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8 a 22 de abril de 2006

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Delirium Tremens #3

A INFINITA RESSACA
Entre umas e outras, o sonho...
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

cordei com a boca lacrada. O vinho tinha impregnado nos lábios e colado uma parte à outra. Quando abri o olho a cabeça começou a doer. Naquele momento eu só pensava, não falava. Falar após um porrete de vinho barato não dá. Fiquei no sofá por um longo tempo. Estava acordado, com os olhos abertos, porém imóvel. Com muita dificuldade fui ao banheiro. A visão era horrível. Meu rosto depois de um balaço de vinho ficava ainda mais feio. Não dava para encarar. Até eu me assustava. Os buracos do rosto ficavam mais explícitos. Os anos em que passei espremendo espinhas contra o vidro do banheiro foram impiedosos. Mas dá pra levar, é só não olhar muito.

Lavei o rosto com um pedaço de sabão de coco que tinha na pia. Jogava água no rosto com a esperança que a dor fosse embora. Não adiantou. Sei que não adianta, mas sempre repito o ritual. Voltei até a sala e vi um território desolador. Garrafas e bitucas de cigarro decoravam o ambiente que fedia mofo, mijo, vômito e outras porcarias.

Não lembrava nada do dia anterior. Tentava me esforçar para resgatar alguma coisa, mas não tinha jeito. Bem, pelo menos estou em casa, pensei. Dei mais uma olhada em volta e nenhuma pista do que acontecera na noite anterior vinha à tona. Sentei no sofá rasgado e comecei a chorar. Era um choro forte, daqueles que as lágrimas surgem sem esforço nenhum. Um choro de criança quando apanha porque fez uma traquinagem. Chorei durante um longo tempo. Chorei com gosto, isso eu lembro bem. Pensava nas coisas mais tristes que passei na vida e desaguava. Eu gostava daquilo.

Levantei do sofá trôpego, juntei uma cueca do chão e limpei o nariz. Dei mais uma olhada ao redor e voltei a chorar. Mas desta vez passou rápido. Estava triste por viver naquela situação precária, por não ter rumo e andar sempre com vagabundos piores do que eu. Desde que decidi viver da literatura só tinha passado perrengue. Nada de bom acontecera depois que saí do jornal e decidi ser um “homem das letras”. Meu emprego como repórter no jornal não era lá aquela coisa, mas segurava a barra enquanto eu tentava criar algo que valesse a pena. Mas sempre fui porra-louca. Por ser inconseqüente e acreditar no meu incrível “talento”, larguei tudo. Conviver com a turminha do jornal, o pessoalzinho cult, estava me matando. Não agüentava os babacas falando da nova intelectualidade da cidade, dos novos escritores, dos grandes “artistas” – todos, por uma incrível coincidência, da mesma roda de amigos. Seus oclinhos de aro fino me davam azia. A fauna do jornal não dava para agüentar mesmo. Quando pedi demissão todos adoraram. Diziam me respeitar, “pelos livros” que li, mas no fundo me odiavam. Fingiam ser cordiais.

O jornalismo entrou na minha vida por acaso e durante muito tempo eu acreditei no que fazia. Depois passou, foi piorando até eu ficar completamente injuriado do trabalho no jornal. Não queria viver enclausurado na redação com um grupinho seleto de “gente inteligente”. Meu negócio era a rua. Escrever sem pressão sobre o que bem entendesse. Falar com as putas da esquina, os catadores de papel, os comerciantes, ambulantes e empresários da noite. Gente de verdade. Pessoas que fazem a vida ser alegre, ridícula e cruel. Ou seja, as pessoas que movem o mundo. Essas criaturas é que fazem o mundo girar; e era ali que eu queria estar. Ver o mundo caminhar, fazer parte da engrenagem, mesmo que não fosse muito agradável. O jornalismo estava anulando minha visão. Eu via o que o editor que freqüentava os clubes da moda via. Não era para mim. Decidi sair fora. Literatura se faz nas ruas, não na universidade ou na redação de um jornal. O pensamento podia parecer ingênuo, mas era o que eu pensava.

Fiquei eufórico depois que saí do emprego. Passei três noites comemorando minha alforria. Estava excitado por ter a chance de me dedicar exclusivamente à literatura. Tinha um romance pronto e trabalhava em um livro de contos que falaria especificamente de personagens da minha cidade. Sabia que a literatura não dava dinheiro, mas, mesmo assim, resolvi apostar no meu taco. Seria um escritor. Não um jornalista-escritor, apenas um escritor. Não queria mais nada, só ser escritor. Na verdade queria me desvencilhar do rótulo de jornalista. Queria ser “o escritor”. Não queria mais ser chamado para publicar resenhas de livros. Não que eu não gostasse de redigi-las. Apenas queria me dedicar a escrever livros. A paixão pelos livros continuava. Mas ao invés de falar sobre os livros dos outros, eu escreveria os meus. Simples.

