| Delirium Tremens #2
OS XIITAS DA VEZ
Revestidos com uma aura vanguardista, os consumidores de música independente se mostram tão radicais e estreitos quanto os metaleiros dos anos 80
por
Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )
chegada e conseqüente popularização da internet não alterou somente a maneira como as pessoas se relacionam com a música. Ela fez mais. Interferiu no modo de se fazer canções. Exatamente como os punks pregavam há 30 anos, a rede mundial de computadores viabilizou o “faça você mesmo” – ainda que de forma não tão intencional.
A partir do começo dos anos 90 – 95-96 no Brasil – a relação gravadora / artista começa a se modificar de forma considerável. A possibilidade de não precisar sair da garagem para gravar um disco, animou muita gente. Os grupos passaram a produzir suas próprias canções, sem precisar recorrer a ninguém para isso.
Tal acontecimento fez com que uma penca de novas bandas surgisse a cada dia. A troca de arquivos na internet possibilitou que artistas, dos mais variados estilos, pudessem mostrar seu trabalho para um número considerável de pessoas. E o melhor, sem pagar nada ou quase nada por isso. Dessa forma, medalhões do rock passaram a conviver pacificamente com as novas personas da música jovem no mundo virtual.
Procurar novos grupos de música pop na rede virou um dos passatempos prediletos da rapaziada hype . Ali está tudo que será “quente” e que dentro de pouco tempo fará a cabeça de milhões de pessoas. Ouvir em primeira mão quem vai fazer sucesso é essencial. A velocidade com que as informações se propagam alterou também o processo de se consumir música.
Se por um lado hoje ficou extremamente fácil gravar uma compilação de canções e jogá-la na internet, por outro a grande oferta faz com que os novos grupos sejam esquecidos com a mesma rapidez com que aparecem na cena musical. Muitas bandas surgem, poucas ficam para contar o final da história. Ou seja, o feitiço acaba virando contra o feiticeiro. É fato que tal fenômeno já existia antes mesmo da chegada arrebatadora da web. Alias, essa é uma característica da industria cultural como um todo. A troca de arquivos na rede apenas deixou isso mais visível.
Intensificada a partir dessa nova conjuntura virtual, a chamada música indie é um dos exemplos mais notórios da ascensão da internet na esfera da música pop. Afinal, todo mundo que não faz parte do mainstream , da industria cultural “oficial”, tem a rede como principal meio de divulgação do seu trabalho. Mas além das questões “de mercado”, que interferem diretamente na comercialização do produto música, o fenômeno da web foi mais longe, já que reforçou o duelo em busca da supremacia do som, batalha protagonizada pelas diversas tendências musicais.
No centro da discussão, uma questão bizantina: o que é melhor, o que toca no rádio ou aquilo que está nos guetos, à margem ? Os chamados grupos independentes, teoricamente se opõem àquilo que se conhece por industria cultural – mesmo, direta ou indiretamente, fazendo parte do mesmo esquema daqueles que criticam. Ou seja, os artistas independentes vieram para ser justamente uma alternativa ao embuste das rádios comerciais. O problema é que, da mesma forma que há uma espécie de ditadura musical nos meios de comunicação populares (jabá e outros estratagemas), que vendem a idéia de que tudo que faz sucesso é bom, no mundo indie há um maniqueísmo muito parecido, só que às avessas.
Para os amantes do rock alternativo – geralmente pessoas instruídas, que utilizam a internet para conhecer e trocar informações sobre as últimas novidades do cenário musical –, apenas o que não toca no rádio nem está nos programas de auditório convencionais é o que vale. Ser conhecido, quase sempre é demérito – haja vista clichês como “traidor do movimento” e “vendido”, gritados em uníssono aos artistas que pretendem conquistar mais público. O popular não é bom nesse caso. Isso remete à outra questão igualmente jurássica que se reporta à singularidade da arte e sua popularização. Puro e simples elitismo idiota.
A fugacidade no território da música independente é facilmente verificada quando se olha o número de bandas que apareceram – e sumiram – nos últimos tempos. Há sempre um grupo, assim como na grande mídia, para assumir a função de “bola da vez”, o escolhido do momento. O messias.
O exemplo mais fresco é o dos britânicos do Arctic Mokeys, que antes mesmo de lançar o primeiro disco já figuravam nas cabeças das paradas de sucesso de Londres. Mas há outros. O Franz Ferdinand, banda-símbolo da geração internet, que lançou recentemente o aguardado segundo álbum, teve ascensão meteórica até virar a grande queridinha dos alternativos. No Brasil, por exemplo, o grupo paulistano Cansei de Ser Sexy, formado por cinco mulheres e um rapaz, trilhou o mesmo caminho dos indies gringos. Antes de lançar o disco homônimo, teve suas músicas veiculadas pelo site da gravadora Trama, para só depois estrear no formato convencional de CD. Mesmo sem disco, o sexteto conseguiu se apresentar na última edição do TIM Festival.
Tudo muito legal, mas o problema aqui é saber quem vai ficar para contar como foi o final da festa. Assim como os sucessos meteóricos forjados pela industria fonográfica e pelas rádios de apelo popular, vários desses grupos, que hoje são vendidos como a redenção da música pop, a salvação da lavoura, certamente amanhã não estarão mais nos computadores, podcasts e prateleiras de ninguém. Quer dizer, o sistema de marketing é sempre o mesmo.
Dito isto, a conclusão que se chega é que a música independente de hoje guarda os mesmos maneirismos e vícios da tão temida e bombardeada indústria musical, da qual supostamente os moderninhos se opõem. Refazendo o caminho que um dia foi trilhado pelos metaleiros, nos idos dos anos 80, quando o gênero dominou o mercado, os alternativos se metem em seus bares e clubinhos sem querer olhar para o lado. O atual domínio de bandas que saíram do underground é significativo. Eles realmente estão dominando o pedaço. Basta dar uma olhadela nos novíssimos grupos – Bloc Party, Kaiser Chiefs, Arcade Fire – e logo se constata que são todos oriundos do cenário independente, com som e estética bastante parecidos. Strokes e White Stripes? Esses já são considerados veteranos e, para muitos, clássicos do rock.
Em suma, a música independente virou tão fugaz quanto os grupos que fazem parte do grande esquema pop. O fato é que a música não pode ser sobrepujada pela moda nem tão pouco pelos rótulos – ainda que estes sejam ingredientes importantes. Há música boa em toda parte, seja no rádio popular ou nos programas cult . Não olhar para o lado neste território é, sem dúvida nenhuma, uma grande heresia.
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