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13 a 28 de outubro de 2006
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #48

COMO SABER SE O SEU VOTO É BOM?
Campanha do Governo Federal revela medo com o esvaziamento das eleições; saída não está nesse tipo de voto delegativo
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

esde quando o Governo Federal soltou na mídia a campanha em favor do voto nas eleições, com o slogan “O Brasil é tão bom quanto o seu voto”, fico pensativo cada vez que eu ouço aquilo e reflito sobre o significado de uma frase dessas, que pode indicar muito mais do que parece. A campanha veio para tentar conter o avanço do voto nulo, principalmente na Internet, que vinha com informações confusas, dizendo que se a maioria dos votos fosse nulo a eleição seria anulada, enquanto outros diziam que isso era inverídico, que os votos válidos seriam contados e o candidato que recebesse mais votos sairia vencedor da mesma forma. Ou seja, um imbróglio gigantesco que, mesmo no meio jurídico, há discordância entre os juristas quanto à matéria.

Mas o que o governo quer evitar mesmo é um constrangimento de, em tendo realmente a maioria dos votos anulados, precisar levar uma eleição ao extremo de uma análise pelo Tribunal Superior Eleitoral ou mesmo pelo Supremo Tribunal Federal, o que causaria, certamente, problemas no país, pois a insatisfação estaria instalada na sociedade e, com certeza, muitas pressões viriam de todos os lados para que o caos não eclodisse.

Mas é claro, ninguém quer que uma insatisfação localizada se alastre, ainda mais em se tratando das eleições, o grande baluarte de contenção de massas da democracia burguesa, em que se vende a imagem de que apenas o voto é que fará a mudança e as melhorias necessárias no país. Quando muitos sabem que isso inexiste, que esse modelo de democracia delegativa em que o povo vota e joga tudo na mão do político, sem fiscalização, sem participação direta nas discussões e decisões, apenas aumenta a corrupção e alimenta a inércia desesperançosa das pessoas.

Loucura? Analisemos, então, o slogan da campanha, “O Brasil é tão bom quanto o seu voto”. Quer dizer que se você votar direito está garantido um Brasil correto? Como mensurar isso? Como saber que nosso voto foi bom? Ainda mais se pensarmos que a cada dia mais CPI’s, mais operações da Polícia Federal, desvendam esquemas e dutos de dinheiro correndo pelos quatro cantos de Brasília e do interior do país (ou mesmo nas grandes capitais), com superfaturamento em venda de ambulância, com compara de dossiê, com sanguessuga, com desmatamento ilegal feito por madeireiras comandadas por políticos, com dinheiro entrando no país ilegalmente, com verba irregular usada para financiar campanha, comparar votos, calar bocas.

Como aferir que o voto é bom se, como podemos notar, a cada nova manchete nos jornais mais e mais políticos são envolvidos em escândalos? E aqui não vai uma análise partidária, isto é, o partido tal não teve tantas denúncias, o outro sim. Se você verificar com cuidado, governos anteriores, inclusive, vai ver a mesma história, em que a única ética que funciona é a da malandragem, parafraseando o jornalista Lúcio Vaz.

Como averiguar se o voto foi bom, se ninguém sabe para que serve um deputado, um senador? Outro dia ouvia uma conversa no metrô de duas mulheres reclamando exatamente disso, de que conhecidos diziam que para deputado votariam em qualquer um, não importava. Ora, todas as denúncias dos últimos anos serviram de quê, então? Se a pessoa vota em qualquer um, por achar tudo igual? E, se você parar para pensar, são iguais mesmo. Muitos que renunciaram para evitar a cassação por escândalos investigados e comprovados se candidataram e, muito provavelmente, irão conseguir se eleger. A lista é gigante e vale a pena procurar saber. Por último, outro agravante: como saber se o voto é bom, se o índice de analfabetismo ainda é alto no país e todas essas pessoas votam e são assediadas de várias formas para votar em determinado candidato?

Por isso, é difícil você colocar que um voto pode ser bom, pois não depende apenas de quem vota. E quem digita o número na urna eletrônica também não deve achar que bastou votar (ainda que de forma obrigatória, aí dá para ver o medo dos políticos desse país de um esvaziamento completo das eleições) e tudo será resolvido ou mesmo nada acontecerá. A descrença é tanta que nem uma campanha imbecil como esta, de qualificar o voto tão bom quanto o Brasil, é capaz de sensibilizar o povo.

Na verdade, a forma viciada como as eleições são feitas hoje chegou em um ponto tal que estão mais para Brasil, tão ruim quanto o seu voto, ou quanto sua política e pessoas. As eleições como estão colocadas, excluindo quem se opõe à arena capitalista de debate, mas aceitando quem entra nesse esquema corrupto e hipócrita (até mesmo com a ilusão besta de querer mudar dentro do status quo, o que revela, na verdade, o medo de largar o osso, retrato evidente da esquerda eleitoral brasileira atual), não deve mais existir. Já passou do tempo de querermos que os outros façam por nós mesmos. É preciso passar da passividade à ação, antes que o próprio debate que o período eleitoral abre (a única coisa que pode ser boa, se aproveitável), seja retirado, afinal, ninguém mais se importa ou acredita em nada mesmo.