Picosearch
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop
Rabisco - Revista de Cultura Pop Rabisco - Revista de Cultura Pop

28 de julho a 13 de agosto de 2006

Equipe Edições Anteriores

Delirium Tremens #6

OS INTELECTUAIS NA MARCA DO PÊNALTI
No embalo da Copa da Alemanha, intelectuais escrevem sobre futebol, tema historicamente rechaçado pela intelligentsia tupiniquim
por Luiz Rebinski Junior ( jrrebinski@yahoo.com.br )

futebol, tema atualmente soberano em todos os meios de comunicação, vem ganhando espaço em uma seara em que historicamente sempre foi repudiado. Aos olhos da grande maioria dos intelectuais o esporte mais popular do mundo sempre foi um mero instrumento de alienação das massas. Até pouco tempo atrás o chavão “ópio do povo” era repetido em uníssono pelas mais gabaritadas mentes. Parecia ser a definição mais correta para descrever o fanatismo mundial por um jogo aparentemente bobo em que o principal objetivo é chutar uma bola para dentro de um vão guardado por um homem de roupas estranhas.

Mas se no começo do século passado escritores como Lima Barreto e Graciliano Ramos tratavam de detratar o futebol com frases do tipo “é um espetáculo de brutalidade, um jogo estúpido”, dita pelo autor de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, hoje parece que o jogo está começando virar. A impressão que se tem é que os cérebros iluminados do começo deste século estão começando a se render à vibração do gol. A intelligentsia tupiniquim em particular começa, ainda que a passos lentos, a ver no futebol um meio de explicar o povo brasileiro e a sociedade. Nada que lembre a idéia de alienação e estupidez disseminada tempos atrás.

Tema preferido de nove entre dez antropólogos que tentam explicar o Brasil por meio de suas manifestações culturais, o carnaval vem cedendo espaço para o jogo em que (ainda) somos os maiorais. Devagar o número de livros que tem o futebol como tema predominante vai crescendo. Já bem maior é a quantidade de artigos escritos sobre o esporte em periódicos nacionais.

Situação bem diferente a dos anos 70, por exemplo, em que a política era um empecilho à difusão do esporte nas rodas de intelectuais. Em plena ditadura militar, a esquerda brasileira via no futebol um instrumento dos militares para “alienar” a população. O preconceito ideológico se acirrou ainda mais com a vitória da equipe canarinho no México, que conquistou o tri-campeonato mundial, dando oportunidade a Garrastazu Médici e seus milicos de fazer marketing político com o triunfo da nossa seleção.

Mas claro que teve intelectual que defendeu nosso orgulho. O flamenguista fanático José Lins do Rego chegou a dizer que “o conhecimento do Brasil passa pelo futebol”. Já o existencialista Albert Camus foi além, dizendo que tudo que sabia sobre moral devia ao futebol. E, como que se tivesse ouvido a frase do autor de Fogo morto , mandou esta: “o conhecimento da alma humana passa por um campo”. No time dos defensores da bola na rede não dá para deixar de fora Nelson Rodrigues. O dramaturgo tricolor tinha tantos textos célebres sobre o futebol que em 2002, ano do centenário do Fluminense, a editora Companhia das Letras lançou O profeta tricolor , uma coletânea de crônicas do autor de Toda nudez será castigada sobre o time carioca. Em 1993 a mesma editora já tinha lançado À sombra das chuteiras imortais , a primeira compilação das crônicas esportivas de Nelson Rodrigues.

Porém, ainda que no passado tenha havido esporádicas manifestações de intelectuais favoráveis ao futebol, o esporte nunca foi tratado com muito apreço no ramo das idéias. Mesmo no âmbito da comunicação, que tem no esporte um de seus filões mais lucrativos, a bibliografia é escassa. A antropologia e a sociologia também ainda não se debruçaram sobre o tema com o devido empenho. Não se comparado ao carnaval, por exemplo. Também o cinema, pródigo em retratar histórias sobre esportes como basquete e boxe, ainda não deu ao mundo uma obra consistente sobre o futebol. Salvo raras exceções, como os dois longas-metragens de Ugo Giorgetti ( Boleiros ) sobre os bastidores da bola e outros documentários sem muito alcance, a sétima arte ainda está devendo neste ramo.

Na verdade o que vem acontecendo é uma mudança de postura por parte daqueles que trabalham e pensam a cultura do Brasil. Se antes o futebol era desdenhado e rechaçado de primeira, agora já há maior respeito pelo esporte – do ponto de vista sociológico –, que é tema de artigos freqüentes na imprensa nacional. Exemplo desse interesse súbito são os concursos de contos e grafites com temáticas voltadas ao futebol que os dois maiores jornais do país lançaram antes do início da Copa do Mundo da Alemanha. A Folha de São Paulo elegeu os melhores desenhos sobre situações do futebol e os publicou em seu caderno cultural, a “Ilustrada”. Já o Estadão escolheu 11 histórias de novos contistas, que foram publicadas em edição especial do “Caderno 2”. Sem contar que a Folha ainda saiu com dois suplementos especiais sobre futebol em que intelectuais das mais diversas áreas falam sobre suas experiências e relação com o esporte.

Se por um lado ainda falta muito para o futebol conquistar espaço relevante nos estudos acadêmicos e na literatura, por outro vemos uma espécie de mea-culpa por parte dos intelectuais, que sempre viram no futebol apenas uma forma escapista de encarar a vida, e não algo que possa ajudar a explicar a trajetória de um povo como o brasileiro. Se o súbito interesse é apenas fogo de palha, mero entusiasmo por conta de um campeonato que pára o país, veremos. Como diz a redundante e genial velha máxima do futebol, o jogo é jogado e só termina quando o juiz apita.