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04 a 19 de fevereiro de 2007
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CADERNO ZERO #52

BANCO CINZA É DESCULPA
Falta de educação e solidariedade do paulistano afloram no Metrô
por Rodrigo Herrero (rodrigo@rabisco.com.br)

tilizar todos os dias os trens do Metropolitano de São Paulo é uma verdadeira aventura. Principalmente nos horários de pico, que, hoje em dia, preenchem quase todo o horário de funcionamento das linhas, que iniciam os trabalhos às 5h40 e encerram por volta das 0h30. Empurra-empurra, tumultos, xingamentos, discussões, trem atrasado, lento, filas imensas nas catracas, enfim, um estresse danado para quem usa o Metrô para se deslocar dos bairros-dormitório da cidade até o emprego.

Mas o pior dentro dos trens do Metrô é a falta de respeito, educação, bom senso e solidariedade que assolam as pessoas e simboliza um pouco o individualismo egoísta característico do mundo de hoje e das metrópoles brasileiras deste tempo. Dar lugar no metrô para alguém que se mostra necessitado é fato raro, a não ser quando obrigado pelos olhares reprovadores dos demais passageiros em pé ou quando alguém começa a passar mal. Aí não tem como fugir. E quem sofre mais com isso são os idosos, gestantes, pessoas com criança de colo e cidadãos com necessidades especiais.

Para aliviar essa situação foram instituídos, há tempos já, os bancos cinzas preferenciais, colocados ao lado das portas, garantindo o direito que consta na lei de que as pessoas citadas acima devem ter bancos especiais para sentar. No entanto, os bancos cinza se tornaram uma desculpa esfarrapada para as pessoas que sentam nos assentos marrons, livres da obrigatoriedade especial, abrirem mão de toda a educação e bons sensos possíveis. Ou seja, se tem algum idoso em frente a um banco marrom, é comum a pessoa sentada fechar os olhos e fingir que está dormindo, para não ter que ceder o lugar, enquando o senhor ou senhora de idade sofre com os solavancos do trem. Parece falar algo assim: “Vá procurar seu banco cinza que aqui é meu”.

A luta é tão grande para obter um lugar nas estações-terminais (principalmente na linha 3 – Vermelha Corinthians-Itaquera – Palmeiras Barra Funda, ocorrendo algo semelhante na Linha 1 – Azul Jabaquara – Tucuruvi) que as pessoas se sentem donas do assento até o fim de sua jornada pelos trilhos. “É meu e ninguém tasca!”. E quando se vêm obrigadas a ceder o lugar o fazem com ar contrariado, quase resmungando. Não se usa o imperativo: “Sente aqui, senhora”. Prefere falar: “Quer sentar?”. Se o interlocutor titubear, fica sem lugar, porque a pessoa não levanta, a não ser que a outra diga sim.

Exemplo desse egoísmo absurdo ocorreu outro dia, enquanto eu tomava o metrô rumo ao meu emprego. Entro na segunda estação da Linha 3 – Vermelha, Artur Alvim, na zona leste da capital paulista. Ali, o trem já estava cheio, com pouco espaço até para ficar em pé. Depois que arrumei a mim e a minha mala, percebi algo revoltante. À minha frente tinham quatro bancos marrons, todos ocupados por pessoas que dormiam, ou apenas estavam com os olhos fechados. Duas mulheres e dois rapazes, adultos, apenas um parecia passar dos quarenta. No canto da porta, ao lado desses assentos, um homem negro, devia ter uns vinte e tantos anos, segurando uma criança, provavelmente sua filha, de uns quatro, cinco anos, no máximo. E ninguém fazia menção de indicar algum lugar, muito menos de cedê-lo. No máximo, uns buscam algum banco cinza para indicar à pessoa. Mais nada. Naquele dia, nem isso.

E como se não bastasse o cúmulo dessa situação, percebi outro agravante que apontava para o imperativo de deixar o homem com sua filha sentar num banco. A garotinha possuía apenas as pernas, sem os pés e, nos braços, apenas o direito tinha mão. Oras, se no caso de uma criança sem esse problema, ela até poderia ficar em pé, neste não há preciosismo do pai em segurar a filha no colo, pois, simplesmente, ela não consegue ficar em pé! E assim foi por toda a viagem, de aproximadamente 30 minutos, até a estação Sé, que faz baldeação com a Linha 1 – Azul. Engraçado que, uma estação antes, a Pedro II, as pessoas sentadas acordavam, olhavam ao redor, como que despertando de um sono profundo, bem poucos minutos antes de desembarcar. E sem nenhum ar de preocupação ou dor na consciência. Curioso, se não fosse patético. Diante disso, a raiva é tanta que dá para duvidar se isso também ocorresse caso fosse uma mãe com uma criança branca e loira.

E cenas como essa ocorrem todos os dias, sendo os idosos os que mais costumam sofrer. É comum também a pessoa que vai ceder o lugar hesitar, pensar em si próprio primeiro, aguardar alguns segundos, para ver se não surge outro para dar o assento, e se livrar desse “incômodo”. Outra é esperarem chegar a sua estação para descer e, finalmente, dar o lugar para a pessoa. “Ah, só faltam duas, ela que espere!”. Tem também os bancos cinza, que costumam ficar vazios, quando não estão ocupados por quem de direito. Ninguém quer sentar lá para ter que levantar logo na frente, porque “algum velho pode aparecer e me tirar daqui”.

E o cúmulo maior é quando alguém, sentado no banco cinza, vê uma pessoa que tem o direito de sentar ali e, simplesmente, faz vistas grossas para aquilo. Esse fato aconteceu dia desses também. Uma jovem, sentada no assento cinza, viu a entrada de uma idosa e nem fez menção de nada. Eu, que estava no banco marrom, levantei e cedi meu lugar para a senhora. Nem é para achar que está certo, é questão de bom senso. Não é porque existe banco cinza preferencial que os outros não devem ser usados dessa forma. E a senhora idosa nem queria sentar, disse que não era para me incomodar, etc. Mas sentou, mesmo assim e foi até o seu destino, que durou, pelo menos mais uns 20 minutos. A recusa dela é educação, mas, nem por isso, as pessoas devem desistir e sentar de volta. Tem gente que, só porque foi dito que vai descer logo, deixa pra lá também. Às vezes isso é feito por educação, uma coisa que anda muito ausente nos “cidadãos” brasileiros, que mal conhecem o significado dessa palavra em aspas e preferem tirar vantagem até em um simples assento de metrô.