D foi entre Argentina x Holanda. Fui para o Sesc da Consolaçao (próximo do Mackenzie) assistir a partida, já que lá eles ofereciam um telao de cinema. O andar térreo do Sesc estava simplesmente lotado na hora em que a bola começou a rolar. A grande maioria homens entre 20 e poucos e 60 anos, assistindo a um clássico mundial, numa telona, de graça. Depois que acabou o jogo, o local esvaziou em menos de um minuto, incrível. Quando pensei que o pessoal ia para outras atividades do Sesc, que nada: boa parte foi embora, o que quer dizer que muita gente parou ali só para ver a peleja. E antes que alguém me pergunte, eu faço nataçao nessa unidade e curso pós-graduaçao numa Fundaçao ali perto. Portanto, nao estava ali plenamente a toa. Rsrsrs...

Fico me perguntando se em outros países é assim também. Se bem que uma notícia que ouvi de que dois búlgaros presos fizeram greve de fome para ter uma TV na cela e assistirem a Copa. Isso porque a Bulgária nem está no torneio. Mas tudo bem, até o (novo governador de Sao Paulo?) Marcola teria feito rebeliao e pedido televisores para ver o Mundial...

Apenas flores?

E é engraçado que na imprensa e na sociedade tudo suspende também. Os ladroes param de roubar, os assassinatos nao mais acontecem, as atrocidades contra crianças e mulheres cessam, a corrupçao, o jeitinho brasileiro, a vista grossa, nada disso ocorre durante a Copa do Mundo. Basta olhar a capa dos jornais: uma das vitórias de Portugal na primeira fase, por exemplo, garantiu capa na parte de cima do Estado de S. Paulo , por exemplo. E se voce olhar o site desse veículo e da Folha de S. Paulo , o especial da Copa estará com destaque gigantesco logo quando a página na internet.

Sem falar na cobertura da TV Globo, que dá até medo. O jornalista de Fórmula 1, Flavio Gomes, comentou em seu blog ( http://bligdogomes.blig.ig.com.br/ ) certa vez que do jeito que a Globo faz a cobertura (nosso time, nosso jogador, etc.), quem ganharia o hexa nao seria o Brasil, e sim a Globo. É cômico sim, mas, analisando, é preocupante, pois a facilidade que a emissora tem dentro da seleçao e o jornalismo esportivo chapa branca que é feito doem na alma de qualquer jornalista sério.

O cúmulo foi durante uma chamada do programa SPTV de Sao Paulo no dia de Corpus Christi (15 de junho), a apresentadora (nao me lembro o nome dela) disse algo assim, apenas: “Hoje voce vai ver no SPTV como foi o dia da Seleçao Brasileira na Alemanha. Voce vai ter também informaçoes sobre o feriado de Corpus Christi”. Como é? O programa trata da cidade de Sao Paulo, sobre os fatos do dia a dia de uma das maiores e mais populosas capitais do mundo e nao tem destaque? A única coisa relevante é o Brasil na Alemanha? Essa alienaçao é assustadora e temerária. E se o Brasil vencer de novo? O que será da cobertura “jornalística”? O que será desse povo?

O problema é justamente esse: as coisas continuam a acontecer e a assustar, mas se o público nao dá importância, porque o jornal vai dar? Fica mesmo para a parte de baixo, para os cadernos internos, para segundo plano nas reportagens e na grade da programaçao. Nada de repercussao, afinal, para que né? É melhor voltar os olhos para a Copa, torcer para o Brasil trazer a sexta estrela (isso lembra a propaganda infame de uma cerveja que trata deste tema) e ganhar mais espaço para publicar esse material, já que nada acontece no país e, portanto, nao há nada que se noticiar.