| Delirium Tremens #5
FUTEBOL PARA QUEM GOSTA DE LITERATURA
Em tempos de Copa, lembrei de um livro. Um livro de Nick Hornby que traz, pela primeira vez, o peculiar existencialismo pós-moderno do escritor inglês
por
Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )
ara alguém que mora em um lugar conhecido mundialmente como “país do futebol” é difícil imaginar que possa ser superado quando o que está em jogo – o trocadilho não é proposital – é o verbo torcer. Afinal, recordando a mitológica frase do tricolor Nelson Rodrigues, somos a “pátria de chuteiras” e vivemos na “Meca da bola”. Ainda que nem todos no Brasil apreciem o esporte que consagrou Pelé, é difícil quem não sinta orgulho dos craques e da história gloriosa do esquadrão nacional – mesmo que seja um sentimento sazonal e oportunista que só aflora uma vez a cada quatro anos.
Os cinco títulos mundiais e as glórias dos times brasileiros são ingredientes que reforçam, mundo afora, nossa fama de povo apaixonado por futebol. Portanto, é quase inadmissível que alguém, não brasileiro, que esteja muito longe da América do Sul, e que não seja nem mesmo argentino (!), escreva um livro de memórias que deixaria qualquer flamenguista ou corintiano se sentindo um iniciante no mundo da pelota.
Na primeira incursão literária do hoje badalado inglês Nick Hornby, o escritor mostra que os inventores do futebol podem sim superar o fanatismo dos brasileiros e seus hermanos quando o assunto é gol. Febre de Bola é um retrato apaixonado de um louco, maluco e desvairado por futebol. Escrito em formato de diário, o livro, como o próprio autor adverte nas primeiras linhas, fala sobre “o que é ser torcedor”.
A narrativa de Hornby se atém ao período que vai de 1968, quando o autor tinha 11 anos, até 1992, quando Febre de Bola é lançado. Levado ainda garoto pelo pai ao estádio do Arsenal, Highbury Park, o escritor, após um primeiro momento de desdém e rejeição ao esporte, se vê tomado pela atmosfera agitada do futebol.
Dividido em três grandes capítulos – 1968-1975, 1976-1986 e 1986-1992 –, a narrativa é pautada pelas partidas do Arsenal. Aí reside justamente o ponto fascinante do livro. A vida de Hornby é guiada pelo futebol. Ou melhor, pelos jogos do clube londrino. Como o próprio autor relata, seu fanatismo recai mais sobre o Arsenal – e a seleção inglesa, é claro – e menos sobre o futebol em geral. Talvez esta seja a maior diferença entre um inglês e um brasileiro quando se fala em torcer. No Brasil o futebol está de tal forma impregnado nas veias brazucas, que um jogo da terceira divisão pode ser mais interessante do que uma notícia que trate do aumento do salário nacional.
Mas o que realmente chama a atenção em Febre de Bola é a forma com que Hornby apresenta o futebol para seus leitores. Misturando fatos de sua vida pessoal, como a separação de seus pais, seu relacionamento complicado com a madrasta e seus diversos amores, o escritor faz com que o livro pegue pelo pé até quem não aprecia o esporte mais praticado no mundo. Os relatos do cotidiano suavizam a narrativa, dando fôlego a um livro que fala, de modo simples e profundo, de um esporte que desperta amor e ódio nas pessoas.
Muitos dos elementos que marcariam, anos mais tarde, o estilo de Hornby podem ser percebidos em Febre de Bola . O jeito simples de escrever e as célebres especulações filosóficas do autor, que pedem o uso sem limites de parênteses e travessões, estão a serviço do escritor para descrever gols, caneladas, sorrisos e decepções. Aqui o estilo de Hornby começa a ser lapidado. O livro é mais do que uma simples estréia. Além de servir como uma espécie de laboratório particular para Hornby, Febre de Bola é a porta de entrada do autor no seleto grupo de autores ingleses que conta com nomes como o de Ian McEwan, Salman Rushdie e Jonathan Coe – ainda que o autor de Um Grande Garoto esteja mais próximo de Irvine Welsh (Trainspotting) e Alex Garland (A praia).
A música, que seria o ponto central no aclamado Alta Fidelidade , três anos mais tarde, também dá o ar da graça em Febre de Bola . Discos dos Buzzcocks, Bob Dylan e Beatles servem para apaziguar o estresse entre uma partida e outra. Nesta época o toca-disco de Hornby já era bem servido.