Durante o tempo em que trabalhei no jornal consegui publicar dois contos. Muito mais por ser amigo do dono do jornal de literatura em que os textos saíram do que por mérito próprio. E era justamente do círculo de favores que eu queria me desvincular. Caminhar com as próprias pernas. Sonhavam com altos vôos literários. Os dois contos que publiquei foi o máximo que consegui na literatura. Só. O problema é que a literatura não estava rendendo nada. Nem para o aluguel do cubículo onde eu morava. Este era o meu drama.

Enquanto relembrava minha trajetória e pensava na minha condição de escritor, fui ao banheiro e dei uma cagada. Foi uma cagada como nenhuma outra. As cagadas pós-porre são foda. Parece que os intestinos estão podres e parte da podridão sai para fora, com muita dificuldade, é claro. A mistura entre vinho, cigarros e ovos não é nada saudável. O corpo sente e faz o seu papel. Despeja para fora a merda. A mistura fina fede mais do que cadáver podre. A merda que sai após um porre é a mais fedida de todas, não dá para agüentar. Para piorar, meu banheiro não tinha janela e era quase um anexo da sala, o que deixava a casa intransitável. O fedor tomava o cubículo por inteiro.

Enquanto fazia o serviço, assoava o nariz com a minha cueca. Sofria há anos com uma coriza crônica que não me deixava em paz. Após uma noite de bebedeira, sempre piorava. As narinas trancavam e eu não conseguia respirar. Acabei de cagar e retornei à sala. A dor de cabeça não me deixava e para piorar comecei a sentir náuseas e ânsias. Acho que era a pior ressaca em muitos anos. Sempre as últimas ressacas são as piores, é óbvio. Mas esta estava me matando. Eu não conseguia fazer nada, tinha vontade de explodir minha cabeça, estava muito mal.

Com muita dificuldade vesti calça e blazer e sai. Achei que o sol e o ar fresco me fariam bem. Mas o fato é que o sol estava rachando meu crânio. Em certa altura tive que me escorar em um poste. Com esmero cheguei até o mercado. Fui ao banheiro e vomitei. Peguei um saco de macarrão e uma garrafa de água, paguei e saí. Meu dinheiro estava quase no final. O jornal me pagara uma grana considerável quando fui embora me dedicar às letras. Mas dinheiro acaba. O meu estava quase no fim. Estava ficando com medo. Sempre paguei minhas contas em dia e não queria posar de caloteiro. Mas eu não tinha muitas perspectivas, essa era a real. Não poderia voltar para o jornal nem arranjar outro emprego na área. Eu era orgulhoso e isso me fazia mal. Saí do jornal com mágoa e não queria voltar de cabeça baixa. A mágoa não era dos colegas e sim do jornalismo, do sistema e da vida. Era um sentimento que não morria em mim. Sempre me acompanhava. Às vezes ele ficava quieto dentro Do meu peito. Mas estava sempre a postos para desabrochar e foder com o mundo. A literatura era meu cano de escape. Ali eu escrevia o que queria. Tudo o que gostaria de dizer para os pedantes do jornalismo, para os cabotinos ignorantes que só enchem o saco com suas referências óbvias, seus filmes e diretores clássicos.

Mas eu fiz uma escolha e teria que arcar com as conseqüências. Iria com a literatura para o lugar que ela quisesse. Caminhava pela cidade pensando na minha condição de escritor sem livros, minha super-ressaca e minha carteira sem dinheiro. Parei em um poste para tomar um ar e vi um cartaz que anunciava um concurso de contos. Olhei novamente para ver se estava lendo certo. O concurso era promovido pela Secretaria de Cultura de uma cidade do interior e pagava um bom dinheiro ao vencedor da categoria de contos. Sempre achei os concursos literários uma coisa idiota. A literatura não foi feita para competir. Alias, os jurados deste tipo de competição quase sempre são escritores frustrados que acham que sabem alguma coisa. Por isso nunca dei bola a tais bobagens. Mas o momento era outro. Meu bolso vazio e minha cabeça doendo faziam com que eu olhasse para aquele cartaz com outros olhos.

O concurso era uma oportunidade de me livrar de alguns credores chatos que já começavam a incomodar. Era também uma chance de ganhar meus primeiros tostões com meus escritos de ficção. Mesmo não acreditando na competição, era uma prova de fogo para meus textos. Anotei na minha caderneta o endereço da secretaria e fui para casa. Não cheguei a me empolgar, mas fiquei pensando na possibilidade de ganhar o prêmio.

