n

Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
02 a 17 de janeiro de 2007
Equipe Edições Anteriores

CADERNO ZERO #50

VIVER A CONQUISTA É INESQUECÍVEL
Há um ano o São Paulo era Tri-Campeão Mundial de Clubes
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

uero pedir licença aos leitores desta coluna, pois nesta edição vou abrir mão de toda e qualquer pseudo-objetividade e imparcialidade jornalística e vou rememorar instantes da vida de um torcedor, acima de tudo. É porque esse fim de ano me fez relembrar alguns momentos vividos em dezembro passado, por conta da participação do São Paulo no Mundial de Clubes organizado pela Fifa. Certamente, a participação do Internacional trouxe um pensamento invejoso a cada torcedor tricolor, principalmente se retomarmos o fato de que o colorado obteve o título continental sobre o São Paulo.

Mas estou aqui para lembrar de dias fabulosos vividos em 2005, nas vésperas do torneio, desde o fim do Campeonato Brasileiro, a preparação, os treinos, a preocupação quanto a possibilidade do time erguer o caneco planetário pela terceira vez na história. Desde aquela época eu passei a ter um vício, que é acessar de tempos em tempos sites de esportes para saber informações do São Paulo.

Foi aí que eu descobri o Tricolor na Web (www.tricolornaweb.com.br), feito pelo locutor da Jovem Pan, Paulo Pontes. Lá ele edita todas as notícias publicadas sobre o clube na Internet, prestando um enorme serviço à coletividade tricolor. Quando tomei contato com o site, visitava-o a cada minuto quase, lendo, me deliciando, com cada notícia sobre o vôo da delegação até o Japão, os treinamentos, a visita de Raí ao elenco, a discussão sobre a renovação de contrato com o Amoroso, os novos uniformes, a preocupação com o fuso horário, comida, frio.

Cada instante era saboreado com muita satisfação, mas também nervosismo, afinal, o dia da estréia, contra o Al Ittihad, da Arábia Saudita, se aproximava. Eu quase não conseguia trabalhar, fazia tudo a toque de caixa, irritado por ter que parar tudo para fazer minhas obrigações. Ao menos após o almoço as informações cessavam, pois já era madrugada na terra do sol nascente, e aí eu conseguia me acalmar e trabalhar normalmente.

E torcedor tem cada loucura. Eu inventei uma pior: na véspera do confronto da semifinal, resolvi dormir de noite e acordar de madrugada, para assistir a duas fitas VHS dos dois Mundiais de Clubes que o São Paulo já havia ganho, sobre o Barcelona, em 1992, e sobre o Milan, em 1993. Depois dessa maratona ainda tinha o DVD da Revista Placar da campanha na Libertadores de 2005, com todos os gols da trajetória, mais a última partida contra o Atlético-PR na íntegra. Mesmo caindo de sono, cochilando às vezes, eu completei a jornada quase em cima da semifinal começar. A tensão era enorme. E a perplexidade ante ao susto saudita era mais grave. O sufoco só acabou mesmo quando o juiz apitou o fim da peleja, para alívio meu. Só aí que eu fui começar a me arrumar, respirar fundo e sair para o trabalho.

Já os dias antes da finalíssima foram terríveis: a tensão aumentava a cada dia que passava e a ansiedade por novidades também, fazendo com que eu não parasse e acessar os sites para ver se havia alguma notícia. Na madrugada da final eu retomei o ritual maluco e assisti a boa parte dos vídeos, porque no jogo do Milan eu cochilei e faltou tempo para ver o jogo inteiro contra o Atlético-PR.

Era chegada a hora. 8h20 da manhã de 20 de dezembro de 2005. São Paulo versus Liverpool. Só para quem ama um clube e sabe o significado de um título como esse – ainda mais tendo a possibilidade de vê-lo de perto, não como criança aos 11, quando o time ganhou o bicampeonato em 1993 – sabe a importância de uma conquista dessas. Sem falar no medo da frustração que uma derrota poderia causar. Claro, temos que levar em conta que o torcedor, na hora do jogo, é absolutamente irracional, se esquece de que há muitas outras coisas mais importantes. Mas, permito-me nesta coluna a fechar meus olhos para o mundo e olhar para a grande final.

Quem viu lembra o jogo que foi: o São Paulo foi acuado boa parte dos 90 minutos, com Rogério pegando todas as bolas impossíveis e inimagináveis que um goleiro pudesse pegar. Os três gols (bem) anulados pelo árbitro mexicano, levando à loucura os ingleses, e no desespero os são-paulinos. Mas nada iria derrubar a muralha tricolor. O trio de zaga dando bordoada na bola e nos oponentes para tudo que era lado, os volantes mordendo no meio, a dupla de ataque marcando e partindo em velocidade, os laterais mais preocupados na marcação. O Liverpool que não tomava gols havia 11 jogos, tomou um senhor gol, em lançamento do zagueiro Fabão, metida de bola do centroavante Aloísio e gol do baixinho e simples Mineiro, o volante monstro do time.

O sonho se tornava real. Tricampeão mundial de futebol. Nenhum outro clube tem mais mundiais, Boca Juniors, Peñarol, Nacional do Uruguai, Real Madrid e Milan também têm três. Ninguém tem quatro. O grito ao final do jogo, num gesto de desabafo, alívio, dor, alegria Avenida , raiva, emoção. Foram 15 minutos berrando a plenos pulmões: é tri, é tri, é tri!!! Telefonema daqui, dali, vibração, incredulidade. Resolvi sair para comemorar na praça Campos de Bagatelle, Zona Norte de São Paulo, onde ocorria a festa. Lá que comprei minha bandeira tricolor e a envolvi nas minhas costas, mostrando para todo mundo as três cores mais felizes do mundo naquele dia.

No dia 20, a delegação voltava do Japão, sendo recepcionada por mais de 10 mil torcedores no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Eu resolvi esperar os campeões no centro. Isso mesmo, faltei em plena terça-feira no meu serviço para caminhar pelas ruas atrás do trio-elétrico, saudando os jogadores. Segui boa parte do trajeto, pelo menos da Estação Luz do Metrô até a 23 de Maio, numa volta de mais de três horas por todo o centro da capital.

Quem viu na televisão sabe a loucura que foi: a cidade toda parada, trio elétrico acompanhado por milhares de torcedores, que depois encheram as numeradas do Morumbi para saudar os verdadeiros heróis. E eu ainda fui pro estádio do Morumbi ver a chegada de poucos atletas que nem tinham mais pique, depois de andar o dia todo pela cidade. Cheguei em casa morto de cansaço, mas feliz em êxtase por tudo aquilo que tinha a oportunidade de vivenciar. Pois uma coisa é você saber que seu time há décadas atrás foi campeão do mundo, outra é você estar ali, acompanhando, sofrendo e vibrando tudo aquilo.

Foram momentos inesquecíveis e que vão ficar marcados para todo o sempre em minha memória e em meu coração. Duvido muito se um dia voltarei a viver algo como aquilo, ainda mais da forma que tudo aconteceu. Foi algo único, que poucos conseguem ter. Só de descrever isso neste momento sinto uma sensação forte, uma grande emoção, ao lembrar aqueles dias maravilhosos. Como eu disse, é difícil explicar. Mas vale a pena lembrar, agora que faz um ano que o São Paulo se igualou definitivamente entre os maiores do mundo.

São Paulo - Tri Campeão Mundial de Futebol - 1992-1993-2005.