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28 de julho a 13 de agosto de 2006
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #44

PALAVRAS GASTAS
Enquanto políticos dão declarações vazias e hipócritas, São Paulo sofre nova onda de ataques
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)


aio do estádio do Morumbi numa quarta-feira qualquer (dia 12 para ser mais exato), após a vitória do São Paulo contra o Gremio por 2 x 1 e me dirijo tranqüilamente ao longínquo ponto de ônibus para tomar minha condução para o centro da cidade, pegar o metrô e ir para casa. Vou com meu rádio de pilha, ouvindo as declarações de técnicos e jogadores sobre o resultado, etc, etc. E nada do ônibus aparecer. Deixo passar um que ia para o metrô Paraíso, pois preferia ir para o centro mesmo, facilita meu caminho para casa, pois moro na Zona Leste da capital paulista.

Passa meia hora e nada de ônibus aparecer, a não ser os intermunicipais que iam para destinos opostos ao meu. Começo a me perguntar o que acontece, achando esquisito aquilo. Finalmente, passa um que ia sentido metrô Ana Rosa e decidi nao titubear. Dentro do coletivo, porém, noto que o mesmo vai dar uma volta homérica para chegar até a estação e, devido ao horário tardio – passava das 23h e o metrô fecha a meia-noite -, decidi descer na esquina das avenidas Brigadeiro Faria Lima e Rebouças, para pegar um ônibus que desse menos voltas – ali costuma ter coletivos em profusão.

Para a minha surpresa, o ponto estava lotado e nada de ônibus. Começo a me lembrar dos ataques do PCC e da possibilidade das companhias de transportes terem retirado os carros das ruas. Ouço um bochicho daqui, dali, o taxista comenta com um transeunte, que toma um táxi, cansado de esperar. Passa mais meia hora e nada. Começo a ficar preocupado, pois passava das 23h40 e uma droga de ônibus não aparecia. Já cogitava pegar um táxi, pois, por sorte, tinha um troco a mais no bolso.

Procuro alguma estação de rádio para confirmar meu temor, mas nada, todas narravam a partida do Corinthians que ainda ocorria naquele momento. Quando eu já nao possuía mais esperanças, eis que surgem dois ônibus sentido metrô Paraíso (daquele mesmo que eu recusei próximo do Morumbi) e entrei correndo num deles. Fucei mais um pouco e tive a confirmação pela rádio Globo dos ataques e da falta de ônibus desde as 20h, quando foram recolhidos os veículos. Mas bastava olhar para as ruas que nenhum ônibus passava por lugar algum. Cheguei quase no momento que a estaçao Consolação – situada na avenida Paulista – fechava, mas consegui tomar a condução e seguir até em casa, sem deixar de notar que nao havia nenhuma lotação para levar os últimos incautos para seus lares.

Parece piada ou um conto fictício, mas narrei exatamente o que vivi no dia citado, tudo por causa de um país sem nação, sem estado (em minúsculo propositalmente), sem nenhuma estrutura, sem inteligencia (em todos os sentidos), sem vontade de mudar as coisas, de combater e resolver os problemas. Fica aquele eterno jogo de empurra, o governo estadual – na figura moribunda do pirata Cláudio Lembo – nega ajuda da União, que aproveita para conseguir dividendos eleitorais.

O secretário de segurança pública (em minúsculo também) diz que sao poucos ataques e que nao há nada com que se preocupar. Em dois dias (madrugadas de 12 e 13 de julho) foram mais de 100 ataques, com 7 mortos. Mas tudo isso nao passa de números e é muito mais importante aparecer nas coletivas, prometer coisas e não fazer nada do que tentar solucionar algo que eles nao sabem como? O problema está aí: eles nao sabem. É a única explicaçao concebível, pois, dos primeiros ataques, há dois meses, para essa segunda onda de violencia (agora mais focada em alvos civis, como ônibus, supermercados, bancos), nada mudou.

O pacote de leis não foi aprovado, os celulares nao foram bloqueados nas cadeias, muitos advogados continuam ajudando o crime organizado, Marcola e cia. continuam decidindo os rumos das situações, nao há punição, investigação, cooperação entre governos, polícias, etc., para proporcionar uma segurança mínima a população que trabalha o dia todo, chega tarde em casa e nao sabe se conseguirá faze-lo sempre, pois vive a eterna insegurança de um não-estado que não faz, a rigor – a não ser gastar palavras – absolutamente nada para reverter o quadro. Ficamos assistindo declarações hipócritas, notícias repetitivas de mortes, rebeliões, ataques, e nenhuma esperança em meio a essa fumaça escura de mentiras e frases vazias.