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2 a 16 de maio de 2006

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Delirium Tremens #4

JORNALISMO SEM ESPINHOS
Periódico cultural independente se ancora no jornalismo literário ao reportar as tradições e mitos de uma região do Estado do Paraná
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

onta Grossa é uma cidade do interior do Paraná com pouco mais de 282 mil habitantes. Fica a 100 Km de Curitiba, a capital. Como quase toda cidade do interior, guarda, entre ruas e praças, um certo ar de marasmo, em alguns momentos até mesmo de uma sublime apatia. As pessoas caminhando em silêncio, rumo às suas casas e empregos, enfrentando com valentia as ladeiras que se sucedem, ajudam a dar forma a um lugar tipicamente paranaense: frio, com muito pinhão, Araucária, leite quente e descendentes de imigrantes vindos do Leste Europeu com sotaque carregado (que ninguém admite ter, é obvio).

Para a maioria da população, as características que envolvem e dão o tom do local nem chegam a ser notadas, passam batidas, são encobertas pela rotina do dia-a-dia que ofusca os detalhes mais simples – mas tão importantes para a identidade da região. Foi justamente a partir dessa espécie de névoa cultural, que teima em encobrir as tradições mais populares e evidentes das cidades interioranas, que dois jornalistas paranaenses resolveram criar o “Grimpa”, um jornal cultural que ajuda a difundir características da realidade local que, diga-se de passagem, são tão evidentes quanto obscuras.

Colegas de faculdade, Ben-Hur Demeneck e Rafael Schoenherr, editores do periódico, resolveram apostar em um jornalismo raro nos dias de hoje. Pautados pela tradição oral, pelos costumes regionais e por um resgate da cultura que cerca os Campos Gerais – região do Paraná que se caracteriza pela existência de campos limpos, permeados de matas de galeria e capões –, os jornalistas criaram um meio de comunicação que se propõe a chegar aonde a grande mídia não chega – ou não quer chegar. Ou seja, o “Grimpa” tem como matéria-prima temas “esquecidos”, de menor relevância aos olhos dos meios de comunicação mais tradicionais.

A começar pelo nome do jornal – grimpa é uma espécie de galho espinhoso da Araucária, árvore-símbolo do Paraná, comumente usado para fazer fogueira –, tudo o que é publicado nas 16 páginas do tablóide remete à cultura paranaense. Seja em textos que desbravam Ponta Grossa ou em matérias que ultrapassam os limites da cidade, o que interessa é dar voz a pessoas que, aparentemente, não têm muito a dizer.

É justamente aí que reside a grande “sacada” do “Grimpa”. Os textos são fruto de muita conversa, de caminhadas longas e bate-papos despretensiosos. Redescobrir lugares esquecidos da cidade e trazer à tona personagens pouco acostumados com os holofotes é um dos objetivos do jornal. Distribuído gratuitamente em diversas cidades no Paraná – principalmente na região dos Campos Gerais, mas também na capital –, o “Grimpa” também conserva um lado on the road , que ajuda a enfatizar o aspecto documental do periódico. Na última edição (#4), por exemplo, há uma matéria sobre a divisa entre os Estados do Paraná e Santa Catarina (“Onde Acaba o Paraná”), em que o trajeto feito pelo jornalista que assina o texto se mostra tão importante quanto a descrição do local visitado. Utilizando-se de recursos do jornalismo literário, os colaboradores do “Grimpa” vão, pouco a pouco, “redescobrindo” a cultura local, suas histórias e mitos. Ou melhor, talvez o mais sensato seja dizer que o “Grimpa” apenas traz para o âmbito do jornalismo tudo o que pode ser percebido nas ruas, casas e praças das cidades retratadas. Lugares em que ainda se toma Kisuco de groselha e se come sorvete seco; que se fala “piá” (menino) e “dolé” (picolé).

Aliás, os maneirismos, gírias e cacoetes dos habitantes da região também têm seu lugar nas páginas do “Grimpa”. Cada edição do jornal tem um título, todos levando em consideração a tradição oral do local. A iniciativa, segundo os editores, é uma maneira de se aproximar ainda mais do público, já que os nomes das edições – “Caminhand(inh)o contra o vento” (#01), “Ê tempo loco” (#02), “Mecê dos qualé?” (#03) e “Que dê-lhe?” (#04)” – são todos oriundos de gírias que fazem parte do vocabulário regional. É um trabalho que requer sensibilidade e percepção aguçadas. Em que os detalhes fazem a diferença. Uma travessa abandonada ou um comércio que resiste ao tempo, tudo pode virar uma boa pauta para o “Grimpa”.

Além disso, o jornal publica contos, poemas, crônicas e entrevistas com gente que produz cultura no Estado – os primeiros números foram dedicados ao escritor Cristóvão Tezza, ganhador do prêmio de melhor romance de 2004 (O Fotógrafo), atribuído pela Academia Brasileira de Letras.

Ignorando os clichês tão comuns no meio jornalístico, o “Grimpa” surge como uma opção diferenciada para o jornalismo de um Estado que já teve experiências independentes bastante significativas – haja vista os exemplos da revista “Joaquim”, editada, entre 1946 e 1948, pelo então garoto Dalton Trevisan, e o jornal “Nicolau”, que durante dez anos foi considerado o melhor periódico de cultura do país –, mas que ultimamente anda meio carente de projetos dessa natureza.

Jornalismo, assim como literatura, se faz com pequenas ações. O “Grimpa”, bem como o também paranaense “Rascunho” (jornal literário), é um exemplo de que no campo da cultura não adianta apenas lamentar pelos incentivos perdidos, é preciso mais, é preciso atitude e vontade.