Cheguei no meu cubículo e fui escolher um conto para disputar o concurso. Olhava para a pilha de papel e nada parecia bom o suficiente. Observava com atenção e calma, mas não me decidia. Algumas coisas eram muito existenciais, pouco acessíveis para os críticos que gostam de histórias mais amenas, simples, com diálogos bem definidos e personagens exóticos. Mas o negócio era não pensar muito. Tinha que mandar logo o texto porque o prazo estava indo com o vento. Nunca achei que um dia escreveria por dinheiro. Não admitia a escrita apenas pela grana e estava eu ali a escolher o "melhor" da minha rarefeita obra. Estou fodido, pensei. Para piorar, a mais intensa ressaca dos últimos 15 anos não me deixava pensar direito. Eu conhecia meus contos de cabo a rabo e precisava apenas dar uma olhadela, de canto de olho, para reconhecer a história. Estava tudo na minha cabeça. Olhava e olhava e não nada. Entre uma olhada e outra pensava na minha vida. O sentimento de arrependimento, por eu ser um desregrado e bêbado, estava me deixando deprimido. Não conseguia concentrar minha atenção no que estava fazendo.

Novamente escorreram lágrimas em meu rosto. Fui ao banheiro e comecei a molhar a cara. Fiquei pensando em como arranjar dinheiro e me estabilizar financeiramente. O concurso de contos era o caminho mais viável naquele momento. Tinha que me esforçar. Peguei mais uma vez o sabão de coco e o esfreguei contra o rosto. Alguns pentelhos ficaram grudados na minha testa. Tive nojo e joguei água rapidamente.

Fui para a escrivaninha e comecei a digitar. A cabeça doía e logo nas primeiras palavras pensei em desistir. Queria afundar na cama e não sair nunca mais. Mas fui valente. Depois dos três primeiros parágrafos a coisa deslanchou. Movido pelo álcool que ainda circulava em minhas veias, batia no teclado desesperado. Estava com um ferimento no dedo e nem percebi quando as letras do teclado ficaram pintadas de vermelho. Parecia que eu estava em transe, batia com força nas letrinhas pretas e via o conto nascer da raiva e da desilusão. Escrevi com vontade, ignorando o meu estado físico. As palavras saíam com facilidade e a história aos poucos ganhava forma. Em poucos minutos, sem interrupções para correções, o conto estava pronto. Não o li. Dobrei-o em três partes e coloquei em um envelope. Sabia o que estava ali. Não precisava ler nem revisar. Eu estava sentindo o conto nas minhas veias. De certa forma aquele momento de frenesi me ajudou. Fiquei mais aliviado e com a sensação de dever cumprido. Fechei o envelope, enderecei e caí na cama. Naquela noite decidi que voltaria à vida convencional. Arranjaria um emprego e escreveria ficção de vez em quando, apenas por diversão. Em uma ou duas semanas ia começar a procurar trabalho.

Na manhã seguinte acordei com um baixo-astral pior do que o do dia anterior. Com muito custo despachei o conto pelo correio e fui à padaria comprar pão. Passei longe da seção de bebidas. Iria parar de beber, estava convicto. Nas semanas que seguiram o baixo-astral não me largou. Ficava em casa olhando para o monte de livros e papeis contendo meus contos em cima mesa. Meu prazo para procurar emprego já tinha expirado há tempos e eu ainda não tinha me movido. Durante mais de um mês não fiz absolutamente nada. Só dormia, comia e vegetava.

Em uma manhã ociosa fui fazer uma gemada quando vi um envelope debaixo da porta. Era marrom e não muito grande. Olhei e não dei muita importância. Mais uma conta, disse baixinho. Comecei a fazer a gemada e resolvi abrir a correspondência. Levei um susto que me gelou inteiro. A carta dizia que eu fora agraciado com o primeiro lugar no concurso de contos e estava recebendo o cheque com o valor do prêmio. Não acreditei. Depois de muito azar e dor, um lance de sorte. Parei de mexer o ovo e coloquei a mão na cabeça. Olhei novamente para ver se estava lendo certo. Estava tudo lá: meu endereço, meu nome e um exemplar da revista contendo os contos dos dez primeiros colocados. O meu estava bem no meio, em destaque.

Virei a cabeça, olhei para os meus papeis amassados em cima da mesa. Dei um sorrisinho de satisfação. Era a primeira vez que ganhava dinheiro com literatura. Estava em êxtase, não agüentava de felicidade. Fiquei em pé olhando o cheque e dando risada. Sorri tanto que a minha barriga começou a doer. Sentei na cadeira, abri a geladeira e peguei uma cerveja. Meus planos de voltar à rotina, à vida convencional e de parar de beber foram abortados naquele instante. Eu era um homem livre outra vez. Pelo menos até acabar o dinheiro do prêmio eu seria um escritor, nada mais do que isso, apenas um escritor.