OBRIGADO DE NADA, OBRIGADO A NADA
Como situações do cotidiano podem ser boas ou ruins, depende das pessoas.
por: Rodrigo Herrero ( rodrigo@rabisco.com.br )

á uma música dos Titãs, em sua fase áurea, que me chama muito a atenção. Trata-se de “Obrigado”, do álbum Tudo ao Mesmo Tempo Agora , de 1992, cantada pelo Nando Reis. É pouco mais de 1 minuto de canção, em que as frases “Obrigado, de nada. Obrigado a nada” são deflagradas em uma espécie de mantra, passando sua mensagem de forma mais direta e simples possível.
Nada como o bom e velho rock and roll para proporcionar isso: uma discussão sobre a educação do “obrigado” e sobre o que você faz ou não pelos outros, se você faz com algum objetivo, ou somente para ouvir um “obrigado”, ou se você está pouco ligando para aquilo e para a pessoa em si. Não é a toa a frase “obrigado a nada”. Afinal, você não fez nada, nada faz, então, por que eu devo agradecer? Agradecer ao quê? Pode não ser nada disso que a banda quis transmitir com a canção, se é que quiseram fazer de alguma forma. No entanto, é isso que eu absorvi e repasso, em uma análise despretensiosa, para o cotidiano de nossas vidas, repletas de idas, vindas, esbarrões e xingamentos.
Obrigado, de nada
A primeira situação que insiro aqui diz respeito a agradável surpresa que me deixou sem ação e com vergonha de mim mesmo outro dia. Entrava eu no ônibus com o fone de ouvido soltando rugidos sonoros, quando o cobrador, um rapaz jovem e de sobrancelhas pretas e grossas, causando uma impressão esquisita, balbuciou alguma coisa. Só que eu, na minha erma ignorância, olhava para a máquina que valida o Bilhete Único (cartão de “crédito” de passagens) tentando passar pela catraca que não autorizava minha passagem, e nem reparei no que ele dissera. Só depois que fui reparar que ele repetia a mesma frase a cada pessoa que passava pela catraca: "Boa noite", dizia ele de forma educada.
Minha cara foi ao assoalho do ônibus em segundos. "Pombas, o cara deu 'boa noite' e eu nem respondi", pensei. Tarde demais. A viagem já durara alguns minutos e ficaria estranho voltar, pedir desculpas pela não-resposta e dizer tardiamente o cumprimento. Percebi que algumas pessoas respondiam, até com simpatia e bons olhos, a galhardia do rapaz de simplesmente falar algo que não estamos acostumados a ouvir das pessoas que costumam esbarrar por nós no cotidiano, ou que nos (mal) atendem nos coletivos e demais serviços, públicos ou não. Resignei-me e fiquei contente em ver uma bela cena daquelas, apesar da minha falta de tato com a situação.
Foi interessante notar que ainda há pessoas que dão atenção a esse tipo de coisa, ainda mais nesse mundo tão individualista, egoísta e pouco cortês que brigamos, mais que vivemos, hoje. Só quem mora em megalópoles como São Paulo sabe do que estou falando. Aqui a maluquice e a corrida contra o relógio, pelo próximo trem, para pegar aquele ônibus antes do outro, impedem qualquer tipo de comunicação agradável. Infelizmente.
Obrigado, a nada
No entanto, como desgraça pouca é bobagem, no mesmo dia vivi outra situação que se assemelha mais com o que estou acostumado em viver no dia-a-dia. Estava eu no metrô, morrendo de fome, pronto para comer a primeira coisa que aparecesse na frente. E na estação Ana Rosa (Linha 1 – Azul) tem, no mezanino, um balcão de sorvetes, biscoitos, etc. Eu vi um pacote de uma bolacha que eu adoro e ia avançar naquilo mesmo, considerando uma janta nutritiva. Porém, um obstáculo estava à minha frente: nenhuma das atendentes queria fazer seu trabalho.
As três conversavam com uma outra, do outro lado do balcão, que já estava indo embora. Vai ver o assunto desta era interessantíssimo, pois as demais não conseguiam desviar os olhos, prestando atenção militar ao que ela falava. Eu cheguei a duvidar se o balcão estava aberto. Perguntei a uma delas: "Vocês estão abertos?". Só obtive uma resposta não-verbal, com a cabeça meneando para a baixo e para cima, em um “sim” distante, já que a moça nem sequer deu o trabalho de olhar na minha cara.
Foram os minutos mais longos e estressantes daquele longo dia. E já que eu estava com a maldita pressa pelo atraso ao meu compromisso, não me contive e saí fulo, sem aguardar que terminassem de falar o tão interessante tema que guiava o diálogo. Caminhei proferindo impropérios, com meu estômago gritando de fome e minha raiva subindo pelas paredes. Tudo por causa de três vendedoras que preferiam conversar e perder dinheiro ao invés de atender um consumidor. Ou seja, por mais que ainda existam poucas pessoas que sejam gentis e cordiais nessa cidade, a grande maioria reforça o desgosto que sinto pelo ser humano a cada situação como essa.  |