A paixão do autor é tão grande pelo seu Arsenal, que Hornby chega a cogitar que sua sorte na vida está diretamente ligada aos resultados do time londrino. Se o Arsenal ganha, sua vida melhora, seus relacionamentos amorosos seguem de vento em popa e o cotidiano profissional é menos chato. O autor vai a (quase) todos os jogos do Arsenal em Highbury e em muitas partidas fora dos domínios da equipe de Londres.
Mas em um livro sobre a paixão que o futebol desperta nas pessoas, mesmo que inventivo como Febre de Bola , não podem faltar linhas sobre o país da bola e seus supercraques. O Brasil entra em campo logo nos primeiros parágrafos. No capítulo intitulado “Pelé”, Hornby comenta a vitória tupiniquim sobre a Tchecoslováquia na Copa de 1970 no México. A seleção canarinho – para muitos o time mais fabuloso que já surgiu no planeta – é citada com superlativos. O autor lembra a partida entre o English team e o esquadrão de Tostão, quando chorou após o triunfo dos brasileiros. Mas as citações ao melhor futebol do mundo ficam por aí. Afinal o livro é sobre o que é ser torcedor e não sobre como se joga um bom futebol. Então é melhor falar sobre as alegrias e decepções de Hornby, um torcedor especial.
E se o palco é a Inglaterra dos anos 70, então os Hooligans não podem estar de fora. Durante as décadas de 1970 e 1980, torcedores ingleses foram personagens de episódios que fizeram a má fama daqueles que freqüentavam estádios de futebol no Reino Unido. Enquanto Hornby dava uma aula de inglês e se preparava para curtir, junto com seus alunos – que eram italianos –, a final da Copa dos Campeões da Europa de 1985, entre Juventos e Liverpool, torcedores do time inglês avançaram contra os juventinos iniciando uma grande confusão. Sentindo-se acuados, os italianos ficaram pressionados contra um muro que acabou cedendo. Durante o tumultuo, 39 pessoas morreram.
Ao narrar as barbaridades cometidas por uma das torcidas mais violentas do planeta, Hornby faz um mea-culpa, admitindo que nem as irracionalidades geradas pelo fanatismo do futebol o afastaram dos estádios. Mas mesmo nos momentos mais constrangedores e dramáticos do livro, o escritor consegue amenizar sua paixão, colocando uma boa dose de ironia e humor nos fatos narrados. Tal senso de humor voltaria com força total no já citado Alta Fidelidade e em Um Grande Garoto , seu terceiro rebento. Aliás, como livro de ficção, este último é sua melhor obra. Mais do que o habitual humor e as tiradas pop, no seu terceiro livro, a auto-ironia é o que mais chama a atenção. Um dos elementos essenciais da narrativa de Hornby é a sinceridade com que o autor escreve suas histórias. Mesmo nos seus livros de ficção, a impressão que se tem é que se está lendo sobre a vida do próprio autor e não de personagens inspirados em amigos, parentes ou conhecidos. Em Febre de Bola isto fica ainda mais evidente.
Considerado um dos autores mais talentosos da nova geração de escritores ingleses, Hornby ganhou fama após aproximar a literatura daquilo que muitos chamam de “generalidades pop”. Sua narrativa é povoada de referências à música, ao cinema e ao estilo de vida da classe média. Isso, aliado ao seu talento para formular histórias simples e “bacanas”, foi o suficiente para que o calvo escritor conseguisse angariar um séqüito fiel de leitores no mundo todo. Seus três primeiros livros foram adaptados para o cinema – nenhum à altura dos romances – e seu nome figura entre adjetivos como legal, extraordinário e sensacional. Hornby virou best seller fazendo sempre a sua literatura, seguindo o mesmo estilo que o consagrou, mas sempre tentando surpreender seus leitores.
Febre de Bola é um livro escrito por uma pessoa que aparentemente não se enquadra no estereótipo do torcedor convencional – aquele que derruba cerveja nos outros, xinga sem parar e perde a cabeça quando alguém fala mal do seu time. Hornby é um inglês médio, culturalmente acima da média e que é vidrado em música, o que torna ainda mais interessantes e surpreendentes os livros que escreve.
Nick Hornby inicia o relato de Febre de Bola descrevendo sua infância, e, após 245 páginas e muitos jogos, gols e lágrimas, termina dizendo que ainda é o mesmo menino de 20 anos atrás, quando seu pai o levou pela primeira vez a um jogo do Arsenal. Ou seja, Febre de Bola é a prova de que torcer e amar um time de futebol é realmente um ato bastante idiota, mas – como todo amor – quase inevitável . |